Cultura opõe-se a natura ou natureza, isto é, abrange todos aqueles objetos ou operações que a natureza não produz e que lhe são acrescentados pelo espírito (...). A religião, a arte, o desporto, o luxo, a ciência e a tecnologia são produtos da cultura.
António José Saraiva

em "Cultura", colecção “O QUE É”, Difusão Cultural, 1993.
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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

O manguito anti-caloteiros do Zé Povinho

Figura de Rafael Bordalo
Pinheiro, 1902
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Peço desculpa pela brejeirice deste artigo, mas é a única forma de falar do Zé Povinho, símbolo português do homem do povo. O inventor do Zé Povinho foi Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905). Ao que se sabe a figura apareceu pela primeira vez em 1875 para protestar contra os impostos, na revista Lanterna Mágica. Daí para a frente, torna-se numa figura popular. Contudo, só mais de vinte anos após a sua criação, é que Rafael Bordalo Pinheiro, na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha (projeto conjunto com Ramalho Ortigão), inventa a figura do Zé Povinho a fazer um manguito, o famoso TOMA.

Não é clara a origem da palavra “manguito”. No dicionário pode ser entendido como uma manga pequena, um regalo de peles (cilindro oco de pele para proteção das mãos contra o frio), ou o gesto obsceno com um braço dobrado sobre o outro, e a mão levantada fechada, que conhecemos ao Zé Povinho. O gesto e a palavra têm correspondência com o “corte de manga” espanhol e o “bras d’honneur” francês. Não sei qual a origem do gesto, mas não é um exclusivo português. No Brasil usa-se a expressão “dar uma banana”. Em qualquer dos casos, é sempre um símbolo fálico e pretende ofender a quem é dirigido.

A primeira menção escrita conhecida do “manguito” remonta ao século XVII, de D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) na Feira de Anexins, numa discussão de trocadilhos entre três personagens:

— Você para a minha defesa, vale mais que uma manga (1) de mosquetería.
— Com que (2), só com o meu mangalho (3) se acha você bem?
— Olhem o mangaz (4), o pago que me dá !
— Até aquí, meus amigos, vai isso muito frio : necessitam os chistes(5) de manguito (6).

Notas da minha responsabilidade:
(1)    Manga – grupo, turma.
(2)    Com que – Porquê
(3)    Mangalho – Pénis grande
(4)    Mangaz – Desavergonhado
(5)    Chistes –  gracejos
(6)    Manguito – de pequeno mango (7).
(7)    Mango – pénis, cabo de ferramenta.

Como se pode ver, a utilização de “manguito” nada tem que ver com manga, de peça de vestuário, mas com mango, ou pénis. Parece ser lógico estar aqui a origem da expressão. O uso em Espanha de “corte de manga”, poderá ser uma corruptela do português.
Do atrás exposto, também não parece ser o manguito, uma variante ou derivante da figa - que vem do tempo dos romanos, imaginem. Nesta hipótese, o manguito seria uma espécie de figa mas em tamanho grande, não com os dedos (o polegar entre o indicador e o médio), mas com os braços. O popular “fazer figas” é torcer, fazer força, um gesto de magia, contra o Diabo ou algo que achamos que nos é prejudicial. A figa afugenta as coisas más e não é um insulto como o manguito.

Recentemente surgiu um Zé Povinho contra a agência Moody’s que atribuiu uma classificação de “lixo” à dívida portuguesa, mas é no retalho, nas lojas e restauração que encontramos mais frequentemente a figura do Zé Povinho. E lá está o célebre manguito, associado à frase “Queres fiado? Toma!”.

Tal como quando foi criado, nos dias de hoje, políticos irresponsáveis e caloteiros sem juízo, merecem um muito bem feito manguito do Zé Povinho. Aqui vão, pois:


Sábado, 28 de Janeiro de 2012

Vitorino Nemésio III: prosa e vida.


Figura da capa do romance "Mau Tempo no Canal".

Nemésio foi igualmente um importante romancista e contista. Destaca-se em especial, “Mau Tempo no Canal”, com a história daquela extraordinária personagem, “Margarida”, que parece ter existido na vida real do autor, embora com outro nome, como descobriu David Mourão Ferreira. Mas apesar do enorme fascínio que este romance é capaz de exercer sobre nós, é sobretudo noutras narrativas, talvez mais pitorescas, que encontro Vitorino Nemésio tal como o imagino: simultaneamente observador e divertido, como nesta passagem de “O Mistério do Paço do Milhafre”:

Quando o Abílio foi para o Brasil, a mãe dele fez-lhe medas e medas de camisas e de ceroulas. Lembro-me disso muito bem. Éramos uns poucos: o Abílio, eu, o Fausto, o Hemetério, o Francisco da Segunda, o Tiàzé. Mas estes dois não iam jantar nem passar tardes connosco, de bibes embrulhados ou pela mão dum criado, como o Chinchinho. Cheiravam a peixe e, quando o ranho era muito, limpavam-no à manga do casaco e engoliam o resto, fungando.
O Francisco da Segunda era miúdo e vivo como azougue; o Abílio pacato e pesado. O Hemetério tinha um corpo de galgo e pegava-se um pouco na voz; o Fausto estava acima de todos na escola e era pitosga. Quem o queria bravo era meter-lhe um calhau na algibeira ou puxar-lhe disfarçadamente pelas abas da jaca, quando estava a estudar. As duas coisas ao mesmo tempo, comandadas pelo Francisco da Segunda (que para isso piscava o olho), punham-no fora de si. Tornava-se muito vermelho, baixava a cabeça e investia. Então fugíamos todos; e enquanto o Segunda, leve como um macaco, o ia capeando, ouvia-se em coro o apupo selvagem:
– Fausteca doida! Fausteca doida!

O Abílio evitava tomar parte nestas montarias, bonacho e gordo. Só pensava nas marcas do jogo e num irmãozinho de cinco anos que tinha em casa e nascera fora de tempo: o Pirrilha. Sendo preciso, o Abílio corria cem metros dum fôlego e nem o Segunda lhe pegava: apertava muito os beiços, e, de rabona a dar, a dar, estalava a patada na meta que até se acabava o mundo! Mas, se corria muito, ficava a suar. Sentava-se nos degraus da escola e precisava de minutos para se lhe não ouvir o fôlego. Depois, limpava as bagadas do suor e ficava para ali um fraquezas, que o próprio Tiàzé lhe chegava o cuspo ao nariz sem perigo de chapada no focinho.
Tínhamos inventado havia pouco essa maneira suprema de levantar a luva. A mínima pega de palavras — uma aposta, um pião contestado — o mais forte ou afoito fazia peito:
– É mintira? É mintira?! Toca-me no nariz!

