Cultura opõe-se a natura ou natureza, isto é, abrange todos aqueles objetos ou operações que a natureza não produz e que lhe são acrescentados pelo espírito (...). A religião, a arte, o desporto, o luxo, a ciência e a tecnologia são produtos da cultura.
António José Saraiva

em "Cultura", colecção “O QUE É”, Difusão Cultural, 1993.
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sábado, 10 de setembro de 2016

O Padre António Vieira e a Gestão


Padre António Vieira [1608-1697]
Os textos do Padre António Vieira estão carregados de sensatez e de observações interessantes. Existe na internet um enorme número de pequenas citações extraídas dos seus textos. As citações são úteis, porque despertam curiosidade para a leitura da obra, mas são quase sempre insuficientes. A frase fora do contexto é mais pobre do que se for entendida tal como foi pensada e escrita, integrada na lógica do raciocínio completo. Por isso optei por selecionar, não citações ou frases curtas, mas textos um pouco mais extensos, retirados de alguns dos seus sermões, onde melhor se pudesse compreender o que o Padre António Vieira pretendia transmitir.

Procurei recortes que se relacionassem com assuntos de Gestão. Pareceu-me ser uma forma diferente da habitual de mostrar a sua atualidade.


SOBRE COMO DECIDIR

O primeiro texto é sobre a guerra, mas pode-se generalizar a todos os gestores que têm de decidir sobre assuntos complexos que envolvem os destinos de grandes grupos de pessoas, como são as empresas, as instituições do estado ou mesmo as nações. Conseguir ter segurança quanto às decisões a tomar é por vezes muito difícil.
O Sermão de Santa Cruz foi apresentado na Festa dos Soldados, em 1638, na Bahia, Brasil, perante a Armada Real e muita nobreza:

“(...) O maior perigo e perdição da guerra é cuidarem os doutores desta arte que sabem tudo. Os sábios em qualquer faculdade mais sabem ouvindo que discorrendo, e mais acompanhados dos que sós. “Meliores aestimantur qui soli non omnia praesumunt” — diz o grande político Cassiodoro [1]: que sempre “Foram estimados por melhores os que de si só não presumem tudo”. — Já se a presunção do saber se ajunta à soberania do poder, como em Nicodemos [2] que era mestre e príncipe, nestes dois resvaladeiros [3] está certo o precipício e a ruína. Para conseguir efeitos grandes, e para levar ao cabo empresas dificultosas, mais segura é uma ignorância bem aconselhada que uma ciência presumida [sublinhado nosso].

A primeira vitória para alcançar outras muitas é sujeitar o juízo próprio quem não é sujeito ao mando alheio. Perguntado Alexandre Magno com que indústria ou com que meios em tão breve tempo se fizera senhor do mundo, diz Estrobeu [4] que respondera estas palavras: “Consilii, eloquentia et art imperatoria”: “Com os conselhos, com a eloquência, e com a arte de governar exércitos”. No último lugar pôs a arte, e no primeiro o conselho, porque o conselho é a arte das artes, e a alma e inteligência do que ela ensina. A arte prescreve preceitos em comum, o conselho considera as circunstâncias particulares; a arte ensina o que se há de fazer, o conselho delibera quando, como e por quem (...) .”

Decisões complexas, implicam avaliar a realidade, saber quais as alternativas disponíveis para a ação e escolher a melhor. Dificilmente uma única pessoa consegue isoladamente, reunir as melhores destas competências. Por isso, é preferível fazer participar nas decisões os que as têm de pôr em prática. Fazer outros participar nas decisões é além disso criar união de propósitos e valores, comprometer com a ação e motivar a vontade.
A decisão individualista pode parecer mais simples, mais rápida e com menos dificuldades do que fazer participar pessoas com diferentes perspetivas, mas o risco de fracasso é maior.


SOBRE O PLURIEMPREGO DAS ELITES

Um outro texto do Padre António Vieira de 1655, proferido em plena Capela Real em Lisboa, o Sermão da Terceira Dominga [5] da Quaresma, remete-nos para um tema interessantíssimo:

“(...) Há sujeitos na nossa corte que têm lugar em três e quatro tribunais: que têm quatro, que têm seis, que têm oito, que têm dez ofícios [sublinhado nosso]. (...) Não era cristão Platão, e mandava na sua república que nenhum oficial pudesse aprender duas artes. E a razão que dava era porque nenhum homem pode fazer bem dois ofícios. Se a capacidade humana é tão limitada que para fazer este barrete são necessários oito homens de artes e ofícios diferentes, um que crie a lã, outro que a tosquie, outro que a carde, outro que a fie, outro que a teça, outro que a tinja, outro que a tose [6], e outro que a corte e a cosa; se nas cidades bem ordenadas, o oficial que molda o ouro não pode lavrar a prata, se o que lavra a prata não pode bater o ferro, se o que bate o ferro não pode fundir o cobre, se o que funde o cobre não pode moldar o chumbo nem tornear o estanho, no governo dos homens, que são metais com uso de razão, no governo dos homens, que é a arte das artes, como se hão de ajuntar em um só homem, ou se hão de confundir nele, tantos ofícios? (...)”.

A admiração do Padre António Vieira coincide com a nossa, principalmente por já existir no século XVII o fenómeno dos cargos dirigentes em circuito fechado. Esta prática tem sido associada ao sistema económico moderno [7], mas é bem mais antiga. Já no tempo de Vieira existia uma elite que preenchia os cargos mais importantes do poder, em sistema de pluriemprego.


SOBRE A MENSAGEM

Como o anterior sermão, o famoso Sermão da Sexagésima, é do mesmo ano de 1655 no mesmo local, a Capela Real. É um sermão magnífico, mesmo para pessoas não religiosas, como é o meu caso:

Sobre a falta de eficácia da pregação junto dos índios do Brasil, perguntava o Padre António Vieira “(...) Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? (...).” E recomendava que o “estilo há de ser muito fácil e muito natural e que o “sermão há de ter um só assunto e uma só matéria[sublinhados nossos].

“(...) Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem?(...)”.

O pior para quem comunica é empregar maneirismos, percorrer desvios ou usar apartes, que atrapalhem e anulem a concentração dos ouvintes sobre o assunto principal que se pretende transmitir. Evitar complexidades desnecessárias e ser direto, conciso, objetivo, claro e nunca demasiado prolongado, são conselhos que ouvimos sempre dos especialistas em comunicação. Um dos princípios mais conhecidos sobre eficácia da comunicação é o KISS (Keep It Simple and Stupid – Mantém Isso Simples e Estúpido).


SOBRE PALAVRAS E AÇÕES

Outro texto também do Sermão da Sexagésima, quando o Padre António Vieira explica que a questão fundamental da falta de eficácia da pregação não eram as palavras:

“(...) A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? – o conceito que de sua vida têm os ouvintes (...). Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem [sublinhado nosso] (...).”

