Cultura opõe-se a natura ou natureza, isto é, abrange todos aqueles objetos ou operações que a natureza não produz e que lhe são acrescentados pelo espírito (...). A religião, a arte, o desporto, o luxo, a ciência e a tecnologia são produtos da cultura.
António José Saraiva

em "Cultura", colecção “O QUE É”, Difusão Cultural, 1993.
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segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Poemas de Camilo Castelo Branco

Nas Trevas, é um livro com data de 1890, de poemas, amargo, e julgo que o seu último publicado em vida, visto ter falecido em Junho desse ano, há 118 anos. Nesta altura, Camilo estaria já quase cego, daí o título. É curioso verificar que as reacções dos media criticadas nos dois sonetos abaixo, são semelhantes às dos dias de hoje.




















A outra metade

Quando este corpo meu esfacelado
Baixar á leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para insculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:

“Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!”


Comédia humana

Literatos! Chorai-me, que eu sou digno
Da vossa gemebunda e velha táctica!
Se acaso tendes crimes em gramática,
Farei que vos perdoe o Deus benigno.

Demais conheço a prosa inflada, enfática,
Com que chorais os mortos; e o maligno
Desafecto aos que vivem… Não me indigno…
Sei o que sois em teoria e em prática.

Quando o avô desta vã literatura
Garret, era levado á sepultura,
Viu-se a imprensa verter prantos sem fim…

Pois seis dos literatos mais magoados,
Saíram, nessa noite embriagados,
Da crapulosa tasca do Penim.
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Nota: a "tasca" do Penim era na verdade um restaurante chique, frequentada por artistas e pessoas famosas; situava-se na Rua do Regedor (junto à Rua da Madalena na Baixa Pombalina).
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Um grande elogio é feito por Camilo neste livro, ao poeta Tomás Ribeiro, e à sua íntegra carreira política.
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Tomás Ribeiro

Ao cantor de D. Jaime era ousadia
Dedicar uns insípidos sonetos,
Bem pálidos, mesquinhos esbocetos
Dos Ridículos grandes d’hoje em dia.

A ti que ileso passas nesta orgia,
Modesto, honrado e amado, que amuletos
Te salvam destes pântanos infectos
Em que chafurda a esquálida anarquia?

Tantas vezes Governo!... E não tens pejo
De ser pobre, ó Tomás?... Isto que vejo
Me inspira o vaticínio que registro:

Dirão de ti as porvindouras eras:
“Ministro pobre em Portugal! Quimeras!...
Ou viveu farto, ou nunca foi ministro!”

Nota: sobre D. Jaime ver neste blogue em

20 comentários:

  1. olá tem como vc explicar o q Camilo Castelo Branco quis dizer com o poema Outra Metade?

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  2. Mas meu caro, eu não sou professor de literatura. Não tenho competência para tal. Acho melhor perguntar a quem sabe.

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  3. desculpe lhe informar mas sou mulher, não é correto me chamar de 'meu caro'...
    (é SÓ UMA INFORMAÇÃO)

    e COM CERTEZA pedirei ajuda a uma pessoa com competência..

    MUITO grata!

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  4. Cara Zaine,
    Não fazia ideia. As minhas desculpas. Para mim, a poesia, como a pintura, o cinema ou o teatro é algo que me limito a valorizar numa base de "gosto/não gosto". Quando tenho alguma informação mais, partilho-a neste blogue. Estou longe de ser ou de me apresentar como um entendido na matéria. Cada macaco em seu galho. Com os meus melhores cumprimentos,
    Ricardo

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  5. nao deve desculpas a mim..fique tranquilo..(eu nao tinha especificado que era uma menina rs)
    obrigado pelo respeito e atenção..
    e se tiver por algum acaso as informações, estou esperando...

    lhe agradeço....
    desde já...

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  6. Cara Zaine,
    Obrigado. Este poema para mim sempre teve um significado claro. Julgo que o compreendo, por isso transcrevi-o para o blogue. Terei contudo muito mais dificuldades nas questões referentes ao enquadramento literário, na discussão do estilo ou no conhecimento das relações concretas entre Camilo e a imprensa. Quais são ao certo as suas dúvidas?
    Ricardo

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  7. Bom..só gostaria de saber o significado ou explicação do poema..queria saber o que Camilo quis expressar com essas palavras em que usou...

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  8. Diga-me as suas dúvidas, uma de cada vez.

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  9. 1°) o que Camilo quis expressar com suas palavras usadas no poema: A outra metade?

    ...

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  10. Uma parte dele morre, a outra parte (outra metade), os jornalistas desejam repartir entre si. Essa "outra metade" é o que dele cá fica: a sua obra literária, a memória da sua vida e da sua pessoa.

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  11. Humm Entendi,
    muito obrigado pela explicação acho que isso já foi o suficiente, deu pra entender bastante..

    Caso houver outra dúvida entrarei em contato!!

    Grata,
    Zaine º°

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  12. é um ótimo sait de poemas do Camilo Castelo Branco

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  13. Meu caro Ricardo,que lindo este espaço que tú dedicas a camilo e seus lindos poemas.
    Estou cá a pensar que tú és um anjo da literatura.
    Anjo este que estávamos a esperar para adoçar nossos desejos por poemas.
    Obrigada meu caro Ricardo,por este presente delicioso.

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  14. Lia,

    Muito obrigado pelo elogio. Partilhamos este segredo: a literatura em língua portuguesa é a coisa mais bonita do mundo. É ela o nosso anjo.

    Ricardo

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  15. Concordo querido amigo e peço desculpas pela demora da r verdade não achei que me responderia,rsrsrs
    Agradeço e fico orgulhosa de saber que podemos acreditar em algumas coisas ainda.
    Grande beijo garoto.

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  16. Bom dia!
    Cada vez que me deparo com esta maravilha reservada para nós amantes da leitura,acredito que és abençoado por dia à cada minuto e desejo-lhe sorte sempre amigo Ricardo.

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  17. Me foi de grande valia para meu trabalho academico, és esplendido :)
    Paula

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