Cultura opõe-se a natura ou natureza, isto é, abrange todos aqueles objetos ou operações que a natureza não produz e que lhe são acrescentados pelo espírito (...). A religião, a arte, o desporto, o luxo, a ciência e a tecnologia são produtos da cultura.
António José Saraiva

em "Cultura", colecção “O QUE É”, Difusão Cultural, 1993.
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domingo, 13 de Janeiro de 2008

O barco "rabelo"

A montanha palpita de fartura. O homem revê-se nos vinhedos. A montanha transuda ouro e ambrósia. E agora? Quem irá gastar esse ouro e sorver essa ambrósia – encerrados naquela fortaleza, entre muralhas de xisto?
Não há prodígios de engenharia que domem os abismos, que transponham as eminências de modo a assegurar o passo fiel às recuas dos almocreves, ou aos animais de tracção para o trânsito dos vinhos até aos grandes centros de consumo.
Então o duriense, já adestrado na arte de lutar e de vencer, fita os olhos no rio.
O rio! E vê-o torvo, convulso de cachões, em doidas arremetidas de pocesso, em sôfregos redemoinhos de avarento quando o inverno o fustiga – invadindo-lhe a vinha e o pomar, levando-lhe casa e adega. E vê-o sorvido pela sede do sol de verão, mesmo “na mãe”, cansado e esquelético, não dando colo ao bojo duma canoa.
E nas águas médias? Sim, ainda tem as águas médias, as das chuvas novas, a dos benéficos períodos sem temporais, as que nem são tão bravas que destroem, nem tão mansas que desfalecem.
Mas lá estão os cachões, os “pontos” e “galeiras” a perturbarem-lhe a marcha impetuosa – para os quais não há barco seguro.
Ah, esperem! Pensa e repensa, concerta e reconcerta, experimenta e reexperimenta – encontrando por fim. Sim senhor. Encontra o que procura, a salvação e a prosperidade. Vai ao barco grego de Ovar e copia-lhe a prôa investigadora de trireme. Toma a barca fenícia do Mondego e reproduz-lhe o fundo chato do cavername. Ao barco romano das invasões tira-lhe o “gobernaculum”, o leme em rabo de raposa – como já havia copiado para as podas da videira a foice ou o podão latino, “curvo Saturni dente”. Aparelhado o bojo do cavername, assente na “chumaceira”, no espigão da ré, ou “óca da ré”, o comprido leme, ou “espadéla”, ergue-lhe a um terço da popa a ponte de comando para a manobra do leme – a “apegada”. No ângulo agudo da popa forma um cacifo afunilado, o “coqueiro”, destinado à condução de roupas e mantenças. E de todos estes elementos conjugados faz o barco “rabelo” – o único barco capaz de vencer os cachões, o maior auxiliar do homem do Douro, o colaborador admirável da sua riqueza e da sua opulência, o primeiro colaborador da fama universal dos seus vinhos.
(...) O rio Douro apesar do “rabelo” e das suas condições especiais de resistência e de navegabilidade, nunca deixou de ser o “rio de mau navegar”. Ao longo de séculos de tráfego, tráfego servido por milhares de braços – pois antes da filoxera e do comboio eram dez mil os “marinheiros” que anualmente faziam o transporte de vinhos e cereais, de passageiros e animais domésticos – o pego (*) devorou milhares de vidas em centos de naufrágios.
Daí o terror do naufrágio, o medo da morte e o apego ao céu. Daí as imagens de santas e santos protectores, debuxados na face dos rochedos sobranceiros aos cachões de maior perigo: - no da “Cachucha” a da Senhora do Carmo; no de Arêgos a de S. José; a da Senhora da Cardia no da Pala.
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(*) Ponto mais fundo de um rio onde não se tem pé.

Em Milagres de Portugal de Sousa Costa, ed. Portugal-Brasil, 1925.

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