Cultura opõe-se a natura ou natureza, isto é, abrange todos aqueles objetos ou operações que a natureza não produz e que lhe são acrescentados pelo espírito (...). A religião, a arte, o desporto, o luxo, a ciência e a tecnologia são produtos da cultura.
António José Saraiva

em "Cultura", colecção “O QUE É”, Difusão Cultural, 1993.
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terça-feira, 29 de Abril de 2008

Ibn Mucana e os moinhos de vento

Moinho Ibn Mucana de Alcabideche
A mais antiga referência aos moinhos de vento na Europa é a do poeta luso-árabe Ibn Mucana de Alcabideche, a maior freguesia do Concelho de Cascais.
Transcrevemos a comunicação intitulada “Abú Zaíde Ibne Mucana” de Fausto Amaral de Figueiredo, incluída em “Cascais e seus lugares”, revista de cultura e turismo, nº XX, Fevereiro de 1966, quando da realização do I Simpósio Internacional de Molinologia [estudo dos moinhos tradicionais]:

Há nada menos de nove séculos que nasceu em Alcabideche o poeta luso-muçulmano Abú Zaíde Abderramão Ibne Mucana, primeira figura histórica não só da sua terra, mas também do Concelho de Cascais e autor de uma das mais antigas referências literárias aos moinhos de vento, situados na Europa.
Ibne Mucana foi, durante a primeira fase da sua existência, uma espécie de poeta palaciano, que deambulou pelas cortes dos Hamídidas, em Málaga, dos Abádidas, em Sevilha e dos Zíridas, em Granada. Na de Málaga, por exemplo, recitou ele ao rei Idris II, que subiu ao trono em 5 de Fevereiro de 1043(1), um ditirâmbico elogio, que o soberano galardoou com um presente magnífico(2).

Farto, no entanto, da ociosa vida, que levava, decidiu regressar à terra natal, para nela se dedicar às actividades campestres e nela aguardar, serenamente, que a morte o arrebatasse.
Certo dia um contemporâneo viu-o passar, em Alcabideche, já velho e surdo, mas ainda com uma foice na mão e abeirou-se dele, para solicitar que lhe recitasse uns versos. Ibne Mucana – depois de o ter feito sentar , para observar os trabalhos da lavoura, que num campo fronteiro estavam a ser executados – pronunciou, de improviso, esta bucólica poesia, na qual metaforicamente aludiu aos moinhos de vento, que funcionavam com as nuvens, sem necessitarem de fontes:

Ó tu que habitas em Alcabideche, possas tu nunca ter falta de grãos
para semear, nem de cebolas nem de abóboras!
Se és homem de resolução, precisas de um moinho que funcione
com as nuvens, sem necessitar de fontes.
A terra de Alcabideche não produz, quando o ano é bom, mais de
vinte cargas de cereais.
Se dá mais alguma coisa, os javalis
dos despovoados sucedem-se sem interrupção, em grupos compactos.
Ela pouco tem de qualquer bem e de qualquer utilidade, como eu próprio
tenho pouco ouvido, conforme sabes.
Deixei os reis cobertos pelos seus mantos e renunciei
a acompanhá-los nos cortejos e a tirar deles partido.
Eis-me em Alcabideche a ceifar os espinhos comuma foice
ágil e cortante.
Se te disserem: Gostas de toda esta fadiga? – Sim, responderás, o amor
da liberdade é o sinal de um carácter nobre.
O amor e os benefícios de Abú Becre Almodáfer conduziram-me tão bem
que parti para um campo primaveril(3).

Ibne Mucana regressou, pois, a Alcabideche graças aos benefícios do Rei Almodáfer, de Badajós e, portanto, depois de 30 de Dezembro de 1045, data em que o mesmo rei subiu ao trono(4).

Sabe-se, por outro lado, que o escritor luso-muçulmano Abú Alháçame Ali Ibne Bassame, natural de Santarém, ouviu da própria boca do conterrâneo de Ibne Mucana o relato da sua entrevista com o poeta(5) e como Ibne Bassame visitou Lisboa no ano 477 da Hégira(6), é provável que o tenha ouvido por ocasião dessa visita.
A referência de Ibne Mucana aos moinhos de vento, em Alcabideche, foi, portanto, seguramente posterior a 30 de Dezembro de 1045 e, à falta de melhores indícios, parece dever considerar-se anterior ao dia 29 de Abril de 1085 , na véspera do qual findou o citado ano da Hégira.

