terça-feira, 17 de abril de 2007

Bulhão Pato - II

A propósito de Bulhão Pato, Alberto Bramão conta este episódio, que calculo se tenha passado em 1891 ou 1892, no seu livro Últimas Recordações de 1945:

Bulhão Pato teve, na Caparica onde vivia, uma doença grave, pneumonia ou pleuresia. O seu velho amigo, dr. Frederico Hopfer, convidou-o a ir convalescer na sua casa de Sintra.
O poeta aceitou o convite. Era Verão e eu estava também em Sintra. Uma tarde encontrei-o. Deu-me o braço, com o ar de expansão meridional, que amplificava o significado dos seus gestos e das suas palavras:
- Anda daí, meu rapaz.
E logo em tom confidencial e dramático:
- Vou-te contar a minha odisseia...
E contou-me:
- Sabes que estou em casa do dr. Hopfer. É um grande médico e um grande amigo...Mas já não posso mais...Estou até aqui...
E indicava o gorgomilo.
- É um homem de método rígido e em casa dele tudo obedece a uma disciplina de ferro. O almoço às tantas; o jantar às tantas; deitar às tantas. E tudo em ponto, sem um minuto de tolerância. Imagina isto para um homem como eu...
Cofiou a pera, deu ao rosto uma expressão concentrada e continuou:
- Sabes que gostei sempre do meu copito de vinho. Nunca gostei de abusar das bebidas, a não ser nos meus tempos de rapaz, que às vezes lá me deixava escorregar um pouco...O teu pai que o diga...Mas um copito faz-me muita falta...
E tornando a afagar a pera e levando-me para baixo duma árvore, em ar de segredo muito grave:
Queres saber o que ontem me aconteceu?...
Volteou a vista em torno, a certificar-se de que ninguém nos podia ouvir, e continuou em voz baixa:
- Em casa do Hopfer não entram bebidas alcoólicas. Ele detesta-as, chama-lhes venenos e só bebe água. Ontem, depois do jantar, não resisti; fui ali a uma loja e bebi um copito de genebra. O Hopfer parece que o percebeu pelo meu hálito. Encarou-me com ar grave, levantou-me as pálpebras dum olho e disse-me secamente: “Pato, se não tiveres muito juízo, morres”. Imagina tu a minha situação...Ele é um grande médico, com diagnósticos quase infalíveis...Mas eu é que já não posso mais...Estou até aqui!
E novamente indicava o gorgomilo.
Um ou dois dias depois, Bulhão Pato regressou a Caparica, por ser impossível, ao seu temperamento indisciplinado de meridional e de romantico, sujeitar-se ao método inflexível de vida a que pretendia submete-lo o seu bom amigo dr. Hopfer.
E a verdade é que ainda viveu mais de vinte anos, sem precisar de se abster da linfa, que Anacreonte julgou digna das suas odes [...]
A última vez que o encontrei [...] tinha oitenta e três anos [...] Quando vinha a Lisboa, nos princípios dos meses, jantava invariavelmente no restaurante Estrela de Ouro, da Rua da Prata, onde havia sempre indicado na lista um prato que teve fama: Ameijoas à Bulhão Pato [...] Por achar curioso o menu dum jantar de homem de letras aos oitenta e tres anos, como atestado dum estomago tão forte como a sua alma, direi que constou do seguinte: um grande prato de sopa de camarão, um prato de arroz com ameijoas e outro de peixe guisado; queijo, fruta e uma garrafa inteirinha de vinho de Torres.
O dr. Hopfer, se ali estivesse, reconheceria que o seu prognóstico de vinte anos antes tinha falhado, e esse reconhecimento, se por um lado o considerasse lesivo da sua infalibilidade científica, por outro daria um grande prazer ao seu coração de verdadeiro amigo.

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