Além dos Açores e do mar, Nemésio era também um amante de serras e de moinhos: foi presidente da Associação Portuguesa dos Amigos dos Moinhos, e era proprietário de três moinhos no concelho de Penacova, em Portela de Oliveira. Daí, a Câmara Municipal de Penacova, após a dádiva pelos herdeiros de Nemésio de um dos seus moinhos ao Município, ter criado o Museu do Moínho Vitorino Nemésio. Essas viagens a Penacova talvez fossem devidas à amizade entre Nemésio e Manuel da Silva Gaio, seu professor de Coimbra, que fazem lembrar os apontamentos de Tomás Ribeiro sobre António Silva Gaio (pai de Manuel da Silva Gaio), na introdução de “Mário”. Imagino-os em passeios no Buçaco, e a banhos na Curia ou em Buarcos.

A propósito de serras, escreve Nemésio sobre a Arrábida, em “Ondas Médias”:

A Arrábida não é deste mundo. Depois dos cabreiros, é dos ermitas e dos poetas. Todos nós nos lembramos do austero Herculano das seletas, quando, entre lágrimas como punhos, filhas da nossa má sintaxe, nos obrigavam a entoar aquele «salvé, ó vale do sul, saudoso e belo!», o vale de A Arrábida. Ouvia-se latir o lebréu, e a brisa inclinar os topos do zimbro nos versos rijos de Herculano. As vezes a mão do sr. Professor enrijava a nossa a outro ritmo... Mas eram bons tempos. Havia vagar, havia estilo...

Na prosa, na poesia, como professor, enquanto estudioso, personagem da televisão, molinologista ou regionalista, Nemésio marcou todos os caminhos que percorreu.

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Vitorino Nemésio II: açoriano.

Vitorino Nemésio e os Açores
Embora vivendo no continente, as suas referências aos Açores são múltiplas e permanentes. É difícil recordar a obra e o autor, sem o identificarmos como açoriano, e como tentando definir as características exclusivas e diferenciadoras do ilhéu, da apologética do açorianismo. É desta forma que ele define o arquipélago em “Corsário das Ilhas” de 1956:

Os Açores são humanamente mais novos que a Madeira cerca de um quarto de século. Em vez de uma grande ilha pletórica que reduz Porto Santo a uma relíquia, como acontece ao grupo insular madeirense, pontuado pelas Desertas, dos Açores já se disse que são como um porta-aviões de seiscentos quilómetros, tantos quantos separam Santa Maria do Corvo. Embora a maior população e as maiores riquezas económicas e paisagísticas se concentrem na ilha de São Miguel, todas as outras ilhas conservam a sua originalidade e o seu poder, e o arquipélago desenvolve-se como uma teia de três malhas — os três grupos ou pequenas constelações de ilhas próximas — , omitido um dos quais, ou uma das mais ínfimas unidades (Santa Maria ou o Corvo, a Graciosa ou as Flores) se arrisca a harmonia do conjunto.
No extremo sudeste a pequena plataforma escalvada de Santa Maria vibra de motores de aviões: no extremo noroeste o Corvo persiste no seu velho sono sem história. Numa ponta do mapa, São Miguel com a sua velha civilização concentrada e progressiva: na outra, as Flores com o seu viver patriarcal e vaqueiro, não isento das visitas inopinadas dos cómodos que a emigração para a América provoca. No coração do sistema a Terceira couraça-se ainda como um velho reduto histórico, ressoante de combates e cheio de relíquias gloriosas: não longe, São Jorge refecha-se numa existência arcaizada de teares e de pascigos [pastagens]. A Graciosa conserva os seus vinhedos e a sua furna como que à margem do mundo: o Faial antepara a muralha vulcânica do Pico com um porto-canal e uma cidadezinha, a Horta, que alia a um viver semi-rural uma nota cosmopolita.
Os seiscentos quilómetros do porta-aviões açoriano referenciam-se a voo por nove manchas vulcânicas: a mais próxima da Europa a mil e quatrocentos quilómetros, a menos longe da América a três mil e seiscentos.

Outra curiosidade é a definição que faz do ambiente açoriano, por exemplo no epílogo de “Mau Tempo no Canal”, de 1944, romance hoje considerado um clássico da literatura portuguesa e a obra-prima de Vitorino Nemésio:

Um céu de algodão sujo tolda o arquipélago das nove ilhas; o «mormaço» apaga os contornos do mar e da terra, e, amolecendo os pastos à custa da pele do proprietário e do pastor, dilui e arrasta as vontades, dá a homens e a coisas uma doença quase de alma, a que os ingleses, médicos do bem-estar, puseram uma etiqueta como quem descobre uma planta nova neste mundo seco e velho: azorean torpor.

Só consigo comparar esta sensação, com a indolência provocada pelo calor, atribuída aos povos do sul. Mas o clima é aqui totalmente diferente, nada calmo. Baixa amplitude térmica, próxima dos 20 graus, com muito mais humidade, chuva e nuvens que no continente português, terramotos, vulcões, furacões, e sempre ao longe o grande mar. Diz Nemésio neste soneto:


AZOREAN TORPOR

Onde a vaga retumba eram as obras do porto:
Roldanas, guinchos, cais, pedras esverdeadas
E, na areia da draga, ao sol, um peixe morto
Que vê passar na praia as damas enjoadas.

A cidade? Esqueci... Um poeta é sempre absorto;
De mais a mais — talvez paragens abandonadas.
O que é certo é que entrei um dia naquele porto
Em que as próprias marés parecem arrestadas.

Porque a mais leve luz que se embeba na Barra
Embacia os perfis dos cais e dos navios
Em frente à linha do horizonte que se perde...

E um desconsolo, um não-partir paira nos pios
Das gaivotas sem céu que o vento empluma e agarra
Estilhaçando o arisco mar de vidro verde.

E no entanto, nada me faria pensar como lisboeta, que o açoriano se possa sentir desta maneira na sua terra. Talvez porque sempre tive a sorte, desde os tempos da faculdade, de privar com açorianos cultos e cosmopolitas, ativos e criativos. Mesmo na política portuguesa nacional os açorianos se distinguiram, bastando citar os nomes de Melo Antunes, Mota Amaral, Jaime Gama, Medeiros Ferreira e mais antigos, como Teófilo Braga e Hintze Ribeiro, mas também intelectuais como Antero de Quental ou Natália Correia e músicos como José Medeiros.