A partir da conquista de Lisboa, por D. Afonso Henriques, ajudado pelos cruzados ingleses, normandos, germanos e flamengos, cuja frota permaneceu, de 28 de Junho de 1147 a 1 de Fevereiro de 1148, no Tejo(7), estabeleceram-se contactos, mais frequentes e directos, desta região com as dos mesmos cruzados.
Cerca de uns três decénios depois havia um moinho de vento, perto do mosteiro beneditino de Saint-Sauveur-le-Vicomte, a 35 quilómetros de Cherburgo, na região francesa da Normandia, como se verifica por um instrumento ao qual se atribuiu uma data próxima de 1180(8).

No segundo quartel do Século X existiam, já, os moinhos de vento persas da província de Seistan, referidos pelos geógrafos Al-Masudi e Al-Farsi Al-Istacrí(9), o primeiro dos quais percorreu, de 915 a 943, variadíssimos países do Oriente e faleceu depois de 9 de Setembro de 956, mas antes de 28 de Setembro de 957(10). Do segundo, porém, só há elementos biográficos posteriores a 8 de Junho de 951 e anteriores a 29 de Maio de 952(11).

Poderiam também citar-se, na Península Ibérica, os menos conhecidos moinhos de vento de Tarragona, mencionados por Ibne Al-Munim Al-Himyari, na seguinte passagem do seu repertório geográfico e político:

“Uma das curiosidades de Tarragona consiste nos moinhos que foram instalados pelos Antigos; eles andam quando o vento sopra e param com ele”.

O repertório de Al-Himyari foi concluído em 21 de Novembro de 1461, mas a origem da notícia contida nesse trecho pode fazer-se remontar ao geógrafo Abú Ubaíde Albacri, falecido em 1094, depois de 13 de Outubro, mas antes de 12 de Novembro(12). É ggtambém possível que Albacri se tivesse guiado pelas informações do seu mestre, Ibne Addalai(13), nascido posteriormente a 10 de Novembro de 1002, mas anteriormente a 30 de Outubro de 1003, em Dalias, perto de Almeria e falecido nesta cidade, posteriormente a 29 de Abril de 1085, mas anteriormente a 18 de [ilegível] de 1086(14).

Seja, porém, como for, entre os moinhos de vento persas, do segundo quartel do Século X, na província de Seistan e o de 1180, perto de Saint-Sauveur-le-Vicomte, na região francesa da Normandia, temos pelo menos, os do terceiro quartel do Século XI, citados por Ibne Mucana, em Alcabideche.
Eis o facto assinalado por este sóbrio, mas belo monumento, que o distinto escultor António Duarte concebeu e no qual se vê a memória de Ibne Mucana, entre dois grandes blocos monolíticos, feitos da mesma pedra das pedreiras do Concelho de Cascais, utilizada para fabricar as mós no mesmo Concelho produzidas.
À realização do I Simpósio Internacional de Molinologia vinculará ele, para sempre, o nome de Ibne Mucana e o de Alcabideche (...).


(1) R. Dozy, “Histoire des musulmans d’Espagne jusqu’à la conquête de l’Andalousie par les almoravides”
(2) Henri Pérès, “La poesie andalouse en arabe classique au Xie siècle”
(3) Idem
(4) Matias Ramón Martinez y Martinez, “Historia del Reino de Badajoz, durante la dominación musulmana”
(5) Henri Pérès, “La poesie andalouse en arabe classique au Xie siècle”
(6) Francisco Pons Boigues, “Ensayo bio-bibliográfico sobre los historiadores y geógrafos arábigo-españoles”
(7) Charles Wendell David, “De Expugnatione Lyxbonensi – The conquest of Lisbon
(8) Rex Wailes, “A note on windmills”
(9) Abbot Payson Usher, “A history of mechanical inventions”; R.J. Fober, “Power”
(10) ”Encyclopédie de l’Islam”, Leiden 1936; C. Raymond Beazley, “The dawn of modern geography”
(11) ”Encyclopédie de l’Islam”, Leiden 1927; C. Raymond Beazley, “The dawn of modern geography”
(12) ”Encyclopédie de l’Islam”, Leyde 1960
(13) E. Lévi-Provençal, “La Peninsule Ibérique au Moyen-Age d’après le Kitab Ar-Rawd Al-Mitar Fi Habar Al-Aktar d’Ibn Abd Al-Munim Al-Himyari”
(14) Francisco Pons Boigues, “Ensayo bio-bibliográfico sobre los historiadores y geógrafos arábigo-españoles”

Ver mais informação no excelente sítio da Junta de Freguesia de Alcabideche em http://www.jf-alcabideche.pt/ onde se encontram as figuras aqui reproduzidas, ou o moderno sítio da Escola Secundária Ibn Mucana de Alcabideche em http://escola.ibn-mucana.com/ - a escola faz sua, uma citação de Ibn Mucana:"O amor à liberdade faz parte do carácter nobre."

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