sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Dia 2 de Fevereiro, Groundhog Day - Dia da Marmota e ainda Chekov

Quando era miúdo nos anos 60, não festejávamos feriados hoje na moda, importados dos EUA. Isto foi um país muito complicado até ao 25 de Abril. Um pequeno exemplo anedótico: a Coca-Cola era proibida. Mas tudo é feito de mudança. Primeiro apareceu o Dia de São Valentim, depois veio o Dia das Bruxas e agora até há o Black Friday. Como entendo que todos os dias são Dia dos Namorados, e acreditem ou não é mesmo assim, não me importava de comemorar só o 2 de Fevereiro, o Dia da Marmota, porque é o dia do meu filme favorito. Perdoem-me os que nestas datas fazem negócio, os namoradeiros e as crianças que adoram o Halloween.

Sobre o filme “Groundhog Day” (Dia da Marmota) de 1993,  ou o “O Feitiço do Tempo” na versão portuguesa, realizado por Harold Ramis com Bill Murray no papel principal.

O tema do filme é sobre alguém, particularmente vaidoso e egoísta, que por um castigo sobrenatural acorda todos os dias de manhã, sempre no mesmo sítio, no mesmo dia do mesmo ano, a 2 de Fevereiro na pequena cidade de Punxsutawney , no estado norte americano da Pensilvânia.

Cartaz de boas vindas a Punxsutawney, nome
dado pelos Índios Delaware. Significa
 "Cidade dos Mosquitos".
Punxsutawney,  é a localidade dos Estados Unidos onde se festeja o mais famoso Dia da Marmota, uma tradição secular trazida pelos colonos europeus, com base nas festas cristãs das candeias e nas tradições ancestrais dos índios. A cada 2 de Fevereiro, uma marmota – uma espécie de esquilo gigante que hiberna, é retirada do seu abrigo, e consoante a sua reação, uma comissão formal, empossada para avaliar o seu comportamento, anuncia ritualmente a previsão para o Inverno. A previsão poderá ser ou não o prolongamento do Inverno [ver NOTA FINAL]

A marmota de Punxsutawney é a meteorologista mais famosa da América.

Bill Murray encarna a personagem de um apresentador de uma estação de televisão, Phil Connor, que detesta a celebração: detesta as pessoas daquele local e detesta as provincianas festividades do Dia da Marmota que considera absurdas. Destacado para ir a Punxsutawney relatar o anúncio da marmota, vê-se preso naquele dia, onde só para si, todos os dias quando acorda, são sempre o 2 de Fevereiro, Dia da Marmota. Phil fica prisioneiro no tempo e no espaço. Um forte nevão cortou as estradas que estão bloqueadas pela polícia e as comunicações igualmente afetadas estão reduzidas ao mínimo.

Apenas Phil Connor tem consciência da repetição. Todos os outros habitantes da pequena comunidade fazem exatamente as mesmas coisas que fizeram no “dia anterior”. Para se libertar daquele feitiço do tempo, Phil Connor tudo tenta, inclusive o suicídio, mas acaba sempre por acordar na sua cama, no pequeno hotel onde está alojado, sempre às seis da manhã, ao som de “I Got You Babe” de Sonny and Cher.

Nunca chegamos a compreender quem é responsável pela terrível maldição. Algum poder divino terá essa capacidade. O que é interessante no filme não é a origem da maldição mas o caminho interior que Phil tem de percorrer: tem de alterar o seu comportamento e, mais importante e mais difícil ainda, tem de modificar os seus sentimentos e a forma como encara os outros.

Superficialmente, um filme que parece uma comédia ligeira sem pretensões, com relativo desinteresse da crítica e do público na sua estreia, com o passar dos anos transformou-se literalmente se num filme de culto. É hoje estudado em universidades e inúmeras vezes citado.

Na fase final do filme, na sua reportagem televisiva ouvimos um Phil Connor completamente transformado dizer que:

“Quando Chekhov viu o longo inverno, viu um inverno triste e escuro, sem esperança. Mas nós sabemos que o inverno é só mais um passo no ciclo da vida, e ao estar aqui entre as pessoas de Punxsutawney, beneficiando do calor das suas lareiras e dos seus corações, não imagino melhor destino que um longo e brilhante inverno”. 

A mensagem do filme é de uma moral simples: a nossa atitude quando somos mais empáticos com os outros e menos egocêntricos, acaba por nos beneficiar. Ficamos mais positivos, melhoramos a nossa capacidade de realização, a nossa criatividade e a nossa relação social e com isso aumentamos a nossa auto estima. Mas o mais interessante do filme é como a lição é dolorosamente aprendida com o passar do tempo, gradualmente: 
É uma analogia brilhante sobre a aprendizagem dos anos e o percurso que fazemos durante a vida.

Anton Chekov, grande escritor russo, celebrizado pelos seus contos e peças de teatro, 1860-1904.

Curiosamente, a referência a Chekov, embora o inverno russo seja terrível, talvez possa não ser a mais adequada. Numa carta ao irmão [ver em inglês o texto completo da carta, aqui] que era um boémio mal comportado, Chekov assinalava as atitudes que as pessoas civilizadas deveriam ter:

Retrato de Anton Chekov, 1898,
por Osip Braz, 1873-1936.
“1. Respeitam o individual e são por isso sempre indulgentes, gentis, educados e conciliadores. Não reagem com raiva às críticas ou aos pequenos contratempos. (...); 2. A sua compaixão não se limita aos mendigos e aos gatos abandonados (...); 3. Respeitam a propriedade alheia e pagam as suas dívidas (...); 4. São sinceros e temem a mentira como a praga (...); 5. Não se menorizam com o objetivo de despertar simpatias (...); 6. Não se preocupam com coisas vãs, como quem exibe falsas joias e se vangloria de amizades com pessoas célebres (...), e 7. Se têm talento, respeitam-no. Sacrificam conforto, mulheres, vinho e vaidade a ele (...). 8. Cultivam a sua sensibilidade estética. Não dormem de noite com a roupa do dia (...).” 

E acrescentava que: “(…) não é suficiente ler os Documentos de Pickwick [romance de Dickens] e memorizar um monólogo de Fausto (...). É necessário melhorar constantemente, dia e noite. Nunca se deve deixar de ler, estudar aprofundadamente e ter força de vontade. Cada hora é preciosa (...).”

Através desta carta, ficamos com mais uma pista para melhor compreender o filme. A  “maldição” de Phil Connor foi na realidade uma benção: deu-lhe literalmente todo o tempo do mundo para mudar para melhor. Cada um de nós não tem essa possibilidade: o nosso tempo real é escasso e Chekov bem o sabia.