Nemésio não está para os Açores exatamente como Torga, por exemplo, para Trás-os-Montes. O que é comum a estas duas notáveis figuras, é o valor da obra escrita que nos deixaram e o apego à terra de origem, mas em tudo o mais eram diferentes. Torga nunca abandonou a imagem do provinciano de origens humildes e simples, da figura solitária e de alguma forma desconfiada e isolada. Ajudava a defini-lo como uma figura de princípios e de caráter, do “antes quebrar que torcer” serrano. Nemésio era um intelectual extrovertido que conviveu sempre com as grandes figuras da cultura do seu tempo. Era professor, gostava de falar pelos cotovelos, gostava de generalizar e teorizar, e gostava que o ouvissem. Nemésio inventa o conceito de “açorianidade”.

Sábado, 7 de Janeiro de 2012

Vitorino Nemésio I: poeta.

"Se bem me lembro"
Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (nascido a 19-12-1901 em Praia da Vitória na ilha Terceira, falecido a 20-02-1978 em Lisboa), publicou o seu primeiro livro de poemas muito jovem, em 1916. No ano seguinte publicaria o seu segundo livro e em 1920, dois novos livros. Até 1924, altura em que lança “Paço do Milhafre”, um livro de contos, todos os seus livros são de poesia. Os poemas revelam o homem, que se autodefiniu na sua última lição na Faculdade de Letras de Lisboa, em 1971, como um professor que “parecia não preparar as lições”:

“(...) realmente era raro trazer um plano de aula articulado ponto a ponto. Respeitava apenas o que se pode chamar as leis do campo de interesses — o título do curso e o assunto — procurando manter um mínimo de nexo didático. Isto me criou fama de professor interessante e persuasivo mas pouco fiel aos padrões. Sofri com o «mas» sabendo-o exato. Mas a vocação era essa, e ou me salvava resgatando a deficiência metodológica com certo poder socrático de acordar o nosce te ipsum fornecendo-lhe contudo, de caminho, algumas noções aferidas, ou teria de concluir por um desacerto de carreira imputável à escola que me selecionara e sobretudo a mim mesmo.(...)”.

Eram assim também as suas conversas televisivas, no programa “Se bem me lembro”. Imagino por isso, cada um dos poemas de Nemésio como uma viagem com destino, mas através dum caminho que só ele conhece e sabe conduzir. 


IDEAL

Voa, meu coração, mui brandamente,
Aos páramos da Luz e da Poesia!
É lá que hás de estar bem. Só lá se sente,
Lá se canta e se habita na Elegia!

Voa, meu coração, co’o Sol poente,
Vai no eco suave da Harmonia!
Sobe... sobe... e verás mui de repente
Aquilo que sonhaste em certo dia.

Voa, meu coração, que o Céu é belo,
Que só lá há o Prazer e a Ventura,
Voa, meu coração, pobre e doente,

Que, depois, satisfeito o teu anelo,
Hás de dizer-me assim da branca Altura:
Oh!... Deixa-me aqui estar eternamente!


BICHO HARMONIOSO

Eu gostava de ter um alto destino de poeta,
Daqueles cuja tristeza agrava os adolescentes
E as raparigas que os leem quando eles já são tão leves
Que passam a tarde numa estrela,
A força do calor na bica de uma fonte
E a noite no mar ou no risco dos pirilampos.

Assim, gloriosos mas sem porta a que se bata;
Abstratos, mas vivos;
Rarefeitos, mas com o hálito nebuloso nas narinas dos animais,
Insinuado nos lenços das mulheres belas, cheios de lágrimas,
Misturado às ervas grossas da chuva
E indispensável aos heróis que vão rasgar no céu, enfim, o último sulco!

Ser a vida e não ter já vida ― era um destino

Depois, dar a minha Mãe a glória de me ter tido;
A meu Pai, vendado de terra, um halo da minha luz; e tocar tudo,
Onde eu houvesse estado, de uma sagração natural; ―
Não digo como as Virgens Aparecidas,
Que tornam imbecis e radiosos os pastorinhos,
Mas como certo orvalho de que me lembro, em pequeno ―
Para lá da janela a luz cortada por chuva,
E uma prima que amei, a rir, molhada, chegando;
Mar ao fundo.

Tudo isto, e vontade de dormir, também em pequenino,
E logo uma mão de mulher pronta a fingir de asa aberta;
E preguiça,
Impressão de morrer do primeiro desgosto de amor
E de ir, vogado, num negrume que afinal é toda a luz que nos fica
Desse amor forrado de desgosto,
Como as estrelas encobertas,
Que, depois de girar a nuvem, mostram como estão altas:
Tudo isto seria aquele poeta que não sou,
Feito graça e memória,
Separado de mim e do meu bafo individualmente podre,
Livre das minhas pretensões e desta noite carcomida
Pelo meu ser voraz que se explora e ilumina.

Mas não. Do canto necessário
Para me diluir em som e no ar que o guardasse
(Como o nervo do degolado alonga em tremor seu pasmo)
Não chego a soltar senão uma vaga nota,
E a noite faz muito bem em vergar uma gruta sem ecos
No meu buraco vil de bicho harmonioso.

Deixarei, estampada pelo silêncio definitivo,
A ramagem fremente dos meus dedos, num pouco de terra
Estranho fóssil!


SEM TÍTULO

O sol fechou o dia
Sem mão nem chave;
A pouca luz que havia
Deu-a para uma ave.

Então a ave selou
Com seu sono seu ninho,
E a terra toda amou
Na casa do passarinho.

Um ovo é como uma chave,
Mas só abre a vida às penas.
Apetece ser ave!
Ter as mágoas pequenas.


DESENGANO

Já não estou para rosas! Gastei tudo.
Queimem o dia até ao fim!
Só sinto gosto no que mudo
E, se restar, é para mim.

Lá onde nem saudades,
Longe, sem mais desejos,
Errante e casto nas cidades,
Morto sem beijos.

E frio como o aço,
Forte de mão e úmero,
Íntimo no que faço,
Inteiro como um número.

Que a terra que nos come
Cria duro.
Nenhuma estrela dome
O que germina no escuro.