A palavra, o discurso, é menos eficaz do que possamos por vezes pensar. Um dos campeões de vendas dos livros de gestão, o canadense Malcolm Gladwell [8], esclarece no seu livro “Blink”: “(...) toda a gente sabe que é melhor ter um especialista para mostrar-lhe – e não apenas dizer-lhe – como se joga o ténis ou o golfe, ou se toca um instrumento. Aprendemos pelo exemplo e pela experiência direta, porque existem limitações à capacidade da instrução verbal [sublinhado nosso] (...)”.
A aprendizagem académica ou profissional, em aula, apenas pela leitura ou com meios audiovisuais, é retida pelo ser humano em menos de 20% dos casos, enquanto que por exemplo a aprendizagem prática, é retida com sucesso em mais de 75% dos casos. Os pedagogos defendem que as crianças aprendem mais pelo exemplo, do que pela retórica dos educadores, pais e professores [9]


Usei apenas três sermões, todos com mais de 350 anos, mas o Padre António Vieira, tem muitos outros escritos: só sermões e cartas são às centenas. Este exercício poderia prolongar-se até onde desejássemos sobre os mais variados temas.  


NOTAS:
[1] Flávio Magno Aurélio Cassiodoro (490 — 581), político e escritor romano.
[2] Nicodemos - fariseu que viveu no tempo de Jesus. Era membro do Sinédrio e Mestre da Lei. Segundo o Evangelho de João, apoiava Jesus.
[3] Resvaladeiros – lugares inclinados e escorregadios onde se resvala com facilidade.
[4] “Estrobeu” não encontrei. Poderá ser Estrabão (64 a.C.- 24 d.C.), geógrafo grego que na sua “Geografia” tem inúmeras referências a Alexandre Magno.
[5] Dominga – domingo.
[6] Tosar – aparar a felpa do pano.
[7] Ver na Wikipedia “Elite theory” e como fenómeno relacionado “Interlocking directorate”. Poderá ter interesse, ver também na Wikipédia “Revolving door”. Aconselho a leitura destes assuntos na Wikipédia em inglês. Em português, ou não existem ou não estão suficientemente desenvolvidos.
[8] Malcolm Gladwell é escritor e jornalista. Todos os seus livros entraram na lista dos livros mais vendidos do New York Times.

domingo, 31 de julho de 2016

Porque é que os portugueses se lançaram ao mar e iniciaram os Descobrimentos?


Gomes Eanes de Zurara.
Padrão dos Descobrimentos, Lisboa.
É um assunto que ainda levanta discussões entre os historiadores. Sabe-se que o arranque inicial, a partir da primeira metade século XV, é liderado pelo Infante D. Henrique. É ele que organizadamente envia embarcações para conhecer a costa africana, e dá início ao que é designado por “Descobrimentos”.

O cronista da época, próximo do Infante D. Henrique, Gomes Eanes de Zurara diz explicitamente nas suas “Crónicas da Guiné” que “(...) imaginamos que sabemos alguma coisa quando conhecemos o seu fazedor e o fim para que ele fez tal obra (...)”, após o que nos expõe as “(...) cinco razões porque o senhor infante foi movido de mandar buscar as terras da Guiné (...)”.  

Zurara não poderia ser mais claro, conhecia bem o Infante e ia dizer-nos o porquê das suas descobertas. Mas os escritos de Zurara carecem de aceitação generalizada.

O livro recentemente reeditado de Peter Russel, “Henrique, o Navegador”, é justamente considerado o que de melhor se tem escrito sobre a pessoa do Infante D. Henrique e os primeiros passos dos Descobrimentos. De realçar que Peter Russel não só tem consigo o grande prestígio da direção dos Estudos Portugueses de Oxford, como foi especialista em história medieval ibérica e socorreu-se profusamente para elaboração do seu livro do melhor que poderiam oferecer alguns dos mais conhecidos e respeitados historiadores portugueses. Peter Russel faleceu em 2006 com 92 anos. Logo na introdução do seu livro, escreve o seguinte sobre Zurara:

“Foi em Portugal, ainda no tempo de D. Henrique e com a sua própria participação ativa, que a personalidade e os feitos do Infante começaram a afastar-se da realidade e a assumir os primeiros contornos do mito. As crónicas do seu coetâneo e devoto admirador, Zurara, orientam fortemente a biografia de D. Henrique nesse sentido. Foi ele quem primeiro tentou retratá-lo no triplo papel de Infante exemplar, cruzado dedicado contra o Islão e savant solitário.”
Mais adiante acrescenta que  Zurara “é para o historiador moderno um biógrafo muito menos satisfatório do que esperaríamos de alguém que esteve tão perto do seu objeto. Fiel à tradicional visão medieval do dever oficial de um cronista, nunca supôs que devia apresentar o Infante de forma objetiva, defeitos incluídos.”

É-me difícil aceitar que Zurara não seja um cronista competente, “menos satisfatório do que esperaríamos” ou pouco “objetivo”. Em especial, a crítica de não incluir os “defeitos” do Infante parece-me deslocada, atendendo a Zurara ser um cronista do século XV, algo que não pode ser comparado a um historiador moderno.

Socorri-me também do extraordinário Dicionário da História de Portugal, a grande enciclopédia histórica dirigida por Joel Serrão,  onde talvez pudesse descobrir mais coisas sobre o cronista. Tenho a edição de 1985 da Figueirinhas, sendo a última entrada do último volume, o sexto, precisamente “Zurara (Gomes Eanes de)”:

“Em contraste com as do seu antecessor [Fernão Lopes], as crónicas de Zurara são constituídas por narrativas elogiosas das proezas guerreiras de grandes personagens. Na Crónica da Tomada de Ceuta declara que averiguou diligentemente as ações de todos os guerreiros nobres, “conhecendo bem que a vontade de el-rei meu senhor é saber perfeitamente todos os merecimentos de seus naturais para honrar a memória dos mortos e remunerar os vivos pelos trabalhos de seus pais e deles mesmos”. Esta conceção da história, repetida em vários outros textos de Zurara, coincide com o reforço do poder senhorial no reinado de D. Afonso V e com a ideologia cavaleiresca então dominante. A fonte principal de Zurara é o testemunho oral das personagens biografadas. Assim, para os feitos do Infante D. Henrique, é o próprio Infante, chefe e protetor de Zurara. Este método não é propício à objetividade histórica (...)”.

Mas se Zurara vai escrever sobre a obra do Infante, tendo-o ali a seu lado e podendo falar com ele sobre o assunto, se o fizer é criticado por não ter “objetividade histórica”? Então que dizer da grande maioria das biografias e autobiografias dos últimos cem anos? Parece-me uma crítica injusta. A verdadeira razão da má vontade contra Zurara descubro-a na continuação do texto:

“(...) as crónicas de Zurara são quase omissas acerca dos fenómenos coletivos e dos aspetos económicos e sociais, muito desenvolvidos por Fernão Lopes. A opinião do vulgo, sempre depreciada, só aparece em contraste com a razão do herói. As duas grandes ideias que norteiam Zurara são, por um lado, a “honra” cavaleiresca e, por outro, a dilatação da Fé, a qual teria sido o móbil do Infante no descobrimento da costa africana (...)”

Repare-se no condicional em “teria sido o móbil do Infante”. Quer dizer-nos que pode não ter sido esse o motivo. Mas não compreendo como se pode concluir que, sendo Zurara apoiante do poder da época, mesmo que omita factos considerados importantes pelos historiadores atuais, da área social e económica, tenha em consequência disso errado a exposição dos motivos das descobertas henriquinas. Mais parece é que alguns historiadores, incluindo Russel, adotaram uma atitude anti-Zurara, o que não deixa de ser curioso de constatar, pois passaram mais de cinco séculos.