NOTA FINAL: como é hábito não perderei o anúncio da marmota; será às 7:25 hora local, 11:25 hora de Portugal; stream em direto aqui; ouvirei também o clássico das festas, a Pennsylvania Polka de Frank Yankovic. Será um dia divertido. Podia dar-me para pior.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Ceticismo, uma posição pessoal II: (C) As “Medicinas Alternativas” e (D) Abiogenesis, evolucionismo e criacionismo


Árvore da Vida
Na continuação do texto anterior selecionei dois assuntos frequentemente discutidos pelo movimento cético que são as “medicinas alternativas” e a crítica ao criacionismo.

(C) As “Medicinas Alternativas”

Embora se perceba pelas aspas que não considero as “medicinas alternativas” como verdadeiras alternativas à medicina convencional, gostaria de esclarecer que não sou completamente acrítico às limitações da medicina convencional. Tem sobretudo muitas coisas boas mas também há coisas menos boas. 

Medicina Convencional

1– Aspetos positivos

As terapêuticas modernas exigem demonstração científica. No caso por exemplo das terapêuticas medicamentosas essa demonstração é apresentada em revistas científicas especializadas com estudos e ensaios pré-clínicos e clínicos e ainda perante as autoridades de saúde competentes que decidem da autorização de uso do medicamento. Esta medicina está dependente da demonstração de “evidência” de resultados eficazes para a prevenção e para o tratamento das doenças e sintomas e também da demonstração de “evidência” de resultados sobre segurança [01].
                 
      2– Insuficiências, erros e aspetos negativos

A medicina pela “evidência” como todas as obras humanas está sujeita a erros, vive com recursos que são limitados e a ciência médica, apesar dos avanços dos últimos 100 anos, ainda não sabe tudo o que se passa no organismo humano. Continuando com o exemplo dos medicamentos: 
(A) Os ensaios não conseguem prever todos os efeitos tóxicos de longo prazo nem efeitos secundários graves de pequena incidência – por exemplo, a morte de 1 doente por 1.000.000 doentes tratados é dificilmente detetável; 
(B) Podem existir interesses – públicos ou privados – que “favoreçam” ou “desacreditem” os resultados dos ensaios consoante o pretendido. Nem todos os medicamentos usados nos EUA são aceites para utilização na União Europeia e o contrário também é verdadeiro, e mesmo dentro dos países da UE encontramos diferenças significativas na avaliação e na aprovação; 
(C) A “evidência” não é favorável para 100% dos doentes. Há sempre uma percentagem de doentes, na maioria dos casos relevante, onde não se consegue demonstrar qualquer benefício ou que apresentam efeitos secundários que obrigam à desistência do tratamento. A área da psiquiatria, é um exemplo onde parece ser muito difícil a obtenção de resultados favoráveis da terapêutica medicamentosa, visto que para a maioria dos doentes não se consegue compreender a etiologia (estudos das causas ou da origem) dos principais “síndromas” (conjunto de sinais ou de sintomas que ocorrem juntos) da doença mental.

“Medicinas Alternativas” 

Aproveitam-se da ingenuidade dos doentes e das insuficiências da medicina convencional para prometerem segurança e tratamento de muitas doenças. As “medicinas alternativas” mais em voga são talvez a Homeopatia e a Acupuntura, mas muitas outras existem, como a Aromaterapia, a Naturopatia, a Quiroprática, o Herbalismo, etc.
Apenas relativamente às duas primeiras, que nos parecem mais importantes, vejamos:

1- Acupuntura

Segundo os crentes da Acupuntura, a energia vital do corpo (Qi) circula através de canais chamados meridianos, que têm ligações aos principais órgãos do corpo. As doenças são atribuíveis às perturbações do Qi. O tratamento é aplicado inserindo agulhas em locais específicos designados como pontos de acupuntura ou acupontos. Originariamente existiam 365 pontos, correspondentes ao número de dias do ano, mas o número aumentou até aos cerca de 2 mil pontos atuais.
Nada disto é confirmado pelos conhecimentos científicos dos nossos dias. A acupuntura é uma modalidade de tratamento sem provas científicas e os doentes que dizem sentir melhorias, foram provavelmente sugestionados por uma combinação de mecanismos psicológicos, semelhantes aos que estão na origem dos efeitos de um placebo [02].

2- Homeopatia

A Homeopatia surge com o médico alemão Samuel Hahnemann (1755-1843), que acreditava na possibilidade de se tratar uma doença, com pequenas quantidades de uma substância que produzisse sintomas similares ao dessa doença. Usava por isso substâncias enormemente diluídas, dizendo que quanto menor a dose, mais forte seria o efeito.
Estas híper diluições [03]  contradizem a ciência farmacológica, que relaciona a dose com o efeito.

Carl Sagan e Fred Hoyle: grandes
cientistas e divulgadores da Ciência.
Concordo plenamente com a posição do movimento cético contra as “medicinas alternativas”, e sinto falta de maior controlo e assertividade informativa da comunidade médica e das autoridades de saúde, perante essas “alternativas”. Ainda no passado dia 3 de Abril de 2017, o jornal gratuito “Destak” informava existirem 16 mil estudantes e recém-diplomados das terapêuticas alternativas “impedidos de trabalhar legalmente” em Portugal. Tenho pena desses estudantes, mas espanto-me como foi possível a existência de cursos com estes conteúdos. Os Ministérios da Educação e da Saúde não terão uma responsabilidade a este nível?

A influência das teorias "alternativas" sobre saúde na net, na tv e nos jornais é tal, que alguns encarregados de educação mais influenciáveis não vacinam os filhos e outros impõem-lhes regimes alimentares radicais, inadequados ao desenvolvimento das crianças.  Existem grupos que “lutam” pela legalização da marijuana como droga recreativa, cegos aos riscos para a saúde já demonstrados pelo seu uso [04] e poucos são os que se manifestam contra. Parece-me que infelizmente certos assuntos saltaram da esfera científica para a esfera política. É a única explicação plausível que encontro para o silêncio face a estes disparates.


(D) Abiogenesis, evolucionismo e criacionismo

Abiogenesis e evolucionismo

Tradicionalmente a ciência oficial do século vinte defendeu que os primeiros organismos vivos, muito simples inicialmente, surgiram no nosso planeta – abiogenesis - e gradualmente, num processo que durou milhões de anos, se transformaram em seres cada vez mais complexos, culminando com o aparecimento dos seres humanos – evolucionismo.

Os principais protagonistas do movimento cético defenderam sempre o evolucionismo e num primeiro momento, até pelo menos 2010 a abiogenesis. No entanto a abiogenesis não está provada cientificamente. Apesar das muitas teorias e das muitas experiências realizadas em laboratórios, nunca, a partir de matéria inerte, por nenhum processo conhecido, se conseguiu criar vida. Não estou a afirmar que não seja possível um dia qualquer, um laboratório conseguir realizar essa proeza,  simplesmente não o fizeram, pelo que hoje ainda não existem as necessárias provas científicas.
O próprio evolucionismo contém lacunas por preencher na clássica “árvore da vida”. Por exemplo, não obstante o número de registos fósseis e estudos nesta área, a evolução dos insetos ainda está em grande parte por explicar, quando são eles que constituem a maior biomassa de todos os animais terrestres, cerca de 10 quadriliões de indivíduos ou o número 1 seguido de dezanove zeros - 10.000.000.000.000.000.000 [05].