E lá, gastada em si, que seja a vida,
Sem flores nem passos sequer,
Coisa neutra, dividida
Fora de homem e mulher.

Assim se faça. E aumente
No mar a força do mar.

Que grande vela de repente!
O que eu gostei de navegar!

Domingo, 18 de Dezembro de 2011

Votos para 2012? Que seja o ano da economia.

Intermitentemente, neste blogue, onde se gosta mais de escrever sobre livros, também se fala de economia. E a esse respeito, 2011 foi um ano muito importante para Portugal. Que me desculpem a franqueza e o estilo, mas vou ser direto sobre o tema, sem paninhos quentes:

- O país sentiu-se enganado, não apenas por um político e um partido, mas por toda uma legião de políticos, diria mesmo, por todo o funcionamento do sistema político saído do 25 de Abril, onde durante muitos anos em cada eleição, vencia quem prometia mais benesses ao povo, caídas do céu. Vencia quem era mais demagogo, bem parecido e bem falante. Depois, iam irresponsavelmente pedir empréstimos ao estrangeiro. Por três vezes já, após 1974, tivemos de chamar o FMI para evitar a bancarrota. Sem essas intervenções, é muito provável que a democracia não sobrevivesse sem percalços bem maiores.

- Nas eleições de Junho de 2011, a maioria dos votantes decidiu apoiar partidos de direita, que apresentavam um programa liberal e cujo principal desígnio era o de pôr em ordem as contas do país. Pela primeira vez em muitos anos, os políticos que ganharam não prometeram o céu e a terra. Falaram em dificuldades e em cumprir um plano de austeridade assinado pelo PS, pelo CDS e pelo PSD, com a União Europeia e o FMI, como forma de ultrapassar as dificuldades financeiras.  

Desejo que 2012  seja novamente um ano muito importante para Portugal:

1)    Que sejam cumpridos os acordos assinados, e sejam obtidos os resultados esperados, para que não nos falte o dinheirinho, que tanta falta nos faz, e possamos, tão rápido quanto possível, saltar fora deste constrangimento para todos, que é o programa de austeridade.

2)    Que para além da austeridade, 2012 seja o ano da economia, o ano em que descobrimos o rumo que queremos traçar, e unimos esforços para o seguir. É uma caminhada que teremos de percorrer. Só assim se poderá garantir a manutenção de um “Estado Social”, com serviços estatais de educação e de saúde, subsídios públicos de reforma e de desemprego.

3)    Que nada de mau aconteça ao Euro e aos nossos parceiros europeus, porque precisamos deles com moeda e economia estável. Se eles estiverem mal, seremos arrastados. Este é um cenário que ninguém de bom senso desejará. Portugal beneficiará, como beneficia e já muito beneficiou desde 1986, ano de entrada na então CEE, com uma Europa forte, unida e solidária.

Compreensivelmente, em 2011, as nossas atenções estiveram sobretudo viradas para a austeridade e para os problemas financeiros. Dos comentadores económicos portugueses, poucos tentaram sequer, abordar o tema da economia. Aos especialistas que comentam, não basta dizer que o governo precisa ter uma estratégia económica, é preciso também lançar e discutir ideias, sugestões, propostas, projetos.

O último “Negócios da Semana” da SIC Notícias, transmitido na passada quinta-feira, dia 14-12-2011, deu  um bom pontapé de saída para se discutir o tema da Economia Portuguesa em 2012. O programa é da responsabilidade de José Gomes Ferreira, que tem demonstrado ser um excelente jornalista económico e nesta semana teve dois convidados de luxo: a de José Eduardo Carvalho, presidente da Associação Industrial Portuguesa, um conhecedor do universo empresarial, e a de José Ferreira Machado, diretor daquela que é hoje, a melhor faculdade de economia  em Portugal, a Faculdade de Economia da Universidade Nova. Os temas levantados ao longo do programa, são certamente um bom começo para discutirmos as questões económicas em 2012. Escolhi um pequeno excerto:

video

Parece lógico o conceito do Professor José Ferreira Machado sobre crescimento económico sustentável: temos de contar em primeiro lugar com as nossas próprias forças e vantagens competitivas. A miragem do investimento estrangeiro nos vir salvar, não é mais do que isso, apesar dos projetos de investimento estrangeiro serem bem-vindos e úteis a Portugal. Mas chegam tão facilmente, como se vão. A economia tem de ser recuperada pelas pequenas e médias empresas em articulação com as vantagens competitivas locais e nacionais. 
Tenho dúvidas sobre a ideia de criar em Sines, um porto gigante tipo Roterdão: uma vantagem de Roterdão é estar perto dos maiores mercados europeus, Alemanha e França. Sines, não só está longe dos mercados do centro da Europa, como também o transporte das suas mercadorias dependerá sempre da boa vontade de Espanha, de que não acredito, pois é potencialmente o nosso principal concorrente. Além disso, necessitará provavelmente de muitas centenas de milhões de euros, aplicados pelo estado. Os “investimentos produtivos” estatais, transformam-se demasiadas vezes em despesas gigantescas e improdutivas. Elefantes brancos pagos por todos nós, sem qualquer benefício. Admito estar enganado, e gostaria de ver debatido o tema mais detalhadamente, para formar uma opinião melhor fundamentada.

Diz Aquilino Ribeiro em “Aldeia - Terra, Gente e Bichos ”, creio que de 1946 (tenho a edição Bertrand de 1964), a propósito dos portugueses: “este português, filho da má sorte ou da felícia, não sabemos – que tem vivido sempre de ilusões, a Índia, o Brasil, as mouras, os tesouros enterrados no tempo dos franceses, o volfrâmio, confiado em tutelas, nem sempre eficientes, Santa Bárbara, S. Jerónimo, o brasileiro, o deputado, o senhor administrador – pouco faz para que tenha o seu poço cheio de água e a fonte da sua terra sempre a deitar com abundância e limpeza.”

A nossa última ilusão foi o Euro. Pensámos que podíamos viver com dívidas ilimitadas.

A dívida incontrolada não é coisa pouca: origina golpes de estado e ditaduras. O hitlerismo só foi possível como consequência dos desmandos da república de Weimar, o leninismo da corrupção do czarismo e Salazar, da anarquia em que caiu o regime saído do 5 de Outubro. Só não temos hoje em Portugal a hiperinflação e a desvalorização, irmãos da dívida que acompanharam aqueles regimes, porque perdemos a autonomia monetária, mesmo antes do Euro, e a Europa recusa imprimir (e oferecer-nos) as notas que tanto ambicionamos. Mas temos a estagnação económica, e pior que tudo, o desemprego, especialmente o de longa duração e o dos jovens.