Estou convencido que Zurara referiu precisamente aquilo que na sua opinião foram as principais razões do arranque dos descobrimentos, e que essas razões não se fundamentaram apenas em aspetos de interesse direto, social ou económico, que Zurara não deixa de referir, mas também outros, de caráter ideológico, religioso e geoestratégico. 

Rosa de Santa Maria
Importa sublinhar que os anos iniciais das descobertas vistas pelo prisma económico, são um desastre. A primeira descoberta de relevo, a passagem do Bojador por Gil Eanes em 1434 [Ver NOTA FINAL], demorou anos a conseguir, depois de muitas tentativas frustradas. Quando Gil Eanes finalmente teve sucesso e voltou para Portugal, a única coisa que trazia consigo eram exemplares de uma planta das regiões semidesérticas - que batizaram com o nome de “Rosa de Santa Maria”. 
Para quê manter tal empreendimento, de descobrir novas terras, sem benefícios que minimamente pudessem compensar custos de embarcações e vidas perdidas? Seria certamente algo de difícil compreensão sobretudo para a sua própria época, especialmente depois da tentativa falhada da conquista Tanger em 1437, desastre em que o Infante tinha grandes responsabilidades.

Vejamos então as cinco razões adiantadas por Zurara para explicar as descobertas henriquinas:

1º Curiosidade
Não é uma curiosidade qualquer, a de querer conhecer o mundo, embora Zurara a transmita de forma simples dizendo que o Infante “(...) tinha vontade de saber quais as terras que estavam para além das Ilhas Canárias e de um cabo, que se chama Bojador (...)”. Ao mesmo tempo lamenta que “(...) nem mareantes nem mercadores (...)” tentariam começar com essas viagens, “(...) porque claro está que nunca nenhuns deles se trabalham de navegar senão para donde conhecidamente esperam proveito (...)”.

2º Comércio
Para a sustentabilidade a prazo da empresa era necessário encontrar formas de obter algum tipo de rendimento,  por isso Zurara adianta a relevância dessa possibilidade “(...) se fosse encontrada alguma povoação ou porto cristão (...) poderiam ser levadas muitas mercadorias que teriam bom mercado, pois [além dos portugueses] os naturais (...) não teriam outras pessoas com quem tratar (...)”.

3º Avaliar a área de influência dos mouros
Em permanente conflito com os mouros, tendo por responsabilidade o controlo de Ceuta, e a chefia de uma armada, percebe-se a preocupação do Infante, daí Zurara indicar que “(...) trabalhou o dito senhor de mandar saber, para determinadamente conhecer até onde chegava o poder daqueles infiéis (...)”.

4º Encontrar aliados 
O Infante “(...) queria saber se se achariam naqueles lugares alguns príncipes cristãos, em que a caridade e amor por Cristo fosse tão forte, que quisessem ajudar [no combate] contra aqueles inimigos da fé (...)”. Acreditava-se poder encontrar reinos cristãos longínquos em África, como o de Preste João, a quem Zurara faz uma referência explícita no capítulo XVI das Crónicas da Guiné, revelando que além da costa africana, o Infante disse que desejava ter conhecimento “(...) das Índias e da terra de Preste João (...)”.  

5º Dilatação da fé cristã
A última razão referida por Zurara, é o “(...) grande desejo que havia de acrescentar na santa fé de nosso senhor Jesus Cristo, e trazer a ela todas as almas que se quisessem salvar, conhecendo que todo o mistério da encarnação, morte e paixão de nosso senhor Jesus Cristo, foi obrado a este fim (...)”.

Estas razões parecem facilmente entendíveis e lógicas. Na História de Portugal coordenada por Rui Ramos, no capítulo VII da Primeira Parte – Idade Média (séculos XI-XV), da responsabilidade de Bernardo Vasconcelos e Sousa, sob o título “A exploração da costa africana”, expõem-se resumidamente as “cinco razões” de Zurara, ajuizando-se entre outras considerações, que delas “ressalta uma perspetiva coerente para a ação do infante D. Henrique”.


Também sobre as “razões” que Zurara atribui ao Infante, Damião Peres na sua “História dos Descobrimentos Portugueses” de 1943, uma das obras fundamentais sobre os descobrimentos, declarava que “no seu conjunto, as afirmações de Zurara correspondem a uma visão clara e integral da ação do Infante, bem preferível a qualquer das apreciações modernas. O cronista não no-lo mostra como extrema personificação do espírito de cruzada, nem como a mais perfeita expressão dum miserável interesse mercantil; pelo contrário, situando-se entre os extremos dum elevado ideal ou de inferiorizantes aspirações materiais, criados por autores unilateralmente apaixonados, deixa claramente entrevê-los como alguém em cujo espírito ecoavam todos os anseios, todas as aspirações, todos os interesses que constituíam a vida europeia de então”.

NOTA FINAL:
Estamos no reinado de D. Duarte I, que termina com o seu falecimento em setembro de 1438. D. Duarte, filho de D. João I, era o irmão mais velho do Infante D. Henrique e pai de Afonso V. 

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A propósito do livro “Casamento e Divórcio” de D. Alberto Bramão (1865-1944)


Alberto Bramão em 1908
D. Alberto Bramão é meu preferido memorialista da primeira metade do século vinte. É um extraordinário contador de histórias reais porque consegue sempre agarrar os aspetos mais interessantes e pitorescos, com inteligência e humor. A sua ligação com os meios da cultura e da política, do jornalismo e da academia, possibilitaram-lhe conviver com algumas das principais figuras do seu tempo. 
{Recomendo em particular os seguintes livros de memórias: "Recordações" de 1936, "Últimas Recordações" e "Faúlhas dum Lume Vivo", ambos póstumos de 1945.}

Além dos livros de memórias, é da sua autoria o livro “Casamento e Divórcio”, que saiba, o primeiro livro que em Portugal foi escrito a defender a ideia da legalização do divórcio. Data de 1908, sendo editora a Livraria Central de Gomes de Carvalho da Rua da Prata em Lisboa. Bramão tinha sido um colaborador próximo de Hintze Ribeiro (líder do partido regenerador e várias vezes primeiro-ministro) e dedica o livro à memória do falecido chefe de governo. Na altura em que foi publicado, já a grande maioria dos países europeus tinham legalizado o divórcio. Excetuavam-se os países católicos do Sul da Europa, Itália, Espanha e Portugal.

Escreveu Alberto Bramão em "Casamento e Divórcio":

Seria longo explanar as razões de ordem vária que tem retardado a nossa marcha, na ascensão triunfal dos povos cultos para a grandeza e para a felicidade. Antero de Quental apontou, entre os elementos da decadência hispânica, o exagerado catolicismo; Alexandre Herculano viu também no mesmo agente a causa de muitos males.

