segunda-feira, 3 de setembro de 2007

As férias a ler

Não saí de Lisboa. Tenho praias e campo aqui ao pé, para quê ralar-me? Fui só a Aveiro, onde comprei uns sapatos na Guimarães, aproveitando em caminho o Leitão da Bairrada e a Évora, onde almocei no Moínho. Vi filmes idiotas próprios da época (sim, confesso que não sou perfeito e fui ver o Ratatouille - adoro a Pixar - no original em língua inglesa com legendas, no Monumental), e aproveitei para ler várias coisas. Revi Eça de Queiroz (ver abaixo a nota final) em As Cidades e as Serras, A Relíquia e em edição dos Livros do Brasil, as Cartas de Paris. Há cem anos a vida era mais lenta e muito diferente da de hoje. Para mais, continuei a ler as Útimas Recordações de Alberto Bramão e, cúmulo de sorte, encontrei o Faúlhas dum lume vivo num alfarrabista, encadernado em muito bom estado, por apenas um euro e meio. Já tinha também o Recordações. Pouca gente conhece Alberto Bramão, mas eu acho que ele é, além de um bom poeta, um dos melhores “memorialistas” portugueses de sempre. Já inclui neste blogue um texto dele sobre Bulhão Pato e de vez em quando farei com que apareçam outras coisas.

Consolei a minha costela de ateu com 2 livros: The God Delusion de Richard Dawkins e The End of Faith de Sam Harris. Este último livro já o vi nas nossas livrarias em português. Reconheço que ainda só li cerca de 20% de cada um deles – gosto de ler assim, às dentadinhas, conforme me vai apetecendo e qualquer dia a mesa de cabeceira parte-se de tanto peso. É curioso, que sendo os dois autores, ateus, dão tanta importância às religiões que decidiram escrever estes livros - já conhecia o Richard Dawkins das Conferências TED (http://www.ted.com/) da net. Ambos pensam que se combatem os fundamentalismos religiosos, combatendo toda e qualquer religião. Talvez porque sou agnóstico, acho exagerado. Lembro aqui a frase do herético amigo de Alberto Bramão, o republicano Feio Terenas: “ Sou ateu e continuarei assim toda a vida, se Deus quiser.” [em Faúlhas de um lume vivo]. Um livro mesmo difícil que li, foi Mao - a história desconhecida de Jung Chang, a mesma autora de Cisnes Selvagens. É um relato terrível da governação chinesa de Mao, um balanço de 70 milhões de mortos em tempo de paz. Muito pior que o Gulag soviético. Quase 900 páginas de informação nua e crua. Um livro penoso de ler, que nos põe mal dispostos, mas que nos faz compreender a ditadura que mais gente matou, a mais sanguinária, do século passado. É um livro feito para que se saiba que aquele horror existiu. Li tudo de fio a pavio.

Fui só a um museu, ao CCB e fiquei fascinado com a Colecção Berardo. É magnífica, com grandes obras e grandes artistas. Obrigatório visitar. No entanto senti-me perdido mais de uma vez e com falta de informação. Alguma coisa ali está a falhar e não é por falta de pessoal, que é muito. É a minha opinião.

Reli parte de The Laundrymen de Jeffrey Robinson, um ensaio, clássico, sobre lavagem de dinheiro e comprei a nova edição de Portugal por Miguel Torga. Já tinha o livro editado pelo autor, mas agora as suas obras passaram para a Dom Quixote. É a vida. Li mais uns textos do meu herói, António José Saraiva, das Crónicas organizadas por Maria José Saraiva. Descobri uma pequena grande revista sobre ideias para negócios: chama-se Business 2.0, é americana e aprende-se imenso. A propósito ainda de revistas económicas, aconselho a Forbes de Setembro, com vários artigos sobre as empresas que hoje desenvolvem a energia solar e quanto a jornais, parabéns ao Diário Económico pelas entrevistas deste Agosto e ao Diário de Notícias pelos livros de bolso.

A propósito de livros de bolso, seria muito importante conseguir vulgarizar a leitura através de edições de livros de bolso ou “paperback”. Uma coisa que espanta o português que visita Londres, é ver nos comboios e no metro, nas paragens de autocarros, toda a gente, novos e velhos, a ler pequenos livros de bolso. Em Paris, o culto do livro é igual ou maior. Em Portugal, as grandes editoras privadas como a Bertrand não são obrigadas a apoiar o livro de bolso e são livres de terem a sua estratégia, mas será que o nosso Ministério da Cultura não poderia ter um programa para uma maior divulgação da literatura clássica portuguesa através de livros de bolso? Através do PNL-Plano Nacional de Leitura não caberia um projecto desse tipo? Se já existe ainda não dei por ele, mas não quero ser injusto e oxalá tenha bons resultados, até porque sobre a leitura, as escolas e os pais também têm grandes responsabilidades. Claro que falar de livros de bolso é quase só pensar na Europa-América, a grande percursora do género no nosso país, mas quero lembrar a colecção Ulisseia – Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses da Verbo, que está apoiada pelo Instituto Camões e pelo Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro e talvez a colecção mais parecida com a colecção Penguin Popular Classics. Sobre os livros de bolso vale a pena ler o artigo no Ípsilon do Público de 31 de Agosto - e parabéns às novas colecções de bolso: a Booket da Dom Quixote, que já tinha a Biblioteca de Bolso Clássicos e a Biblioteca Independente – BI, uma "vaquinha" entre a Assírio e Alvim, a Relógio D’Água e a Cotovia.
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Durante este Agosto essencialmente li, li e li, suspendi o blogue, descansei e o tempo foi-se. A silly season acabou e para o próximo Natal já decidi: vou só oferecer livros (e discos) de autores portugueses.
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NOTA FINAL: foi lançado nos EUA, com enorme destaque no Book Review do New York Times deste fim de semana, uma nova tradução de Os Maias do Eça. O livro é apresentado como uma obra prima pouco conhecida do público anglo-saxónico, tem mais de 600 páginas e custa cerca de 18 dólares. A tradução, muito elogiada, é de Margaret Jull Costa e pasme-se, o NYT transcreve na íntegra o primeiro capítulo do livro. O artigo chama-se Lisbon Story e é assinado por Alan Riding, antigo correspondente cultural do NYT na Europa. É possível encontrar uma versão deste artigo no Herald Tribune do passado sábado. Perguntava ontem espantado um bloguista americano "What's all the fuss about a Portuguese writer from the 19th century?". Grande Eça.

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