Não sei se serve de consolação dizê-lo, mas não estivemos sós. Pessoalmente, não é consolação ter de integrar o meu país entre os mais mal governados da Europa nos últimos 15-20 anos.  Viver em democracia, não nos exime do trabalho, do estudo e da disciplina, da organização e da seriedade, pelo contrário, esses são valores estruturantes básicos para uma vivência social saudável. Valores que se devem assimilar desde criança. Espero, que de uma vez por todas, tenhamos enterrado o discurso das facilidades e aprendido a desconfiar dos fala-baratos. O vigarista é sempre muito simpático.

Desde há demasiado tempo na nossa terra, que existe muito por mudar e por fazer. Precisamos que 2012, seja a altura de começar a construir um país melhor. Para nós e os nossos. Estamos cá para isso. Senão, o que é que andamos todos aqui a fazer?

Bom Natal, saúde para todos e votos de Feliz Ano Novo de 2012!


Domingo, 27 de Novembro de 2011

A Flor do Maracujá de Fagundes Varela

José Osório de Oliveira (1900-1964), foi um ilustre setubalense, poeta e crítico literário, grande divulgador da literatura cabo-verdiana e apologista de maior proximidade entre a literatura portuguesa e brasileira. É da sua autoria, o texto seguinte sobre o poeta brasileiro Luís Nicolau Fagundes Varela (1841-1875):

Luís Nicolau Fagundes Varela
Nasceu em 1841, em Santa Rita de Rio Claro, na então província do Rio de Janeiro, estudou Direito em São Paulo e no Recife, mas não concluiu o curso por ter necessidade de trabalhar para manter a família, que cedo constituíra. Tendo perdido a mulher e o filho, entregou-se a uma vida errante pelos campos e matas, procurando refúgio na natureza (a natureza tropical tão pouco hospitaleira!). Ao voltar para a cidade, casado segunda vez e novamente pai, entrega-se, cada vez mais, ao vício do álcool, de que acabou por ser vítima. Morreu em 1875. Não souberam os seus contemporâneos reconhecer a verdadeira grandeza desse poeta, a qual residia no sentimento lírico da natureza e, mais ainda, talvez, no espírito religioso que lhe ditou Anchieta ou O Evangelho nas Selvas. Além desse poema editou: Noturnas, O Estandarte Auriverde, Vozes da América, Cantos e Fantasias, Cantos Meridionais e Cantos do Ermo e da Cidade, tendo sido publicados postumamente dois livros mais: Cantos Religiosos e O Diário de Lázaro, pois nem o álcool esgotara a veia desse que foi poeta e só poeta, dos maiores do Romantismo brasileiro.

A lindíssima passiflora
Li alguns poemas de Fagundes Varela, mas o que mais gostei foi A Flor do Maracujá. Antes da sua leitura, convém que se saiba que esta perfumada flor, originária da maracujeira ou maracujá, planta trepadeira do Brasil, transporta um significado religioso. Para os cristãos ela simboliza a Paixão de Cristo, daí o nome de Flor da Paixão ou Passiflora.

A lenda diz que o sangue de Cristo, molhou uma pequena planta que se encontrava junto da Cruz. Essa planta transformou-se no maracujá, para lembrar o sacrifício do Calvário: a sua flor lembra a coroa de espinhos, os 3 cravos e as 5 chagas.
No poema, Fagundes Varela sintetiza o simbolismo da flor do maracujá, a natureza e o amor. Depois, é um poema que só consigo imaginar dizer, com o sotaque do português do Brasil, como quando João Gilberto canta “Chega de Saudade”.


A Flor do Maracujá
em Cantos Meridionais, 1869.

Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá [1],
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá [2],
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá [3],
Pelas gotas do sereno
Nas folhas de gravatá [3],
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!

Pelas tranças da mãe-d'água [4]
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá [5],
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá!

Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá [6],
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá [7],
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá,
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová,
Pela lança ensanguentada
Da flor do maracujá!

Por tudo o que o céu revela,
Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minh'alma
De tua alma escrava está!...
Guarda contigo esse emblema
Da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em  a,
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá,
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!


Notas da responsabilidade deste blogue:

[1] Sinhá = senhora; forma como os escravos brasileiros chamavam a patroa ou senhora.
[2] Sabiá = tordo; o nome deriva da língua tupi.
[3] Manacá e gravatá = plantas da floresta brasileira.  
[4] Mãe-d'água = nascente.
[5] Plumas do ubá = julgo tratar-se da cana-ubá, cujas folhas brancas fazem lembrar penas de ave ou plumas.
[6] Borboletas azuis que descem do Panamá = na América do  Sul existem as mais belas borboletas do mundo, algumas azuis são de uma beleza espectacular, uma delas é a Mariposa Azul, sobre a qual foi feito um filme com William Hurt; não sei se era esta a borboleta a que Fagundes Varela se queria referir [ver figura abaixo].
[7] Minas do Sincorá = minas de diamantes, na serra do Sincorá da Bahia. 


Mariposa azul







Sábado, 19 de Novembro de 2011

Quadras Populares: poesia do povo.

As quadras dos Santos Populares, de Amor, dos poetas Fernando Pessoa e António Aleixo, são as minhas preferidas. Depois, claro, temos muitos cantares com quadras, incluindo o Fado. Deixo por isso, um pequeno extrato de um fado muito conhecido.

SANTOS POPULARES
  
Santo António, Santo António
Ó meu Santo milagreiro
Arranja uma moça bonita
Para um rapaz solteiro.

Se São Pedro me ajudar,
Solteirinha é que eu não fico!
Pois por certo hei de arranjar
Quem regue o meu manjerico!

Meu querido São João
És um Santo popular
Traz teu arco e teu balão
Vem com o povo dançar!


"Santos Populares" de
Célia Freitas e Miguel Gomes














AMOR

Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P'ra ao pé do meu coração.

Costumei  tanto os meus olhos
A namorarem os teus
Que, de tanto confundi-los,
Nem já sei quais são os meus.

Ó meu amor, se te fores,
Leva-me, podendo ser,
Que eu quero ir acabar
Onde tu fores morrer.
















ALEIXO

Após um dia tristonho
De mágoas e agonias
Vem outro alegre e risonho:
São assim todos os dias.