O espírito fanático, de que mal nos libertou a cruzada das liberdades políticas na primeira metade do século passado [1], deixou raízes fundas e difíceis de extirpar.
O nosso liberalismo, por enquanto, é apenas um aparato casuístico, de que falam os da governação pública; não é uma convicção radicada no sentimento. Dizemos que somos liberais, com mais ou menos ardor, mas não o sentimos. E é por isso que entre nós se dá este facto invariavelmente repetido, com maior ou menor exagero: todas as oposições políticas defendem a liberdade [2], como um pai defende uma filha ameaçada; todos os governos a sacrificam depois, como os fariseus sacrificaram Jesus.

A liberdade é um remédio que todas as oposições receitam, mas de que nenhum governo faz uso.
Esta antinomia [3], esta flagrante contradição entre os atos e as palavras, é a demonstração de que o nosso espírito está ainda tateante no meio das afirmações europeias deste século. Há em nós ainda a sobrevivência da opressão clerical e jesuítica, embargando a livre ação da nossa inteligência, e tirando-lhe aquela força indispensável ás convicções. Temos ainda a nossa liberdade intelectual emaranhada em preconceitos medievais. Somos um povo cujo pensamento se equilibra entre reminiscências heroicas e ficções políticas. A exatidão das ideias, donde deriva o senso prático, não a possuímos; é essa uma das nossas mais acentuadas deficiências.

Não é por razões religiosas, pois sou meio ateu meio agnóstico, mas sou contrário a algumas das chamadas causas fraturantes que ponham em causa aquilo que defendo ser os “bons costumes”. Confesso esse meu conservadorismo. No entanto, sou levado a reconhecer que a instituição do casamento civil tornou-se na prática obsoleta. Fora do enquadramento religioso, a figura do casamento, como figura legal, já não apresenta quaisquer vantagens: as uniões de fato estão equiparadas aos casamentos sob todos os aspetos, se algo estiver em falta é uma questão de tempo a diferença deixar de existir; já se podem casar pessoas do mesmo sexo, as quais também podem adotar crianças, pelo que o argumento de que o casamento se destina principalmente a apoiar a prole do casamento heterossexual está ultrapassado.

Não estou por isso admirado que em França esteja neste momento a ser discutida uma lei que prevê que o “divórcio amigável” possa ser realizado de uma forma simples, bastando ir a um notário e assinar o “contrato de divórcio”, sem qualquer intervenção de um juiz. Realmente, para quê um juiz? E já agora, para quê um casamento quando as pessoas não são religiosas? Mais de 70% dos casamentos dão em divórcio, as chatices não valem a pena.

Quanto à demografia e a necessidade de nascerem mais criancinhas, ao que parece a resolução do problema passará pela entrada de jovens imigrantes, principalmente muçulmanos, refugiados e turcos [4]. Teremos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, para evitar o que está a acontecer em França, com os filhos e os netos dos emigrantes muçulmanos que continuam a viver em “guetos”, sem qualificações e desintegrados da sociedade.

NOTAS:

[1] O autor refere-se à primeira metade do século dezanove.
[2] Passando para os tempos atuais, traduziria a falta de liberdade nos seguintes termos: opacidade da governação/falta de transparência; centralismo por oposição a descentralização; prepotência dos burocratas, por exemplo do fisco, face ao cidadão que na prática, mesmo tendo evidente razão, não tem meios para se lhes opor; debilidade da sociedade civil e insuficiência das autoridades públicas independentes, fiscalizadoras do estado; insuficiência dos meios judiciais e jurídicos para defender o estado de direito e consequentemente, o cidadão; irrelevância quase absoluta da imprensa escrita e muito particularmente o paupérrimo jornalismo de investigação existente; quase impossibilidade de emergirem novas e significativas empresas, algo que necessitamos em absoluto, fora da lógica de funcionamento do estado ou dos favores políticos, etc. Há nos nossos tempos muitos sinais reveladores da “falta de liberdade” referida por Bramão.
[3] Conflito entre duas ideias.
[4] A Turquia conseguiu agora, através das negociações sobre refugiados, que a Comissão Europeia recomendasse ao Parlamento Europeu e aos Estados Membros que deixassem de exigir vistos aos cidadãos turcos para estadias de curta duração. Inevitavelmente, vamos ter ainda maior número emigrantes turcos ilegais na Europa.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Venceslau de Morais e o Japão III – Alma japonesa


Pintura de Yumeji Takehisa (1884-1934)
Um dos livros mais interessantes de Venceslau de Morais chama-se “Relance da Alma Japonesa”, de 1925. Nessa altura Morais residia no Japão há 27 anos e por isso conhecia muito bem os seus usos e costumes. Tinha abandonado a vida ocidentalizada em 1912, quando saiu do consulado português em Kobe, e vivia desde essa altura em Tokushima, como um verdadeiro japonês.

O capítulo do livro que mais me interessa é o oitavo, “O Amor”. Desde o meu tempo de adolescente, deveria ter 13 ou 14 anos, vivia uma japonesa na minha rua. Nunca troquei uma palavra com ela, mas desenvolvi uma daquelas paixonetas platónicas de adolescente. As únicas emoções cardíacas que tive com ela durante os quase dois anos de fixação, foi a de trocarmos três ou quatro vezes um olhar e um sorriso meio envergonhado, ao passarmos um pelo outro. Depois, descobri que a família tinha ido morar para outro local e nunca mais a vi. Fiquei destroçado, mas naquela idade reciclamos e redirecionamos os nossos afetos com uma velocidade espantosa. No entanto, deixou-me a lembrança de uma figura muito feminina, delicada, de modos suaves, e principalmente despertou em mim a curiosidade em saber mais coisas sobre a vida afetiva no Japão.

A sociedade japonesa mudou muito desde o tempo de Venceslau de Morais, por isso, devemos procurar em primeiro lugar uma informação recente. O jornal diário “Japan Times” de Tóquio, é o mais importante jornal de língua inglesa no Japão. Em Fevereiro de 2011, publicou um artigo de opinião da senhora Kaori Shoji intitulado “O casamento tem pouco a ver com o amor romântico”, do qual se segue uma síntese:

Se quisermos saber porque é que casamos e namoramos cada vez menos, temos de compreender que embora saibamos, em teoria, o que é o amor ou a paixão amorosa, a verdade nua e crua é que não somos suficientemente românticos.
Vejamos o caso de Mitsue, 37 anos e segundo as suas próprias palavras, no auge da sua aparência, disposta a arrumar os seus sapatos altos e a assentar. Ela não está interessada em ter um namorado, mas simplesmente viver com alguém a quem possa chamar “família”. Durante este período de São Valentim planeia usar os seus amadurecidos encantos para conseguir um marido, e está disposta a sacrificar muito – inclusive o seu sonho romântico mantido desde os tempos da juventude.
“Os homens japoneses não compreendem o romantismo” diz Mitsue - que tem escolhido preferencialmente como namorados, americanos e asiáticos do sudeste – “mas paciência, não podemos exigir romance na nossa própria família”.