Criacionismo

Também nunca existiram provas científicas que provassem o criacionismo: a criação dos seres humanos por terceiros, que todas as religiões defendem por atribuição a(os) Deus(es). Só que neste caso, não é verosímil que qualquer religião se apetreche dos estudos científicos necessários para produzir qualquer prova. A religião baseia-se na fé dos seus crentes, não propriamente em dados científicos.


Há pelo menos duas leituras que aconselho, pois ajudaram-me a pensar sobre a origem da vida e a sua evolução no tempo:

1)    O Universo Inteligente de Fred Hoyle [06] - o livro que disponho é da ed presença, 1984. O tema é a chamada “panspermia” - uma tese com origem na Grécia antiga, retomada no início do século vinte pelo sueco Svante Arrhenius [07] e desenvolvida por Hoyle: as “sementes” da vida na Terra vieram do espaço através de “poeira cósmica” e de meteoritos.
A insuficiência desta tese é não resolver a questão da origem da vida, limitando-se a transferir essa origem para um outro corpo celeste. No entanto, Hoyle tem razão quando afirma que a abiogenesis ao limitar a origem da vida ao nosso planeta, representa uma visão desnecessariamente limitada e de certa maneira, geocentrista.

É curioso verificar que, apesar de ter sido durante muito tempo ridicularizada, a panspermia tenha vindo a ser admitida, sobretudo nos últimos anos, como plausível por uma grande parte da ciência oficial, constando inclusive dos modernos livros de ensino da biologia.

(2)    Forbiden Archeology de Michael Cremo e Richard Thompson [08]. O tema do livro é que múltiplas descobertas arqueológicas de relevo têm sido escondidas/desprezadas pela arqueologia moderna por não se encaixarem na teoria dominante sobre a evolução humana. É um livro de 900 páginas, cheias de artefactos e provas que fazem recuar o aparecimento do homem moderno para umas dezenas de milhões de anos atrás. O livro é criticado pela maioria dos arqueólogos por ser pseudo científico, mas não é essa a impressão deixada a quem o lê.

Fiquei com sérias dúvidas sobre a atitude da arqueologia oficial depois de ter tido conhecimento do caso ocorrido com a arqueóloga Virginia Steen-MacIntyre a propósito de Hueyatlaco, no México [09]. Os fatos descritos deixam-nos pelo menos apreensivos, relativamente à oposição das instituições e revistas científicas colocadas perante dados novos que não se encaixam dentro do quadro das opiniões e teses maioritárias. Não querer saber de dados novos não é próprio de quem se intitula cientista.

Tanto no caso do livro “Forbidden Archeology” como no caso de Hueyatlaco não me interessam tanto as teorias que possam ter Michael Cremo e Richard Thompson ou Virginia Steen-MacIntyre, mas muito mais nas provas por eles apresentados.

Não sendo ateu mas agnóstico, não poderia em coerência ser adepto da abiogenesis ou do criacionismo, muito embora apesar das suas lacunas, julgar que o evolucionismo está razoavelmente provado para muitas espécies. Certezas tenho, que a abiogenesis e o criacionismo carecem de prova científica e que ainda não passam de hipóteses teóricas por demonstrar.


Comentário final:

Poderia ainda falar de vários outros temas que preocupam (e ocupam) o movimento cético. Perspetivas com as quais estou de acordo, como por exemplo sobre o preconceito racista ou a falsidade das “artes divinatórias”, e menos de acordo ou ainda com muitas dúvidas, como por exemplo sobre a antropogenia das chamadas “alterações climáticas”, onde ainda há muito por esclarecer, e sobre a inexistência dos OVNIS [10]. O meu ceticismo pessoal não é do tipo ortodoxo.

Em todos estes assuntos procuro manter-me fiel a algumas ideias gerais de Carl Sagan [11]. Ele afirmava que a “verdade  pode ser difícil de compreender, pode ser contraintuitiva e pode negar as nossas crenças mais profundas. Pode não estar de acordo com aquilo que gostaríamos que fosse. Mas as nossas preferências não determinam a verdade” (...) e que “o que conta, não é aquilo que gostaríamos de acreditar, nem aquilo que uma ou duas testemunhas afirmam, mas só o que é comprovado por provas concretas, examinadas rigorosa e ceticamente. Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”.

Embora pareça lógico, não é fácil pensar desta forma. Todos temos dificuldade em viver com dúvidas. É muitas vezes mais confortável inventar falsas verdades e viver com as ilusões.

Mas porque não somos apenas máquinas biológicas racionais, temos também sentimentos e somos instintivamente emotivos sobre aquilo em que acreditamos. Todos temos convicções e talvez precisemos de acreditar em algo que possa estar para além do nosso conhecimento atual e da nossa experiência direta. Cada um de nós tem legitimamente direito a ter a sua visão e Carl Sagan também a tinha:
Foto da órbita de Saturno da sonda Cassini da NASA.
O pequeno ponto com a seta é o nosso planeta.
“Acredito que o nosso futuro depende do quão bem conhecemos este cosmos, no qual flutuamos, como uma partícula de pó no céu matinal”.


NOTAS:

[01] Sobre a medicina pela evidência consultar por exemplo o sítio da Cochrane 

[02] Sobre o importante efeito placebo ver artigo da Vox

[03] Sobre a homeopatia ver aqui 

[04] Sobre efeitos nefastos da cannabis, ver por exemplo na revista WorldPsychiatry 

[05] Sobre o número de insetos ver aqui

[06] Ver sobre panspermia e Fred Hoyle

[07] Ver sobre Svante Arrhenius 

[08] Ver sobre Forbiden Archeology


[10] O assunto dos OVNIS continua a preocupar os militares dos EUA. Ver por exemplo as recentes notícias relacionadas do New York Times e do Yahoo

 [11] Sobre Carl Sagan, que dispensa grandes apresentações recomendaria ver por exemplo no site do Smithsoniam e pelo menos não perder a leitura do seu livro “Um mundo infestado de demónios”, tradução portuguesa da coleção Ciência Aberta da editora Gradiva.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Ceticismo, uma posição pessoal I: (A) Generalidades e (B) O problema da existência de Deus.


(A)– Generalidades

Autocolante da revista Skeptical Inquirer
O ceticismo [1] é uma corrente de pensamento que em teoria promove a dúvida relativamente a conceitos (ideias, teorias, crenças, etc.) não testados cientificamente, o que sempre me pareceu correto. O melhor mecanismo que dispomos para conhecer a realidade, é o método científico [2]. Procuro sempre usar mentalmente a dúvida e ser cético relativamente à informação que recebo, o que implica conhecer o melhor possível os factos e deles retirar as minhas conclusões, formulando uma opinião.