Eu não sei porque razão 
Certos homens, a meu ver,
Quanto mais pequenos são,
Maiores querem parecer. 

Para não fazeres ofensas 
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.
















PESSOA

Levas uma rosa ao peito
E tens um andar que é teu ...
Antes tivesses o jeito
De amar alguém, que sou eu.

Saudades, só os Portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.

Tem um decote pequeno,
Um ar modesto e tranquilo;
Mas vá-se lá descobrir
Coisa pior do que aquilo!
















CANTIGAS

Se eu pudesse contar
Num poema o meu passado,
Com a Guitarra a trinar,
Minha vida dava um Fado.

O padre da minha aldeia,
No sermão do mês passado,
Jurou p’la saúde dos filhos
Que nunca tinha pecado!

Aqui vai um cheirinho de uma canção interpretada por Frei Hermano da Câmara, da qual apenas pretendi exemplificar a parte do cantar da quadra. Quem quiser ter a música completa, deverá comprar o disco. Será uma belíssima prenda de Natal.

Toma lá colchetes d'oiro,
Aperta o teu coletinho,
Coração que é de nós dois
Deve andar conchegadinho.

video 

Domingo, 6 de Novembro de 2011

Curiosidades na Internet à volta da palavra “Moura”

Passeei por esta internet e consultei uma plêiade de sítios, com histórias, sobre pessoas, localidades, sobre os mais diversos temas, tudo a propósito da palavra “moura”. Aquilo que encontrei é o assunto deste artigo.

a)      MOURA – ORIGEM DA PALAVRA

Não descobri a origem da palavra “moura”, feminino de “mouro”. Aponta-se a palavra grega “mavros” (μαύρος), que significa “negro” ou, do latim, a palavra “maurus”, habitante do noroeste de África, província romana da Mauritânia. Esta última talvez seja a mais provável.

Mapa do Império Romano em 125 dC na Wikipedia. Ver as províncias
romanas designadas "Mauretania", nos actuais países Marrocos e Argélia..





















b)      MOURA – ENCANTADA

Uma das reminiscências da estadia dos mouros em Portugal são as histórias que se contam das lendas das mouras (ou moiras) encantadas, de que já se falou neste blogue em Crenças Populares II.
Muitas destas narrativas são histórias de amor ou estão ligados a certos lugares específicos, de norte a sul do nosso país. Por exemplo, em Trás-os-Montes, Alexandre José Parafita Correia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – UTAD, fez um extenso estudo e levantamento, que está na Net em ficheiro PDF. Do trabalho por ele apresentado, extraí um desses contos:

A moura do Castelejo

Na aldeia de Pombal de Ansiães, concelho de Carrazeda de Ansiães, num monte sobranceiro ao rio Tua, e junto às águas termais de S. Lourenço, há um conjunto de fragas muito bem alinhadas a que o povo chama Castelejo. O povo diz também que em noites de lua cheia ali se ouve o bater de um tear e, às vezes, o choro triste de uma moura encantada. Há quem tenha conhecido na aldeia um pastor que, ao passar ali numa certa noite, viu a moura a pentear os seus longos e belos cabelos. Cheio de curiosidade, e porque lhe parecia uma mulher muito bonita, aproximou-se para meter conversa com ela. Só que nessa altura pôde vê-la melhor, e descobriu que ela apenas era mulher da cintura para cima. Daí para baixo era uma cobra.
"era tão bela como nenhuma outra mulher"
O pastor arrepiou-se todo e deu então três passos atrás, pronto para fugir. Mas ela chamou-o, dizendo:
– Não tenhas medo da minha triste sina. Estou neste estado, mas sou uma mulher bela. E se tens dúvidas, vem cá na noite de S. João, e ver-me-ás, tal como sou, a banhar-me nestas águas.
Diz-se que o pastor lá foi nessa noite, e que a viu a tomar banho nas águas de S. Lourenço. E que era tão bela como nenhuma outra mulher. Também se diz que, durante muito tempo, era costume as moças da aldeia, nas noites de S. João, irem banhar-se nessas águas, na crença de que ficariam belas e sedutoras.

Fonte – versão A: TEIXEIRA, Flora – "O Castelejo", in O Pombal, Carrazeda de Ansiães, Associação Rec. E Cultural de Pombal de Ansiães, Setembro de 1997. Fonte – B: Inf.: Maria da Conceição Félix Fonseca, 43 anos; rec.: Zedes, Carrazeda de Ansiães, 2000.


c)       MOURA – LOCALIDADE

Brasão de Moura, Alentejo.
A cidade alentejana de Moura deve o seu nome, diz-se, a uma história sobre mouras. Trata-se da conhecida Lenda da Moura Salúquia, que se atirou por desgosto da torre do castelo, quando as tropas cristãs conquistaram a cidade no tempo de Afonso Henriques. Esse acontecimento, está inscrito no brasão da cidade.

Há uma outra pequena cidade chamada Moura, mas que fica nos antípodas do Alentejo. Trata-se de Moura, em Queensland, na Austrália. Curiosamente, foi um britânico, Charles Marshall, que atribuiu o nome ao local, situado numa zona interior do nordeste australiano, em 1854. Marshall tinha servido no exército inglês durante as guerras peninsulares, e talvez estivesse com saudades da Moura alentejana, onde tinha estado, ou de alguma moura encantada...
A Moura de Queensland foi muito citada no final de 2010, início de 2011, quando terríveis cheias inundaram três quartos do enorme estado de Queensland. Em Moura, estabeleceu-se um dos mais importantes centros de evacuação e apoio às populações.

d)      MOURA – APELIDO

Máquina inventada por Bento
de Moura Portugal, publicada
no Philosophical Transactions,
Royal Society, Londres, em 1752. 

Há muita gente ilustríssima com o nome Moura: o escritor Vasco Graça Moura, o cavaleiro tauromáquico João Moura, o candidato presidencial Defensor Moura, a jornalista Manuela Moura Guedes, o professor/cantor José Barata Moura, a fadista Ana Moura, o arquiteto Souto Moura - que recentemente ganhou o prémio Pritzker, etc. Depois, há os apelidos Mouro, Mourão, Mourona, Mourinho e Mourinha. Lembro-me sempre daquele nosso notável professor de economia que foi Francisco Pereira de Moura. Recordo a sua figura e as suas Lições de Economia, que todos nós, estudantes de economia, tínhamos de ler.