E aqui está o fulcro da questão. Há esta ideia enraizada de que qualquer coisa cor de rosa, apaixonada ou abertamente sexual, não faz parte do casamento japonês, e consequentemente, no lar da família japonesa. É quase uma regra que os maridos procurem sexo fora de casa, uma vez que esse território pertence à esposa e às crianças e portanto é sagrado. É estranho e é até perverso. Mas essa forma de pensar é prevalente mesmo nas novas gerações, existindo a tendência para se distinguir entre o que é o amor familiar (kazokuai, 家族愛) e o amor relacional (renai, 恋愛). O primeiro diz respeito à vida do dia a dia (seikatsu, 生活 ), o segundo diz respeito ao prazer pessoal, satisfação física, paixão, carinho e outras coisas gratificantes. Há mesmo a noção que se casarmos com a pessoa que amamos, vamos acabar por ficar desapontados e acaba tudo em divórcio. A minha avó tinha uma máxima favorita para esta situação: “escolhe a quinta pessoa da tua lista para parceiro de casamento”. O habitual pedido de casamento do homem japonês é particularmente cru: “queres fazer a minha sopa de missô?”. Há uma fórmula mais antiga mas igualmente questionável: “queres partilhar a minha campa comigo?”.

Mitsue diz que não se importa com estas coisas. Depois de mais de uma década a ouvir declarações de amor ardentes em três línguas diferentes, para ver depois essas relações esboroarem-se, procura agora um compromisso sólido de longo prazo. Ela sabe ao que vai – a vida de casada consiste em comprar ao fim de semana suficiente papel higiénico ou molho de soja para a dispensa e em sacrificar boa parte do tempo de férias a visitar familiares: “mesmo assim quero casar”.
Ela conta casar e seguir uma abençoada vida de dona de casa sengyō shufu (専業主婦), num 2EJC (dois quartos, sala de estar, casa de jantar e cozinha) com um empréstimo a vinte anos. Espera também dormir em quartos separados, como fazem muitos casais japoneses: “Não me importo de partilhar a mesma campa, mas o meu limite é dormir na mesma cama”.

Como descreve Venceslau de Morais o casamento japonês em 1925?

(...) o japonês não casa por amor. O japonês casa para ter um filho, um descendente, um herdeiro, que perpetue o nome da família pouco a pouco desaparecida, à qual então se presta culto no altar dos mortos. Por seu turno, o infante herdeiro casará em tempo próprio, para ter um filho, com iguais garantias e encargos, e assim se irá procedendo sempre, de geração em geração. Curiosos fatos, este do homem branco se lançar inconscientemente, de olhos vendados, apenas impelido por um vago impulso amoroso, na senda do matrimónio, e este do japonês, ignorando o amor, caminhando direito ao seu fim, pedindo à esposa, antes exigindo, uma só coisa: um filho!... O casamento, no Japão, é pois um sentimento profundamente, exclusivamente religioso, derivado do culto da família, do culto dos antepassados (...). Em regra, não há japonês celibatário. Todos casam, e cedo.

Ainda há poucos dias, me dizia um japonês de não vulgar cultura, que, para qualquer dos seus compatriotas, o fato de não ter um filho é considerado uma desgraça. Assim é, e assim foi sempre. Antigamente remediava-se tal desgraça pelo divórcio. A esposa, julgada estéril (muitas vezes injustamente), saía do lar, vindo outra substituí-la. Em todo o caso, antigamente como agora, oferece-se o remédio, embora deixe a desejar alguma coisa, da adoção de filho estranho na família. O sistema de filhos adotivos foi sempre e é muito seguido no império, gozando eles, pelas leis e pelos costumes,  de todos os direitos, e obedecendo a todos os deveres, como legítimos.

Chegado à idade de casar-se, o moço japonês pouco ou nada se ocupa do assunto. Não o interessa. O casamento é, com efeito, e por mais estranho que pareça, mais um evento de família do que um evento dele próprio. É a família que lhe procura noiva, que marca o dia para a festa nupcial; procedendo no caso, em regra, não diretamente, mas por meio de intermediários, que previamente se informam das qualidades morais e outras circunstâncias referentes à futura esposa e dão igualmente informações sobre o noivo à família da noiva. Muitas vezes combina-se um encontro entre a noiva e o noivo, em casa dos intermediários por exemplo, de modo a que se fiquem conhecendo antes das núpcias, e possivelmente se rejeitem um ao outro, no caso muito improvável de surgirem da entrevista repugnâncias invencíveis. E finalmente casam-se, lá vão os dois formar família...

No Japão de hoje já não são as famílias a combinar os casamentos, mas é compreensível que a aceitação por parte da família ainda seja um aspeto de grande relevância para os noivos. A carga religiosa viu também grandemente diminuída a sua importância comparativamente com os anos vinte, algo comum em quase todo o mundo civilizado. O que me pergunto é: serão os japoneses menos sensíveis relativamente aos sentimentos amorosos que os ocidentais, como sugere o artigo do Japan Times? Venceslau de Morais não era nada dessa opinião quando escreveu sobre o assunto nos idos anos vinte do século passado.

O japonês é tão suscetível de sentir o amor passional, com todos os seus transportes afetivos, como o homem branco; ou antes, muito mais suscetível do que este. O exemplo do shinjû, confirma amplamente o que avancei. O que é o shinjû? Vou explicar (...). Um moço qualquer entra em relações de intimidade com uma mulher de má nota, uma dessas raparigas caídas em desgraça, arrastadas ao vício, excluídas ao convívio dos lares calmos e honestos. Surge um motivo, - falta de recursos pecuniários, rumores que a família do mancebo cuida em procurar-lhe noiva, etc. – Vê-se então este compelido a ir confessar aos seus parentes a grave história que o perturba, pedindo-lhes consentimento para casar com a única mulher que ele estima neste mundo. O consentimento é-lhe perentoriamente negado, claro está. Então, ele e ela, - ela talvez, pobrinha sem vontade, submetendo-se passivamente à vontade do homem que a domina, - combinam o último encontro, e suicidam-se juntamente, por qualquer forma.
Chama-se shinjû a este suicídio duplo, não raro no Japão. Parece presidir a este trágico desfecho uma ideia religiosa, falsa; o budismo condena o suicídio, como condena todos os amores desordenados; mas eles, os louquinhos, fabricam um budismo para seu uso, crentes que renascerão para uma nova vida, limpos de impurezas humilhantes e então unidos para sempre...

Mas encontram-se casos ainda bem mais extraordinários; e ides julgá-los. Há apenas uns seis anos, certo professor numa escola primária, na província de Fukuoka, enamorou-se ao mesmo tempo de duas raparigas, professoras também na mesma escola. Resultado final: - suicidaram-se os três, juntamente, num hotel. – Direis, talvez, que se trata de um caso de loucura, ou antes, de três casos de loucura; e direis muito bem, porque a todas as paixões, elevadas aos seus mais tremendos paroxismos, cabe este nome, que nos induz a pôr de parte qualquer investigação que nos perturbe. Em todo o caso, o episódio, tremendamente alucinante, calha bem neste lugar; e vem provar a que estado de efervescência passional, derivada do amor, pode chegar a alma japonesa!...

Deve ainda mencionar-se um processo indireto de ir estudar, agora com deleite, o amor japonês, pelo que a lenda, a poesia e a literatura em geral nos dizem dele. A voz da lenda ou a palavra do autor não contam em geral o que viram; devanearam, contam o que sentem, nada mais; mas sentir uma coisa implica já uma afirmação de possibilidade. A lenda japonesa e a literatura japonesa oferecem-nos interessantes revelações acerca do delicadíssimo sentimento afetivo, que é o amor; levando-nos à plena convicção de que o filho e a filha do país do Sol Nascente sabem amar, como toda a gente sabe amar, universalizando-se o amor.