Isso implica duas coisas muito importantes:

1- Ter especial cuidado com a fonte da informação.

Os meios de comunicação profissionais são considerados em geral os mais credíveis, no entanto é frequente serem deficientes, insuficientes ou parciais quando relatam os acontecimentos. Então a nível político isto é para mim muito evidente. Os jornais, rádios ou estações de televisão têm quase sempre uma orientação editorial antigovernamental ou pró governamental, de “direita” ou de “esquerda”, e mais raramente de “centro”.

Não devemos afirmar que os profissionais do jornalismo são deliberadamente pouco objetivos, mas se um noticiário televisivo ou radiofónico opta por dar destaque como assunto de relevância nacional, a meia dúzia de manifestantes pouco representativos, contra uma política governamental, é um critério de seleção da informação discutível, da responsabilidade de quem seleciona e organiza esse noticiário. A seleção e os títulos das notícias, a sua sequenciação, duração e relevância mostram de que lado está o noticiário. Nós sabemos, ao fim de vários anos de ler, ouvir e ver notícias, como implicitamente se posicionam [3] as principais televisões, as principais rádios e os principais jornais dentro do espetro partidário: mais à esquerda, ao centro ou mais à direita. É nesse contexto, que o jornalista, honesto e trabalhador sem dúvida, é contratado, formado e tem a sua carreira - ao serviço da máquina informativa onde está integrado.

As instituições humanas, por muita descentralização ou independência individual que proclamem, regulam-se todas pela mesma fórmula básica: a lealdade é condição de funcionalidade da hierarquia/liderança. Por isso devemos, sempre que julguemos importante, consultar e analisar as fontes primárias ou de origem, das notícias dos media. No caso dos políticos, ler ou ouvir as declarações que proferiram e o contexto em que as produziram, consultar os textos originais dos relatórios e propostas (do governo ou da oposição) apresentados, e só depois elaborar uma opinião.
Claro que regra geral não temos tempo para fazer isso. Temos mais que fazer na nossa vida e limitamo-nos a receber a informação selecionada e “mastigada” dos media. Mas quando o assunto é deveras significativo, isso é capaz de me acontecer em média uma vez por mês, esforço-me para “perder” por exemplo uma hora, à volta de um assunto que me interessa. Isto aplica-se também às notícias internacionais. Os media muitas vezes só destacam as partes ou os aspectos que mais lhes interessam.

Se são assuntos de natureza científica, existem as revistas especializadas. Mas mesmo estas, exibem por vezes apriorismos que distorcem a realidade conforme conveniências e interesses instalados, particularmente no caso das chamadas “ciências sociais”, mas não só.

2- Ser crítico

A crítica implica estarmos suficientemente disponíveis para pensar se o contrário de uma afirmação não poderá ser igualmente defensável e com que argumentos e fundamentos, pesar os prós e os contras de cada posição, procurar um caminho intermédio ou um caminho alternativo com diferentes pressupostos. São processos que usamos mentalmente para ajuizar sobre o que nos rodeia.

Estar alerta e colocar em causa ações, atitudes e opiniões não significa contradizer tudo e todos verbalizando estas questões, exceto se tivermos alguma vocação de eremita. Depois o exercício também não deve ser levado ao extremo. Torna-se cansativo, e  não procuramos uma implosão cerebral paralisadora, além de que que as prioridades e os interesses do dia-a-dia sempre se devem sobrepor às manias intelectuais que possamos ter. Moderação e bom senso em tudo.

Ser crítico não obriga a ser intolerante, negativo, destrutivo e muito menos agressivo. A melhor crítica é quase sempre aquela que se afirma educadamente pela positiva e em certas circunstâncias, se não soubermos de uma alternativa, mais vale pensar melhor antes de dizer ou de fazer algum disparate. Ser crítico é ainda um exercício corajoso que devemos a nós próprios: será que estamos a tomar as melhores decisões? A pensar e a agir acertadamente? Estamos seguros dos nossos objetivos? Precisamos de mudar algo?
Isto nada tem que ver com a “auto crítica” [4] partidária ou com a “confissão” [5] religiosa, rituais desenhados para reconduzir ao dogma quem dele se afasta. Ser crítico é precisamente o contrário: é ser capaz de questionar tudo, inclusive as chamadas “verdades absolutas”.

Substituir um dogma com o qual não concordamos por outro, igualmente desprovido de prova não é ser crítico. Muitas vezes quando não dispomos de uma resposta afirmativa que possa responder ao assunto em causa, podemos também apresentar as nossas dúvidas como base do nosso pensamento. Expressar uma dúvida, como sabemos, é algo do mais honesto que podemos fazer com os outros e é do senso comum ouvir que “da discussão nasce a luz” e que “várias cabeças pensam melhor do que uma”. O que é infelizmente muito fácil de encontrar são falsas certezas, mascaradas de assertividade e nos piores casos, de arrogância.

(B)– O problema da existência de Deus

Leio e sigo atentamente duas revistas céticas, a Skeptical Inquirer [6] e a Skeptic [7]. Mas curiosamente não consigo concordar com todos os conceitos defendidos por estas revistas: em vários assuntos considero-as dogmáticas. Ora, o verdadeiro ceticismo só deveria defender conceitos cientificamente demonstrados. Um cético é aquele que discorda sobre os dogmas que lhe pretendem impingir, mesmo se estes lhe aparecerem com o carimbo aprovador de um “movimento cético”.
O pecado do movimento cético dos nossos dias é o de ter aderido a algumas falsas “verdades” como é o caso da discussão entre a existência vs a não existência de Deus.

Para uma pessoa religiosa em princípio o problema não existirá: acredita na existência de Deus, e com essa crença tem o problema resolvido. Não é o meu caso, visto que sobre a existência ou não de Deus não tenho provas científicas, tanto pode existir como não. Não dispondo de meios de prova sobre qualquer das hipóteses, vivo com essa dúvida. É incómodo, reconheço. Assim, não sou religioso nem ateu. Além do mais, não me limito a apontar os defeitos da religião, ou vê-la apenas pelos seus aspetos negativos.

Portugal foi muito prejudicado pelo fundamentalismo católico e mais tarde pela Contra Reforma, principalmente após o fim do reinado de D. João II [8], tendo sido esse fundamentalismo a primeira causa da expulsão dos portugueses judeus, da decadência do país no segundo e terceiro quartos do século dezasseis e da bárbara repressão e tortura de milhares de inocentes pelo menos até ao Marquês de Pombal [9]. Enquanto portugueses, não nos devemos esquecer de quem ao longo da história, várias vezes, nos quis mal e nos prejudicou – da mesma forma não nos devemos esquecer de quem nos ajudou nos momentos de aflição.