Mas gostaria de referir especificamente duas figuras históricas: Bento de Moura Portugal (1702-1776), o grande físico português do século XVIII, protegido de D. João V e que acabou por falecer nas cadeias  Pombalinas e o brasileiro Roberto Landell de Moura (1861-1928), inventor da transmissão sem fios, um dos pais da rádio. Sobre Bento de Moura Portugal, sugiro a consulta ao blogue de Carlos Fiolhais e outros, Rerum Natura, e sobre Landell de Moura, o artigo do sítio A Minha Rádio.

 e)      MOURA – CONCLUSÃO

Uma palavra apenas, chega para revelar a nossa gigantesca ignorância e a nossa ainda maior curiosidade. Resta-nos a fraca consolação de que nunca poderemos saber tudo, mas apenas uma pequeníssima parte de todo o conhecimento acumulado. “Maturidade” e “Sabedoria” são, de certa forma, mitos. Obrigatoriamente, morremos todos ignorantes e infantis. O nosso corpo é frágil e transitório demais, para carregar as potencialidades de conhecimento de um cérebro humano a funcionar em pleno a longo prazo. Um dia, acredito, conseguiremos resolver este problema relativo.

Domingo, 30 de Outubro de 2011

Maià Póçon III – Domingo na roça

Foto antiga da formatura, na roça de Água-Izé. Ver nota [7]
São Tomé e Príncipe é a vegetação luxuriante, as praias equatoriais e o turismo, as roças, o cacau, e principalmente, a sua gente. Mas, quando falamos na cultura do país – para quem não é santomense – a ignorância, é quase total. Vem-nos apenas à memória nomes como os de Viana da Mota e de Almada Negreiros, mais ligados à cultura europeia que à africana. Não conhecemos os seus escritores, poetas, músicos, pintores, escultores, etc. Apesar disso, encontrar o livro Maià Póçon do santomense Viana de Almeida, de 1937, não é apenas um mero exercício de curiosidade literária, é o conhecimento que ele nos dá de todo um povo, nos idos anos 30 do século XX. Nestas poucas linhas do conto que aqui transcrevo, Viana de Almeida, condensa aspetos da vida de um trabalho forçado, a música e a dança, a tristeza e a alegria.

Na minha modesta opinião de leitor, Maià Póçon é uma rara pequena-grande jóia da literatura de língua portuguesa do século passado. Um livro não se mede aos palmos. Pela realidade que cuidadosamente descreve, pelas temáticas que discute, pelo estilo elegante e principalmente, inteligente. Se nos dias que correm, os contos de Maià Póçon parecem estar esquecidos ou menorizados, nos tempos que estão para vir, creio, as novas gerações descobrirão o seu real interesse. Único.

TRABALHO E DANÇA
Título da minha responsabilidade. Excerto do conto “Domingo na roça” de Viana de Almeida, 1937.

(...) A multidão dos trabalhadores, homens, mulheres e crianças, irrompe das portas das senzalas [1] e, ainda ultimando os preparativos, alinha-se numa formatura impecável de batalhão treinado em manobras militares. Os capatazes que hão de dirigir os diversos grupos, já estão a postos. O Administrador da roça observa da varanda da sua casa e o Feitor Geral passa revista minuciosa, dando a este e àquele uma ordem seca e breve. Ao cabo, perfila-se e comanda: larga!
Ordenadamente a formatura desfaz-se e compõe-se vários grupos que se dispersam pelos centros de trabalho. Mas a tarefa, ao domingo, não é fatigante. Para uma minoria consiste em dar o último toque a qualquer ocupação que, no dia anterior, tivesse ficado em suspenso. Os demais vão cortar capim que ficará amontoado num celeiro para pasto do gado durante o dia.
Ora, sabem que cortar capim é obra que a ninguém assusta: pelo contrário, faz-se agradavelmente. Em primeiro lugar, a tarefa chega ao final em pouco tempo. Ao meio dia, soa a hora de largar o trabalho. Este assim, realiza-se todo de manhã, pela frescura das primeiras horas do dia. O sol não castiga a pele, fazendo correr pelas costas regos de suor. Na atmosfera lavada corre uma aragem que sussurra no alto ervaçal. E depois não se sentem os olhos dos capatazes cravados nos que mourejam, em vigilância constante.
Há possibilidade de trocar dois dedos de paleio para amenizar, chalacear com certa rapariga ao pé e de cantar uma melopeia monótona, mas que ajuda a suportar o cansaço. Desta forma, chega o momento de regressar à Sede. De grandes molhos de capim sobre a cabeça, aí voltam eles em alegre tropeada [2] sob a direção, por um dia, negligente dos capatazes.

Há uma nova formatura no terreiro. Quando o Feitor Geral terminada a revista, dá ordem de largar, de todos os peitos sai um grito estrepitoso de júbilo. Deixam a formatura em balbúrdia de palavras e exclamações e, como um rebanho tumultuante, dirigem-se para as senzalas.
Hora alegre! Hora pela qual começa uma tarde de descanso bem ganho, de festa, de lambança [3]! Hora única na semana, para a gozar, deitam-se para trás das costas todos os cuidados!
Primeiro que tudo, trata-se da paparoca. Toca a pôr as panelas ao lume e a preparar a farinha da mandioca fina, a malagueta cáustica e estimulante e o peixe seco que há de dar molho de fazer cantar a língua nos dentes. Tudo isto há de servir para a confeção do “funje” [4] que, ao domingo é o prato de todos aqueles que verdadeiramente se prezam.
Daí a pouco, espalha-se no ar o cheiro do azeite de palma frito e, quando se põe o almoço na mesa feita de esteira, então, senhores, é que é ouvir as risadas de alargar o peito, os gritos estrídulos [5] das mulheres, as palmadas que ressoam nas coxas.
Quando a fome já se encontra satisfeita, cada um pode fazer o que lhe der na cachimónia. Se há quem tenha amigos ou namorada nas outras Dependências da roça e quer cumprir os seus deveres de etiqueta, é livre de se pôr a caminho e de lhes levar o gosto da sua presença e da sua conversa. Outros ao invés, fazem as honras da casa e recebem visitantes que vêm de longe. Há novidades a ouvir e impressões a trocar sobre a forma como as coisas correm.
É bom que se deixe abrandar o ardor da canícula, antes de sair para o terreiro, para começar o batuque. Á hora em que o sol começa a descer para o mar, é que um homem pode conhecer bem o que é a embriaguês das músicas, dos tambores, dos chocalhos, da dança. Mas já se começam a ouvir os primeiros repiques, ensaiados por dedos nervosos sobre a pele de cabra. Até o sangue parece que lateja mais forte nas veias. O que será então quando a “puíta” começar com os seus borbotões surdos!
Quando chega o momento, esperado com tanta impaciência, já o coração pula, os músculos estão contraídos esperando a ocasião de se distenderem, os artelhos não sabem como se hão de conter por mais tempo, todo o corpo estremece em vibrações reprimidas.