Reunidos os vários argumentos e considerando as distâncias e as diferenças temporais, parece-me que Venceslau de Morais é mais sensato e tinha razão. A generalização negativa do artigo do Japan Times é certamente exagerada. Mas admito também que quero acreditar, que aquela adorável japonesa da minha juventude, voltou para a sua terra natal  e aí tem sido feliz.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Venceslau de Morais e o Japão II – Vida em Kobe e em Tokushima


Venceslau de Morais
em Tokushima
De 1898 a 1929, ano do seu falecimento, Venceslau de Morais vive no Japão, numa primeira fase até 1912, enquanto cônsul de Portugal, na cidade de Kobe, depois quando sai do consulado muda-se para a cidade de Tokushima onde ficará a viver definitivamente. Como foi a sua vida no Japão, melhor que nós, vejamos do que dele disseram os seus anfitriões japoneses:

De folheto escrito por Jiro Yumoto, da Prefeitura de Tokushima, de Junho de 1936.
Citado em “Os Amores de Wenceslau de Moraes”, 
Ângelo Pereira e Oldemiro César, 1937, Editorial Labor, Lisboa.

(...) Diz-se ainda hoje, entre a gente de Tokushima, que Morais, com a sua expressão doce e risonha, e acariciando a longa barba branca, amimava as crianças que o rodeavam. Nos seus últimos anos, a mãe de Ko-Haru, que vivia perto, costumava ir de manhã e à tarde a sua casa para fazer a comida e o serviço pessoal. Ele falava sofrivelmente o japonês e os assuntos principais da sua conversa eram os fenómenos naturais das estações do ano, parecendo que nunca se referia a assuntos intelectuais. Diz-se também que Morais falava muito bem o inglês e o francês, e numerosos livros nestas duas línguas foram encontrados no seu espólio.

Teve profunda afeição por suas mulheres Ó-Yoné e Ko-Haru, e há até três obras dele intituladas com estes nomes. Depois da morte de Ko-Haru, todas as vezes que tinha qualquer indisposição, atava, á maneira de Sukeroku [herói de famosa peça teatral japonesa] em volta da cabeça, uma tira rasgada do fato de fazenda kurumegasuri [tecido tradicional japonês] , de Ko-Haru. Poder-se-á  com isto avaliar o sentimento de Morais. Homem que tanto amava a natureza, tanto se afeiçoava á gente humilde e de alma tão compassiva, já não era um simples português, era antes um japonês que adquirira o espírito oriental, ou um peregrino de virtude universal.

É naturalmente difícil revelar neste pequeno folheto a grande admiração que temos por Venceslau de Morais. A coisa que a seu respeito maior impressão moral nos deixou foi o venerável preceito da sua vida, como de um japonês. Vivia como um homem que se tornou completamente nosso. No quarto de oito tatâmis [cerca de treze metros quadrados], que era simultaneamente de estudo e para dormir, tinha centenas de livros, secretária, cadeira, mesa, cómoda, armário e objetos de toda a qualidade, ocupando grande espaço. A sua casa, com os tetos muito baixos, incomodava-o demasiadamente para o seu corpo enorme. Tinha toda a razão de dizer num trecho do Bon-Odori em Tokushima que era necessário muitíssimo cuidado para não bater com a cabeça no teto.

Dedicava-se à meditação, à leitura e à escrita, geralmente sentado naquela secretária modesta, em frente da qual estava colocado para sua adoração o retrato do Imperador Meiji. por cima, á direita, o talismã de Amaterasu-Omikami [deusa principal do panteão xintoísta, da qual diz-se que descende a casa imperial japonesa] , e à esquerda o Meiji-Jingu [santuário xintoísta dedicado ao falecido imperador Meiji]. Guardava também um cigarro com brasão imperial num tubo de vidro fechado com grande esmero.
Este objeto foi arrecadado na Biblioteca Prefeitural Kokei [biblioteca municipal da cidade de Tokushima]. Factos são estes. que nos comovem profundamente. Morais não era um simples examinador do Japão e imitador dos japoneses. Foi realmente um verdadeiro japonês, fiel e sincero, e entusiasta apologista do Japão (...).

Não são poucos os estrangeiros que estudam o Japão ou o louvam. Contudo, Morais que, adquirindo perfeitamente o espírito nipónico, viveu como um verdadeiro japonês e muito louvou o Japão, investigando-o piedosamente, é muito distinto daqueles que querem escrever sobre o Japão só com interesse, observando-o superficialmente. Seria bom chamar-lhe Morais do Japão, nascido em Portugal, em vez de chamar-lhe português.

Morais! Morais! Venceslau de Morais, do Japão!
Que a tua alma descanse em paz eterna no nosso Japão das cerejeiras que tanto amaste, em companhia das tuas queridas Ó-Yoné e Ko-Haru! (...)”

Como tão bem disse Jiro Yumoto, Venceslau de Morais adquiriu “perfeitamente o espírito nipónico”, vivendo “como um verdadeiro japonês”, por isso, sobre a vida e a cultura japonesa vale a pena ler os seus escritos. Claro que hoje o Japão, como Portugal, é um país muito diferente daquele observado há cem anos. Mas é precisamente por ali estarem muitos dos aspetos mais tradicionais do povo e do país que Morais tanto admirou e entre o qual viveu, que a leitura se torna mais interessante. 


domingo, 28 de fevereiro de 2016

Venceslau de Morais e o Japão I – Primeiras impressões


Venceslau de Morais, com
35 anos, altura da sua
primeira visita ao Japão.
Venceslau José de Sousa de Morais nasce em Lisboa em 1854. Aos 21 anos completa o curso da Escola Naval e começa uma vida de embarcadiço na Marinha Portuguesa. Conheceu Moçambique, Macau, Timor e Japão. Em 1895, fixa-se em Macau. É imediato na Capitania do Porto de Macau e inicia aulas no Liceu de Macau, acabado de inaugurar.

Vai pela primeira vez ao Japão em 1889. Em 1897 acompanha o Governador de Macau em visita ao Japão, conhecendo o Imperador Meiji. Apaixona-se por aquele país e é desse ano o seu primeiro livro dedicado ao Japão, "Dai-Nippon" [O Grande Japão]. O que o terá levado a gostar tanto daquela terra encontra-se explicado no seu livro:

“(...) o que mais impressiona, mais cativa, mais consola, mais talvez do que em qualquer outro canto do mundo, é o prestígio ridente de tudo que nos rodeia, de tudo que os nossos olhos alcançam, como que numa festa perene da Criação. O Japão é um país feito de risos, ou antes de sorrisos; ao Criador, que tudo pode, não admira que bastasse esta subtil matéria prima para a elaboração das suas maravilhas. Tudo sorri. Sorri o céu, em doces cambiantes de azul nunca sonhados; sorri a vegetação, em doidas ramarias curvando ao peso de delicadas florescências; sorriem as colinas caprichosamente acavalgadas [umas sobre as outras], com as suas bastas cabeleiras de garotos, feitas de musgos e de capilarias [de capilares; vegetais ou restos vegetais com a aparência de finos fios]; sorri a paisagem fresca das ribeiras, serpeando pelas campinas verdes; sorriem as casinhas garridas das aldeias, surgindo dos campos de lotos cor de rosa; sorriem os pássaros em gorjeios e os insetos em palpitações de élitros [capas protetoras das asas]; sorriem as crianças, mimosas de carinhos e de louçanias [encantos]; sorri o aldeão, sorri o operário, em doces fisionomias de gente sem cuidados; e sorriem as musumés, as raparigas, frescas, deliciosas de perfis e adoráveis. Lágrimas, meus amigos, creio que só do orvalho aqui logram gotejar. A alegria, disfarçando-se num ambiente de encantos que envolve tudo e todos, assentou aqui decididamente poisada; e tão pródiga, a santa, que nem ao forasteiro regateia algumas horas de maravilhoso enlevo, quando ele vem, farto de si e do mundo [creio que era o caso de Venceslau de Morais], aquecer-se a este sol.