Tenho também consciência do papel cultural da religião, como fator agregador e unificador civilizacional, e reconheço por exemplo no meu país (e em mim próprio, sem ser religioso), a grande influência da religião de raiz judaico-cristã, herdada da romanização, a par do latim, e o importante papel que desempenhou na reconquista e nos primeiros tempos da nacionalidade. Tenho até curiosidade pelo folclore popular religioso, com os seus santos, as suas lendas, romarias e festas, celebro com prazer em família, as épocas natalícia e pascal e respeito sinceramente as convicções religiosas que cada um possa ter.

Respeito, não significa indiferença, nem que concorde com uma famosa frase de um livro de Robert Heinlein [10], também ele um agnóstico: “ Não existe prova conclusiva da vida depois da morte, mas não há qualquer tipo de evidência do seu contrário. Cedo saberás, porquê tanta preocupação com isso?” Entendo que é importante discutir o assunto e preocupo-me com ele (como se preocupava, e muito, Heinlein, apesar da citação). Por isso concordo com Richard Dawkins [11], ateu militante, quando defende que vale a pena discutir a fé e a religião.

Como surgiu este formidável universo que habitamos?
(Foto do Hubble)
No entanto, alguns, intitulando-se de céticos, confundem o ceticismo com o ateísmo. Só que o ateu não se pode afirmar pela positiva porque não dispõe de elementos de prova que confirmem a sua posição. Por isso, sempre discordei com a adesão ateísta de quem se designa a si próprio como cético. Um verdadeiro cético só pode ser agnóstico.

Uma das minhas maiores perplexidades é recente. O CSI (Committee for Skeptical Inquiry – Comité para a Investigação Cética) [12] que publica a revista Skeptical Inquirer tem como fundadores alguns dos meus antigos heróis científicos, como foram o caso de Carl Sagan [13] e de Isaac Asimov [14]. Ora, o CSI acaba de se fundir com a Fundação Richard Dawkins, de inspiração ateísta, cuja missão principal é fomentar a criação de uma “sociedade secular” [15].  Não me parece que esse objetivo seja compatível com o que deveria ser o pensamento cético do CSI, que deveria estar aberto à dúvida, à curiosidade e à pluralidade, embora contrário e denunciante de mentiras e de vigarices.

Há religiosos e religiões de diferentes tipos, monoteístas, politeístas, panteístas, etc., assim como há vários tipos de agnosticismo. Há agnósticos, que mesmo reconhecendo que não têm provas, acreditam que Deus provavelmente não existirá. Outros, perante os mesmos fatos, acham possível que possa existir. Há agnósticos que acreditam que a ciência um dia poderá provar se Deus ou Deuses existem ou não, enquanto outros duvidam dessa hipótese, etc. Não faço a mínima ideia, embora gostasse de ver um dia uma qualquer prova afirmativa ou negativa.

No fim de contas, há ainda muitas coisas que não conseguimos compreender, a principal das quais é o absurdo da existência de tudo, do universo, dos conceitos de finito/infinito, da matéria, do espaço/tempo, etc. Quanto mais sabemos, mais conscientes ficamos do quanto nos falta perceber. O próprio conceito de "Deus" é para mim incompreensível. Compreenderia melhor que uma espécie de seres mais avançada e evoluída que nós, fosse capaz de construir um universo  [16]. Com ou sem Deus(es) no meio da equação, tudo é possível, inclusive o que ainda não somos capazes de sonhar.

Observações:

[01] Ceticismo – um cético tem mais dificuldade em ter certezas e é mais propenso à dúvida, mas o ceticismo individual e o ceticismo enquanto movimento organizado podem não ter correspondência em termos de valores. Tal como uma revista científica, que é produto do trabalho de um grupo específico de pessoas, pode apresentar artigos e defender ideias com as quais nem todos os cientistas da mesma área concordem.

[02] Método científico – (1) Identificar o problema a resolver (2) apurar os dados relevantes (3) formular uma hipótese a partir dos dados (4) testar na prática a hipótese. O que se pretende com o método científico é limitar a subjetividade e o erro e aumentar a objetividade, usando a lógica, unidades de medida e processos reproduzíveis por terceiros.

[03] Posicionamento político dos meios de comunicação profissionais: tenho admiração pelos media que editorialmente declaram posições políticas pró partidárias durante os períodos eleitorais. Não é comum em Portugal, onde os media se tentam todos disfarçar de “equidistantes” e “objetivos”. É ridículo, quando é fácil compreender os lados da barricada que ocupam.

[04] Auto crítica: as sessões de “autocrítica” por exemplo dentro das células partidárias comunistas destinam-se a corrigir os erros dos “camaradas” que ou demonstram pouco “empenhamento e convicção revolucionária” ou não cumprem com “as linhas de orientação do partido” ou desobedecem aos “princípios e valores do marxismo-leninismo”. É principalmente um mecanismo disciplinador para o “controleiro"/chefe,  sempre num enquadramento mental e ideológico pró-comunista.

[05] Confissão: no catolicismo o “perdão” dado acaba por funcionar em muitos casos apenas, como um alívio do “fardo” dos pecados confessados - que podem incluir não apenas ações, mas também intenções e pensamentos (por ex: inveja, visto que Deus “sabe tudo”) - mas em teoria, com este ritual “sacramental” de arrependimento/penitência, pretende-se  evitar novos pecados e reforçar a “Fé”.

[06] e [7] Skeptical Inquirer e revista Skeptic: aconselho vivamente a quem estiver interessado no pensamento cético a pelo menos comprar alguns números  destas duas revistas em formato digital e em subscrever pelo menos uma das duas.

[08] Rei D. João II (1455-1495) – Foi com ele que se deu o impulso decisivo para a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Centralizador e autoritário. Um das figuras mais admiradas da História de Portugal.

[09] Marquês de Pombal (1699-1782) – Foi secretário de estado do reino (chefe do governo) durante o reinado de D. José. Embora oficialmente a Inquisição tenha continuado a existir após o reinado de D. José, o Marquês de Pombal - e Conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Melo – na prática esvaziou os seus poderes.

[10] Robert Heinlein (1907 – 1988) – Notável escritor de ficção científica.

[11] Richard Dawkins (n.1941) – Notável biólogo, escritor e ativista ateu.

[12] CSI (Committee for Skeptical Inquiry – Comité para a Investigação Cética)

[13] Carl Sagan (1934 – 1996) – Notável divulgador científico, astrofísico e escritor.

[14] Isaac Asimov (1920 – 1992) - Notável escritor de ficção científica e de divulgação científica.