Puíta. Ver nota [6]
Dispõe-se numa roda ampla, em que se alternam homens e mulheres. Aqueles têm o tronco modelado pelas camisolas. Sob os panos de riscado e blusas das mulheres, pressentem-se linhas com o garbo característico dos corpos de ginastas. No contorno interior da roda, dispõem-se, de espaço a espaço, os rufadores de tambor. O que vai tocar “puíta”[6] coloca-se entre eles também. É uma espécie de tambor de pele furada ao centro em cujo orifício se mete um pau com um êmbolo na extremidade. Do outro lado coloca-se a mão esquerda, acende-se uma fogueirazinha que se deve manter viva. Coloca-se sobre ela, a uma certa altura, a “puíta”, o calor dilata a pele e, quando o tocador agita o êmbolo num movimento de vaivém, extrai do instrumento um som entrecortado e rouco.
É de tarde, e tudo no terreiro está em imobilidade que dir-se-ia expectante. Em torno, são linhas convulsas de montanhas cobertas até o perder de vista pela sombria massa de frondes majestosas. Do lado do poente, o planalto em que o terreiro está situado, vai descendo, mansamente, em socalcos de brando relevo, alarga-se depois em planície fecunda que se arrasta até se confundir com o mar.
Mas, na calma sonora, os tambores ressoam e a “puíta” começa a fazer ouvir as suas variações rítmicas. Um improvisador coloca-se ao centro e canta, numa melopeia cadenciada pelos tambores, palavras que a inspiração do momento lhe trouxe. Toda a roda acompanha o ritmo batendo as palmas e, em coro, repete a cantilena e os versos do poeta.
Os tambores rufam mais ansiosos e a “puíta” parece que a cada instante vai ganhando mais febre. Um dançarino frenético pula para dentro do círculo, baila que baila e aproxima-se numa reverência de uma mulher da sua escolha. Recua para se aproximar de novo. A assistência canta, batendo sempre as palmas. Depois, o bailarino, num implulso, chega-se ao pé da negra com os braços levantados e, ao grito de homem, os dois corpos chocam-se em contacto ligeiro de ventre com ventre. É o convite para a dança. Ela sai e o par renova, dentro da cadência imutável da “puíta”, dos chocalhos e dos tambores, as reverências e multiplicam, segundo a sua ciência, os passos consagrados do batuque.
Separando-se, a mulher toca com o ventre um homem; o seu par faz o mesmo a outra negra. O novo par envolve-se na dança e, de tempos a tempos, há nova improvisação feita por outro poeta.

Uma tarde, enquanto se dançava, passou, como raras vezes acontece, um vapor muito próximo da terra. O entusiasmo cedeu lugar, por um instante, à curiosidade e o batuque teve um curto intervalo.
Ia para o Sul, o vapor. Ia para Angola, a terra de onde quase todos os que ali estavam haviam sido transportados e que nunca mais tinham voltado a ver. Uma saudade confusa passou no ar. Mas nisto os repiques chamaram novamente. Então, da roda saiu um velho. Tinha a pele engelhada, curtida por sóis e misérias e os músculos como cordas que perderam a elasticidade. A carapinha era toda branca, uma barbicha rala orlava-lhe o queixo. Era o Cambanza, um dos grandes animadores das festas, improvisador sempre com chalaças e alusões galhofeiras.
Pôs-se no centro, voltou-se para o lado do mar e cantou na sua voz quebrada:
- “Vapor, vapor, que vais a caminho da nossa terra, terra bendita, leva-lhe saudades nossas. Diz à nossa gente que ainda não morremos. Trabalhamos sob o sol e sob a chuva. Queremos partir, mas não podemos. Vapor, vapor, tu segues e nós ficamos... A nossa dor não tem fim.”
Quando acabou, os soluços tinham-lhe embargado a voz. Em roda, a paisagem era de uma quieta serenidade e o ritmo da “puíta” tinha-se feito caricioso e dulcíssimo, como a voz de uma alma que não pode clamar e chora baixinho... A mesma onda de emoção dominou os festeiros e a multidão, chorando, cantou:
“Vapor, vapor, que vais a caminho da nossa terra, terra bendita, leva-lhe saudades nossas...
Depois os pares dançaram um momento em silêncio. Mas num grito prolongado, Cambanza anunciou que era chegado o intervalo para o repouso.
Quando a roda se recompôs, a vaga de emoção tinha passado e os tambores, a “puíta”, os apitos e os chocalhos, incansavelmente repicaram até que a noite, serena, caiu sobre a terra.

Após esta leitura, fui procurar a música de São Tomé e Príncipe na net. Fui ter ao sítio dos videos da National Geographic e, ao fazer a pesquisa “são tome”, encontrei um documentário curto sobre os elementos do conjunto Grupo Tempo. Depois no YouTube, deparei com esta maravilha,  em http://www.youtube.com/watch?v=3GgZ08IvqpA:

video

Notas da responsabilidade do blogue:

[1] senzalas –  originalmente, as senzalas eram habitações muito pobres, destinadas aos escravos; o nome manteve-se para os trabalhadores das roças.
[2] tropeada – de tropel, barulho com os pés.
[3] lambança – muita conversa.
[4] funje – creio tratar-se de uma papa de farinha de mandioca.
[5] estrídulos – estridentes.
[6] puíta – no texto original “puita” sem acento agudo. A foto pode ser encontrada em http://eportuguese.blogspot.com/2011/09/instrumentos-musicais.html
[7] Formatura na roça de Água-Izé, ver foto em postais antigos de São Tomé no sítio http://stomepatrimonio.blogspot.com/2007/12/roa-gua-iz.html


Nota importante:

Porque estamos a falar de São Tomé e Príncipe, o meu muito obrigado a João Carlos Silva, aos seus programas, à sua exemplar comunicabilidade e sobretudo, às suas receitas, principalmente as doces, sempre com muito amor. Talvez por esses tachos na roça, quem sabe, a minha primeira curiosidade pelo Maià Póçon.