quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Chamada à Realidade









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Ás vezes encontro perdidos entre os velhos livros, pequenos fragmentos do passado. Foi recentemente o caso de um Boletim de Informações da Secção de Imprensa da Embaixada Britânica, que ficava no número 26 da Rua de São Domingos à Lapa em Lisboa, datado de 24/10/42:

Diz o texto:

Chamada à Realidade

Depois de Hitler, Goebbels proclamou com tanta satisfação como orgulho, no seu discurso de 18 de Outubro, que a Alemanha atingiu “todos os seus objectivos a Este”.

“Primeiro” – disse o grão-mestre da propaganda do Reich – “tratou-se de abater o perigo bolchevista que ameaçava o Reich. Isto foi realizado. Depois, tratou-se de garantir a segurança da nossa vida nacional. Esse fim foi igualmente atingido.”

Ora, o povo alemão, apesar de ser fraco de memória, deve certamente perguntar aos seus botões: “Foi para isto que atacámos a Rússia?” Se tiver a curiosidade de procurar a resposta no primeiro discurso proferido pelo seu Führer a esse respeito, verá que a finalidade do ataque era muito diversa: tratava-se de libertar a Alemanha da “ameaça russa”, a fim de ter as mãos livres para a luta contra a Inglaterra.

A “ameaça russa” pesa agora mais do que nunca sobre a Alemanha, visto que o mesmo Dr. Goebbels confessou no mesmo discurso que se o Reich deixa sem resposta os terríveis golpes da RAF é por se ver obrigado a concentrar todas as suas forças contra o “principal objectivo”, que continua a ser – após dois anos de lutas vãs e mortíferas! – a Rússia.

Prazer Sádico

Uma vez mais Goebbels proclamou no seu último discurso de Munich que a Alemanha nazi não se bate de modo algum por um “ideal”, seja ele qual for, mas por fins essencialmente materialistas. “Queremos”, disse ele, “que o nosso nível de vida seja elevado”. E, como se não tivesse exprimido com bastante clareza o seu pensamento, acrescentou: “Desta vez trata-se de coisas mais importantes”. Mais importantes do que os ideais, claro está! Trata-se nomeadamente, ainda segundo Goebbels, de: “hulha, ferro, petróleo e, em primeiro lugar, trigo”.

Dir-se-ia que o ministro da propaganda do Reich encontra um prazer sádico em ridicularizar os pobres cretinos que, no estrangeiro, tomaram a sério o seu estribilho de “luta pela civilização europeia”.

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Depois de ter assim desmentido a sua própria propaganda e o Führer, Goebbels esclarece que aquilo que poderia ser uma mudança de estratégia não é afinal mais do que um compasso de espera, necessário. E concretizando com elegância: “Estamos actualmente ocupados em digerir o que já deglutimos”.
Mas, a desgraça para a Alemanha é que ela possui, precisamente, má digestão...

(...)

Devido ao estado do documento pouco mais se consegue perceber, excepto uma passagem que faz referência a um dos discursos de von Ribbentrop, Ministro dos Negócios Estrangeiros do Reich de 27 de Setembro de 1942.
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Nos dias de hoje, 65 anos depois, Munique, a católica cidade dos monges, é uma metrópole fantástica que todos os anos realiza uma das festas mais espectaculares que existem no mundo: a festa da cerveja, Oktoberfest ou, como dizem os alemães, “Wiesn”, em que a maioria dos muitos milhares de turistas são americanos.
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Ao olhar para trás vemos que tudo muda e ao que parece, quase sempre tem sido para melhor.
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