[15] Sociedade secular – significa uma absoluta separação e neutralidade do governo e do estado face à religião - sendo desejável em teoria, é impossível enquanto existirem seres humanos religiosos que façam parte do governo e do estado, e existirem maiorias sociais religiosas.  Na prática, equivaleria a ser anti-religioso, o que nenhum político se atreveria a fazer. Por exemplo, agora na comemoração dos 100 anos de Fátima, em nome dessa separação, nenhum político (do governo, do parlamento,etc) iria à Cova de Santa Iria. Está-se mesmo a ver que aquilo será uma romaria para os políticos, embora todos possam defender em palavras o secularismo. 
Um cético não deve tomar posição contra a religião, a não ser quando as instituições religiosas fomentem conceitos e práticas que conflituem com os direitos e liberdades de uma sociedade democrática. Nesses casos as religiões devem ser criticadas, como qualquer outra instituição humana - política, social ou cultural. Um exemplo, é que poucas religiões aceitam a igualdade de género, mas é legítimo questionar também se essa igualdade existirá noutras instituições.

[16] Bertrand Russel (1872-1970) não acreditava que a existência do mundo pudesse ser explicada por Deus, porque "Se tudo tem uma causa, então Deus deve ter uma causa. Se puder existir algo sem causa, tanto pode ser o mundo como Deus". A meu ver pode não ser assim na hipótese da existência de seres de um universo diferente com outras regras físicas - terem criado o nosso próprio universo, porque nesse caso, já estaremos menos à vontade para poder generalizar um princípio de casualidade que possa funcionar da forma a que estamos habituados. Para quem souber inglês e quiser imaginar universos diferentes, aconselho que vejam este vídeo de Carl Sagan.

sábado, 29 de outubro de 2016

Janela aberta para o mundo (sobre a Janela do Capítulo do Convento de Cristo em Tomar)


Janela do Capítulo

Quando o Grão-Mestre templário Gualdim Pais [01], companheiro de armas de Afonso Henriques, construiu o Castelo de Tomar e o Convento de Cristo no século doze, fixando Tomar como quartel general da Ordem dos Templários em Portugal, não poderia imaginar que desta instituição, dois séculos mais tarde designada por Ordem de Cristo (Ordem dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo), iria nascer a grande realização épica que foram os descobrimentos.  Além do Infante D. Henrique, muitos dos grandes navegadores foram membros da Ordem de Cristo: Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães, etc.

É neste local mítico que encontramos a mais elaborada peça escultórica em pedra que existe em Portugal; construída ao longo do século dezasseis é símbolo maior das descobertas marítimas dos portugueses: a Janela do Capítulo do Convento de Cristo.

Quem com grande conhecimento e brilhantismo descreve a janela e a fachada ocidental da igreja do Convento de Cristo é Vieira Guimarães, de seu nome completo, José Vieira da Silva Guimarães (1864-1939). Ilustre nabantino, fez um pouco de tudo. Que saibamos, foi médico-cirurgião, professor de geografia e história no Liceu de Lisboa, sócio correspondente da Real Associação dos Arquitetos e Arqueólogos Portugueses, vice-secretário da secção de história e vogal da secção de excursões cientificas da Sociedade de Geografia de Lisboa, Comendador da Ordem de N. S. J. Cristo, deputado, historiador e escritor ensaísta, com múltiplas obras publicadas [02]. Deixou como herança à sua querida Tomar a Casa Vieira Guimarães. O edifício fica junto ao rio Nabão e a intenção de Vieira Guimarães era que após sua morte, pudesse servir como espaço cultural da cidade. Propriedade da câmara municipal de Tomar, até hoje a Casa Vieira Guimarães tem sido usada para esse fim. Aí se realizam exposições, conferências, etc. É sede da comissão das Festas dos Tabuleiros.

Excerto de “A Missão de Portugal e o Monumento de Tomar” de Vieira de Guimarães [03]

(...) A fachada do poente ostenta a mais alta, a mais simbólica expressão do génio artístico de uma raça. Se no egrégio mestre da ilustre Ordem de Cristo, o imortal D. Henrique, cristalizou a irresistível tendência do povo português para desvendar os segredos do Oceano, nesta fachada soberba está em rendilhadas pedras, em motivos nacionais e estranhos, essa mesma patriótica intenção, esse famoso pensamento, essa elevada missão que custou 80 anos e que foi realizada com maior esforço DO QUE PROMETIA A FORÇA HUMANA. No todo dela avulta uma página grandiosa, sublime, portuguesa como nenhuma outra, que se levanta no glorioso solo da nossa pátria.

É vê-la; pois vendo-se é que se faz ideia desta portentosa joia arquitetónica, que enche de orgulho os portugueses, que nela provam o intenso grau da sua sentimentalidade e estética. Não são pedras, são letras; não é uma estrofe, é um poema, é uma epopeia. Se desaparecessem Os Lusíadas, o que jamais sucederia, aqui está esta fachada a cantar altisonantemente as nossas empresas gloriosas, imortais, homéricas, que fizeram do povo português o mais ilustre das idades modernas.
Ladeiam-na dois altos botaréus [04], que são como que a moldura do grande quadro, e no género obras-primas, ricamente ornamentados com guarnições de corais. As do lado do sul emolduram estátuas, que as divisas dos escudos denunciam ser de D. Afonso Henriques, D. Dinis e D. Manuel; as do lado do norte figuras de anjos, que seguram as divisas do rei Venturoso.
Por baixo destes quadros de corais arrimam-se troncos de sobreiros com as raízes pendentes, amarrados às fachadas, uns por uma grossa corrente e outros por uma graciosa correia, que enfia numa formosíssima fivela, talvez símbolo do grau da Cavalaria da Jarreteira, que D. Manuel possuía.

Vieira Guimarães [1864-1939]
Na parte superior adelgaçam-se os botaréus; cinco festões de papaver somniferum [05] com seus frutos quebram as esquinas e fazem como que base a uns formosos pináculos coroados pela cruz de Cristo.
Ao centro, abre-se a celebérrima janela do baixo coro; e nela e à roda dela, que se vos patenteia? As letras rendilhadas com que os geniais artistas do grande João de Castilho [06] escreveram o poema das nossas navegações POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS. 
As notas vibrantes da marcha triunfal do progresso, em que a alva bandeira de Cristo flutuava ao sol radioso da nossa glória sobre mastros de mil navios; quadro soberbo em que respira a alma da nossa pátria, em que palpita a intensa vida do nosso século XV, e que canta com toda a força e verdade a sublime missão histórica de Portugal.

Nesta fachada gloriosa vemos os polipeiros de coral, as vieiras das praias descobertas, os ramos retorcidos dos nossos seculares sobreiros, as ondas dos mares por nós sulcados, as guizeiras dos nossos solípedes [07], as correntes das nossas naus, os cabos boiados das nossas redes, folhas e cápsulas das nossas dormideiras, cordas, uma ancora, argolas, algas, pranchas de cortiça dos nossos sobreirais, cães, ratos, a lendária mantichora [08], um marinheiro agarrando um carvalho pelas raízes, talvez para utilizar o gigante roble [09] na fabricação da sua nau, as velas arfantes e risadas dessas elegantes caravelas que nos levaram às risonhas plagas [10] indianas: tudo aqui se consubstancia, se avulta, se estiliza, representando uma ideia grandiosa, augusta, épica.