O Japão possui o segredo de tornar-se querido de qualquer que venha da Europa, ainda impressionado pelo fausto das grandes capitais, e ainda saudoso do ninho pátrio que deixou. Quando a gente vem, nem mesmo sabe de onde, de uma longa vagabundagem em terras pestíferas, coalhadas de miséria, consequentemente mais lhe quer. Dissipam-se sonhos negros, langores de misantropo. Assim como os japoneses entram nos templos, largando à porta as sandálias poeirentas, e purificando em santas abluções as mãos e a boca, assim a gente, ao entrar no Japão, deixa à porta a poeira dos amargores passados, e sente em si a alma leve e o espírito impressionável a todas as seduções.”

Venceslau de Morais aos 43 anos de idade em 1897, quando publica "Dai-Nippon", era já homem maduro, viajado e experiente. Atraído pelo país, fica a viver no Japão a partir de 1898, fixando-se inicialmente em Kobe e ocupando a posição de consul português na cidade.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Silva Pinto (1848-1911), nós e a bisbilhotice


Silva Pinto
De nome completo António José da Silva Pinto, escreveu romances, ensaios, teatro, crónicas jornalísticas, um pouco de tudo. A obra publicada é uma lista enorme com algumas dezenas de títulos, a maioria esquecidos. Embora lutando ao longo da vida com escassos recursos foi sempre generoso. É Silva Pinto quem recolhe, organiza e publica a poesia de Cesário Verde, após a morte prematura do grande poeta. É “só” por isso, que por vezes encontro recordado o nome de Silva Pinto.

Do livro de crónicas jornalísticas “Filosofia de João Brás”, de 1895, selecionei um texto engraçado,  adequado a este dia de Carnaval, sobre a bisbilhotice:


AS GOUVEIAS

Subtilmente abro a porta, para me ir à vida, e uma voz cava diz do outro lado da rua:
— Não é nada. É o dos jornais, ali defronte.
Estugo o passo [1] ao longo da parede e corro a esconder-me com a esquina próxima. Não tão longe, que me não deixe ouvir:
— Aonde irá ele hoje de calças pretas?!...
São as Gouveias.

Praça das Flores; e no prediozinho com janelas para três ruas — graças a Deus, as Gouveias vivem num sarilho. É a velha tia e são as três sobrinhas, — duas menores e já propícias ao crime hediondo. Há um velho Gouveia, pescurador [2], ao dizer da velha tia, e invisível a olhos profanos.

A velha Gouveia é Quitéria, as outras são — Virgínia, Aurora e Cândida, lindos embriões de estafermos. Há quatro anos que eu as tenho entre dentes, a todas, e que prometo vingar-me, quando subtilmente abro a porta, para ir à vida, e uma voz cava diz do outro lado da rua:
— Não é nada. É o dos jornais, ali defronte.
Calha hoje! Testemunhas os céus — de que, eu não busco orientar pela minha vida a vida das Gouveias; mas é tempo de flagelar o mexerico, a espionagem, o comentário pérfido, a conjetura vilã – sobre a hora a que eu saio, a hora a que eu entro, o embrulho que eu trago, as calças que eu levo, a minha cara azeda, a minha cara triste, a minha cara indiferente...
Nefanda corja!

Para o serviço de fiscalização da nossa rua, as Gouveias dividiram em quartos o serviço. Há uma, que da uma hora ás quatro da manhã — as horas mortas — faz o seu quarto por detrás dos cortinados. Abre-se na rua uma janela, um trem passa, dois gatos liquidam casos de ciúme: e para logo a cortina se afasta, e o rosto pálido da Aurora, ou o da Cândida, ou o da Virgínia, surge, de olhar fixo e amortecido... E que não surja! Do fundo da casa, a voz dura e sibilante da Quitéria fará ouvir coisas do teor seguinte:
— Isso que foi aí na rua!? Quem está de janela! És tu Cândida!? Tu deixas-te dormir, Cândida!?

Ao romper da manhã, há relatório em família. Quitéria tem espionado as vizinhas de cima, Aurora as do lado, Virgínia as de baixo, Cândida — o exterior. E Quitéria, sorvendo pitadas do meio-grosso [3] e confundindo a imundície do nariz com a do avental, resmunga, na varanda, olhando para quem passa:
 — Não me fazem o ninho atrás da orelha!...

Fala-lhe a mulher do sacristão, a vizinha engomadeira; e conta-me pormenores irritantíssimos. Que a Dona Quitéria proibiu às pequenas que se dessem com a vizinha do lado. — Mas essa vizinha estava sempre lá metida! — É verdade, mas contou a sua vida toda à Dona Quitéria, a velha foi ouvindo... ouvindo... Por fim, cortou relações e aplicou-lhe um : “Tem má fama!  E depois interrompia-me o serviço! E, depois, havia coisas que ela me não contava e que eu tive de mandar saber por um galego — para me pôr ao facto. Não me fazem o ninho atrás da orelha !...”

*
Há dias perguntei á mulher do sacristão:
 — Que descobriu aquela gente a meu respeito?
—  "Hum! Que o senhor recolhe-se às vezes muito tarde e que traz a cara muito amarela, mas que talvez seja do trabalho nos papéis. A Dona Quitéria diz que o trabalho de cabeça faz isso, mas que os senhores desse ofício são de má casta... “

Que grande burra!

Em “Filosofia de João Brás – Ironias, zangas e desdéns de um sujeito que tem visto mundo” de Silva Pinto, editor António Maria Pereira, 1895.


Silva Pinto ainda viveu num tempo em que a privacidade era um valor indiscutível. Valor esse que hoje não existe mais. Por duas razões principais. Primeiro, porque quase sem darmos por isso construímos uma sociedade exageradamente narcisista e vaidosa, com revistas especializadas de beleza e de fitness, de “fofoquices” e de “socialites”,  com “reality shows” na televisão, e com redes sociais de todo o tipo na internet, onde ingenuamente nos expomos. Em segundo lugar, porque tudo ou quase tudo o que fazemos é facilmente controlável. Com os meios técnicos disponíveis, é possível saber os "mails" e mensagens que enviamos, ouvir as nossas conversas, conhecer a cada momento a nossa localização, etc. Com os “pc”,“smartphones”, “tablets” e “smart tvs” permanentemente ligados, até em casa estamos vulneráveis à espionagem eletrónica.