Esta fachada, encerra toda a historia dos nossos gloriosos séculos XV e XVI no que eles têm de grande, heroico, cavalheiresco, navegante e conquistador. É uma bela página em que se cristaliza todo o sentir da nacionalidade portuguesa, e padrão glorioso que podemos apresentar orgulhosos ao mundo inteiro, pois é «a obra mais eloquente, mais convicta, mais entusiasticamente patriótica, mais estremecidamente portuguesa que jamais realizou em nossa raça o talento de esculpir e de fazer cantar a pedra», como diz o grande escritor e português Ramalho Ortigão [11]. O monumento de Tomar é nesta igreja e principalmente nesta fachada, a mais sublime expressão, a mais nacional, a mais simbólica, a mais representativa, das nossas navegações, do gloriosíssimo triunfo, sobre os mares, da nossa querida pátria (...).

Esta janela pode apresentar um duplo sentido, conforme a perspetiva: para quem está dentro, para os cavaleiros da ordem, transmitir a ideia de missão, de expansão da fé cristã e de manter e alargar o império; para o observador externo, apercebemo-nos que a origem, o ponto central e nevrálgico das descobertas, encontra-se aqui, na Ordem de Cristo em Tomar. E foi sob as velas com a cruz desta ordem, que se percorreu o mundo e ficámo-nos a conhecer todos uns aos outros.

                
NOTAS:

[01] Gualdim Pais (1118-1195) – Foi o terceiro Grão-Mestre da Ordem do Templo (Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão) em Portugal e transferiu a sua sede de Soure para Tomar em 1160.

[02] Obras de Vieira Guimarães sobre Tomar e a Ordem de Cristo: A Missão de Portugal e o Monumento de Tomar; O poema de pedra de João Castilho em Tomar; Tomar Arqueológica e Artística do Monumento de Cristo e das Igrejas de Santa Maria dos Olivais, de Santa Iria e de S. João; A cruz da ordem de Cristo nos navios dos descobrimentos portugueses; O monumento de Cristo, em Tomar, e as missões religiosas; Tomar e o além-mar; Marrocos e três mestres da ordem de Cristo; O Século XII e a Fundação do Castelo de Tomar; A trilogia monumental de Alcobaça, Batalha, Tomar e o caminho de ferro; A Ordem de Cristo; O claustro de D. João III em Tomar.

[03] O subtítulo é “Conferência realizada no Convento de Cristo no dia da excursão científica da Sociedade de Geografia de Lisboa à cidade de Tomar”. Usei a versão original de 1905, edição da Tipografia da Empresa da História de Portugal, com as correções ortográficas necessários do português atual. Socorri-me ainda da adaptação do texto original, feita pelo próprio Vieira Guimarães, que integrou o livro para os três primeiros anos do Ensino Secundário “Leituras Portuguesas” da responsabilidade de J. Barbosa Bettencourt, edição da Aillaud e Bertrand, 1907, páginas 300-303, “133- Fachada ocidental da igreja do Convento de Cristo, em Tomar”.    

[04] Botaréu – contraforte de reforço para sustentação de arcos ou de paredes (como é este o caso).

[05] “papaver somniferum” – papoila-dormideira ou dormideira.

[06] João de Castilho (1470-1552) – Embora nascido na Cantábria, fez a sua carreira principalmente em Portugal. É por isso considerado um dos maiores arquitetos da nossa história, e um dos grandes da Europa do renascimento. Autor de uma vasta e notável obra construída, João de Castilho encontra-se ligado à edificação de cinco monumentos históricos classificados pela UNESCO como Património Mundial, com grande destaque para o Mosteiro dos Jerónimos e o Convento de Cristo, onde a sua ação foi determinante. Entre muitas outras obras de sua responsabilidade, teve também intervenção no Mosteiro de Alcobaça, no Mosteiro da Batalha e na construção da fortaleza de Mazagão, igualmente classificados como Património Mundial. Ver na Wikipedia.

[07] Solípedes – Diz-se do animal mamífero que possui os dedos unidos num único casco: os equídeos como o cavalo e o burro, são solípedes.

[08] Mantichora – criatura mitológica, semelhante à esfinge egípcia, com cabeça de homem, afiadas fileiras de dentes do tipo do tubarão e voz trovejante; tem corpo de leão  e cauda de escorpião ou de dragão, podendo possuir asas ou não.

[09] Roble – Carvalho

[10] Plagas – Região, território.      

[11] O Culto da Arte em Portugal de Ramalho Ortigão, edição António Maria Pereira, 1896.

sábado, 10 de setembro de 2016

O Padre António Vieira e a Gestão


Padre António Vieira [1608-1697]
Os textos do Padre António Vieira estão carregados de sensatez e de observações interessantes. Existe na internet um enorme número de pequenas citações extraídas dos seus textos. As citações são úteis, porque despertam curiosidade para a leitura da obra, mas são quase sempre insuficientes. A frase fora do contexto é mais pobre do que se for entendida tal como foi pensada e escrita, integrada na lógica do raciocínio completo. Por isso optei por selecionar, não citações ou frases curtas, mas textos um pouco mais extensos, retirados de alguns dos seus sermões, onde melhor se pudesse compreender o que o Padre António Vieira pretendia transmitir.

Procurei recortes que se relacionassem com assuntos de Gestão. Pareceu-me ser uma forma diferente da habitual de mostrar a sua atualidade.


SOBRE COMO DECIDIR

O primeiro texto é sobre a guerra, mas pode-se generalizar a todos os gestores que têm de decidir sobre assuntos complexos que envolvem os destinos de grandes grupos de pessoas, como são as empresas, as instituições do estado ou mesmo as nações. Conseguir ter segurança quanto às decisões a tomar é por vezes muito difícil.
O Sermão de Santa Cruz foi apresentado na Festa dos Soldados, em 1638, na Bahia, Brasil, perante a Armada Real e muita nobreza:

“(...) O maior perigo e perdição da guerra é cuidarem os doutores desta arte que sabem tudo. Os sábios em qualquer faculdade mais sabem ouvindo que discorrendo, e mais acompanhados dos que sós. “Meliores aestimantur qui soli non omnia praesumunt” — diz o grande político Cassiodoro [1]: que sempre “Foram estimados por melhores os que de si só não presumem tudo”. — Já se a presunção do saber se ajunta à soberania do poder, como em Nicodemos [2] que era mestre e príncipe, nestes dois resvaladeiros [3] está certo o precipício e a ruína. Para conseguir efeitos grandes, e para levar ao cabo empresas dificultosas, mais segura é uma ignorância bem aconselhada que uma ciência presumida [sublinhado nosso].

A primeira vitória para alcançar outras muitas é sujeitar o juízo próprio quem não é sujeito ao mando alheio. Perguntado Alexandre Magno com que indústria ou com que meios em tão breve tempo se fizera senhor do mundo, diz Estrobeu [4] que respondera estas palavras: “Consilii, eloquentia et art imperatoria”: “Com os conselhos, com a eloquência, e com a arte de governar exércitos”. No último lugar pôs a arte, e no primeiro o conselho, porque o conselho é a arte das artes, e a alma e inteligência do que ela ensina. A arte prescreve preceitos em comum, o conselho considera as circunstâncias particulares; a arte ensina o que se há de fazer, o conselho delibera quando, como e por quem (...) .”

Decisões complexas, implicam avaliar a realidade, saber quais as alternativas disponíveis para a ação e escolher a melhor. Dificilmente uma única pessoa consegue isoladamente, reunir as melhores destas competências. Por isso, é preferível fazer participar nas decisões os que as têm de pôr em prática. Fazer outros participar nas decisões é além disso criar união de propósitos e valores, comprometer com a ação e motivar a vontade.
A decisão individualista pode parecer mais simples, mais rápida e com menos dificuldades do que fazer participar pessoas com diferentes perspetivas, mas o risco de fracasso é maior.


SOBRE O PLURIEMPREGO DAS ELITES

Um outro texto do Padre António Vieira de 1655, proferido em plena Capela Real em Lisboa, o Sermão da Terceira Dominga [5] da Quaresma, remete-nos para um tema interessantíssimo:

“(...) Há sujeitos na nossa corte que têm lugar em três e quatro tribunais: que têm quatro, que têm seis, que têm oito, que têm dez ofícios [sublinhado nosso]. (...) Não era cristão Platão, e mandava na sua república que nenhum oficial pudesse aprender duas artes. E a razão que dava era porque nenhum homem pode fazer bem dois ofícios. Se a capacidade humana é tão limitada que para fazer este barrete são necessários oito homens de artes e ofícios diferentes, um que crie a lã, outro que a tosquie, outro que a carde, outro que a fie, outro que a teça, outro que a tinja, outro que a tose [6], e outro que a corte e a cosa; se nas cidades bem ordenadas, o oficial que molda o ouro não pode lavrar a prata, se o que lavra a prata não pode bater o ferro, se o que bate o ferro não pode fundir o cobre, se o que funde o cobre não pode moldar o chumbo nem tornear o estanho, no governo dos homens, que são metais com uso de razão, no governo dos homens, que é a arte das artes, como se hão de ajuntar em um só homem, ou se hão de confundir nele, tantos ofícios? (...)”.

A admiração do Padre António Vieira coincide com a nossa, principalmente por já existir no século XVII o fenómeno dos cargos dirigentes em circuito fechado. Esta prática tem sido associada ao sistema económico moderno [7], mas é bem mais antiga. Já no tempo de Vieira existia uma elite que preenchia os cargos mais importantes do poder, em sistema de pluriemprego.


SOBRE A MENSAGEM

Como o anterior sermão, o famoso Sermão da Sexagésima, é do mesmo ano de 1655 no mesmo local, a Capela Real. É um sermão magnífico, mesmo para pessoas não religiosas, como é o meu caso:

Sobre a falta de eficácia da pregação junto dos índios do Brasil, perguntava o Padre António Vieira “(...) Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? (...).” E recomendava que o “estilo há de ser muito fácil e muito natural e que o “sermão há de ter um só assunto e uma só matéria[sublinhados nossos].

“(...) Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem?(...)”.

O pior para quem comunica é empregar maneirismos, percorrer desvios ou usar apartes, que atrapalhem e anulem a concentração dos ouvintes sobre o assunto principal que se pretende transmitir. Evitar complexidades desnecessárias e ser direto, conciso, objetivo, claro e nunca demasiado prolongado, são conselhos que ouvimos sempre dos especialistas em comunicação. Um dos princípios mais conhecidos sobre eficácia da comunicação é o KISS (Keep It Simple and Stupid – Mantém Isso Simples e Estúpido).


SOBRE PALAVRAS E AÇÕES

Outro texto também do Sermão da Sexagésima, quando o Padre António Vieira explica que a questão fundamental da falta de eficácia da pregação não eram as palavras:

“(...) A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? – o conceito que de sua vida têm os ouvintes (...). Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem [sublinhado nosso] (...).”

A palavra, o discurso, é menos eficaz do que possamos por vezes pensar. Um dos campeões de vendas dos livros de gestão, o canadense Malcolm Gladwell [8], esclarece no seu livro “Blink”: “(...) toda a gente sabe que é melhor ter um especialista para mostrar-lhe – e não apenas dizer-lhe – como se joga o ténis ou o golfe, ou se toca um instrumento. Aprendemos pelo exemplo e pela experiência direta, porque existem limitações à capacidade da instrução verbal [sublinhado nosso] (...)”.
A aprendizagem académica ou profissional, em aula, apenas pela leitura ou com meios audiovisuais, é retida pelo ser humano em menos de 20% dos casos, enquanto que por exemplo a aprendizagem prática, é retida com sucesso em mais de 75% dos casos. Os pedagogos defendem que as crianças aprendem mais pelo exemplo, do que pela retórica dos educadores, pais e professores [9]


Usei apenas três sermões, todos com mais de 350 anos, mas o Padre António Vieira, tem muitos outros escritos: só sermões e cartas são às centenas. Este exercício poderia prolongar-se até onde desejássemos sobre os mais variados temas.  


NOTAS:
[1] Flávio Magno Aurélio Cassiodoro (490 — 581), político e escritor romano.
[2] Nicodemos - fariseu que viveu no tempo de Jesus. Era membro do Sinédrio e Mestre da Lei. Segundo o Evangelho de João, apoiava Jesus.
[3] Resvaladeiros – lugares inclinados e escorregadios onde se resvala com facilidade.
[4] “Estrobeu” não encontrei. Poderá ser Estrabão (64 a.C.- 24 d.C.), geógrafo grego que na sua “Geografia” tem inúmeras referências a Alexandre Magno.
[5] Dominga – domingo.
[6] Tosar – aparar a felpa do pano.
[7] Ver na Wikipedia “Elite theory” e como fenómeno relacionado “Interlocking directorate”. Poderá ter interesse, ver também na Wikipédia “Revolving door”. Aconselho a leitura destes assuntos na Wikipédia em inglês. Em português, ou não existem ou não estão suficientemente desenvolvidos.
[8] Malcolm Gladwell é escritor e jornalista. Todos os seus livros entraram na lista dos livros mais vendidos do New York Times.