Carnaval do Brasil: o gigantesco
Galo da Madrugada do Recife.
Silva Pinto nunca poderia imaginar a força da bisbilhotice dos nossos dias, que ao longo do século XX teve outras designações, como “vigilância”. Entre 1933 e 1945 existiu em Portugal uma polícia com a designação de Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE).  

Neste século XXI a bisbilhotice continua a aumentar. O passo que se segue, será acabar com o dinheiro em numerário - moedas e notas. Dentro dos próximos 10 anos, todas as transações serão digitais, por cartão ou telemóvel, mesmo as mais insignificantes. Assim, todos os movimentos monetários ficarão automaticamente registados. Foi esta opinião que ouvi expressa por vários líderes económicos mundiais no último Fórum Económico Mundial [4], entre outros por Christine Lagarde, diretora do FMI.

A identificação individual por inserção de um chip subcutâneo, capaz de conter os dados da nossa carta de condução, da conta bancária, do historial médico, académico ou profissional, já não parece estar muito longe. Não julguem que estou a exagerar. 

Podemos pensar que tudo isto poderá estar muito certo, devido por exemplo a razões de segurança internacional ou de prevenção da criminalidade. Aceitaria que sim, desde que soubessemos evitar alguns riscos preocupantes. É que a bisbilhotice é como a face de uma moeda onde a outra face é a coscuvilhice, ou seja a maledicência e a intriga. Como se diz nos meios de gestão, informação é poder. Quando um fiscal consulta o historial de impostos ou o património de alguém, como diferenciar se o está a fazer por razões legítimas ou ilegítimas e mal intencionadas? Se há Anjos, há Diabos. Um poder central maldoso ou uma qualquer ditadura, numa sociedade integralmente informatizada, pode transformar-se numa monstruosidade de terrível eficácia, invasiva e totalitária, de tipo “orwelliano”.

A bisbilhotice é, nesta Terça-Feira Gorda de 2016, um assunto para levar muito a sério.


NOTAS:

[1] Estugar o passo: andar mais depressa, apressar-se.
[2] Pescurador: não encontrei a palavra nos dicionários consultados dos séculos XVIII, XIX e XX. Poderá ser uma palavra da gíria popular e caída em desuso, cujo significado desconheço ou ser simplesmente um erro tipográfico. Tenho outras hipóteses, as mais verosímeis parecem-me ser estas: a palavra ser um erro das Gouveias, querendo elas dizer “perscrutador” aquele que indaga ou procura informações, ou ser uma palavra que as Gouveias ligaram, talvez por erro, a “pescudar”, que significa pesquisar ou inquirir.
[3]  Meio-grosso: qualidade de rapé.  
[4] Forum Económico Mundial: Janeiro de 2016, Davos, Suíça. Ver aqui.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Olavo Bilac (1865-1918) III – Meus poemas preferidos



Olavo Bilac
Não serão provavelmente os melhores poemas de Bilac, apenas os que mais gostei de ler, pela beleza da forma e pelo significado. Como em qualquer seleção de poesia a subjetividade é determinante, mesmo assim procurei explicar o porquê da escolha de cada um dos poemas. 
Não incluí alguns dos poemas mais famosos de Olavo Bilac, como o Língua Portuguesa, mas considerem esta série de três pequenos artigos, que aqui termina, apenas como um aperitivo para ler com maior detalhe a obra do poeta.

O primeiro poema que escolhi é Sagres, do qual gosto principalmente do final, ao qual poderíamos chamar O Sonho do Infante. A conquista dos caminhos oceânicos e de novas terras, as riquezas por encontrar, constituem uma visão idílica, que Bilac acredita ter sido o sonho do infante Dom Henrique, origem da epopeia das descobertas. Sagres, o promontório sagrado, foi na realidade o “berço de um mundo novo”.

Sagres (parcial)

Sonha, - afastado da guerra,
Infante!... Em tua fraqueza,
Tu, dessa ponta de terra,
Dominas a natureza!..."

Longa e cálida, assim, fala a voz da Sereia...
Longe, um roxo clarão rompe o noturno véu.
Doce agora, ameigando os zimbros sobre a areia,
Passa o vento. Sorri palidamente o dia...
E súbito, como um tabernáculo, o céu
Entre faixas de prata e púrpura irradia...

Ténue, a princípio, sobre as pérolas da espuma,
Dança torvelinhando a chuva de ouro.
Além, invadida do fogo, arde e palpita a bruma,
Numa cintilação de nácar e ametistas...
E o olhar do Infante vê, na água que vai e vem,
Desenrolar-se vivo o drama das Conquistas.

Todo o oceano referve, incendido em diamantes,
Desmanchado em rubis. Galeões descomunais,
Crespas selvas sem fim de mastros deslumbrantes,
Continentes de fogo, ilhas resplandecendo,
Costas de âmbar, parcéis [1] de aljofres [2] e corais,
- Surgem, redemoinhando e desaparecendo...

É o dia! - A bruma foge. Iluminam-se as grutas.
Dissipam-se as visões... O Infante, a meditar,
Como um fantasma, segue entre as rochas abruptas.
E impassível, opondo ao mar o vulto enorme,
Fim de um mundo sondando o deserto do mar,
- Berço de um mundo novo - o promontório dorme.

[1] Parcel - Banco de areia encoberto a pequena altura pela água do rio ou do mar.
[2] Aljofre - Pérola

Em As Viagens



O humanismo de Bilac é expresso com brilhantismo no poema que se segue. O Homem no centro do universo porque pensa e porque sente, apesar de perante o incomensurável cosmos, ser minúsculo, fisicamente quase nada. Carl Sagan se o lesse, haveria de gostar.

Microcosmo

Pensando e amando, em turbilhões fecundos
És tudo: oceanos, rios e florestas;
Vidas brotando em solidões funestas;
Primaveras de invernos moribundos;

A Terra; e terras de ouro em céus profundos,
Cheias de raças e cidades, estas
Em luto, aquelas em raiar de festas;
Outras almas vibrando em outros mundos;

E outras formas de línguas e de povos;
E as nebulosas, géneses imensas,
Fervendo em sementeiras de astros novos;

E todo o cosmos em perpétuas flamas...
- Homem! és o universo, porque pensas,
E, pequenino e fraco, és Deus, porque amas!

Em Tarde



Os sonetos XII e XIII de Via-Láctea são extraordinários. Olavo Bilac diz que “só quem ama” pode dialogar com as estrelas. É só meia verdade, porque Bilac diz que “tudo” lhe falou, e assim ouve também os pássaros e o luar. Ora nós sabemos que isso só é possível acontecer nas histórias infantis e na poesia.

XII

Sonhei que me esperavas.
E, sonhando, saí, ansioso por te ver: corria...
E tudo, ao ver-me tão depressa andando,
Soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando
Meus passos, através da ramaria,
Dos despertados pássaros o bando:
"Vai mais depressa! Parabéns!" dizia.

Disse o luar: "Espera! que eu te sigo:
Quero também beijar as faces dela!"
E disse o aroma: "Vai, que eu vou contigo!"

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
 "Como és feliz! como és feliz, amigo,
Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!"

XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Em Via-Láctea 


Marabá, 1882, de Rodolfo Amoedo (1857-1941).