domingo, 9 de setembro de 2007

Textos sobre Portugal e Espanha

Textos escolhidos a propósito de uma exposição conjunta da Torre do Tombo e do Parlamento, aberta ao público até Dezembro que inclui original do Tratado de Tordesilhas.
Ver http://www.assembleiadarepublica.pt/destaques/expoTratados/index.html

Hernâni Cidade e as duas Espanhas

(...) Afirma com manifesto aziúme o escritor espanhol Artéche: “Constitui a Península Hispânica uma unidade geográfica, perfeita e claramente definida, por se achar limitada pelos Pirinéus, que a separam do resto da Europa, e pelo mar que a rodeia (...). Assim se compreende que a Espanha deva constituir uma unidade política e que sempre os seus povos se tenham considerado ligados por um vínculo comum, bem como os seus habitantes tenham adquirido um carácter especial, que os torna inconfundíveis com as outras nações de além-Pirinéus”.
A asserção do ilustre escritor peca, pelo menos, por excessivo simplismo. A propria corografia da Península a invalida.
Se aquele é, de facto, o aspecto que à primeira vista se colhe da forma geográfica da Península, oferece ela, a quem mais atentamente a observe, as suas duas faces que, já no século X, lhe notara o perspicaz geógrafo moiro Razis: “Dizem que as Espanhas são duas, porque se partem em duas partes, e isto por o movimento e corrimento das chuvas e dos rios, uns que correm para o mar Oceano e outros que vão para o Mediterrâneo (...).
Ao longo da história se projecta aliás, a toda a evidência, esta dualidade da Hispânia assinalada pelo escritor moiro. Desdobra-se nela a existência duma Hispânia mediterrânea e duma Hispânia atlântica. (...)
(Em Cultura Portuguesa, Vol I)

Crítica de Jaime Cortesão a Oliveira Martins

(...) Na História de Portugal [de Oliveira Martins], depois de afirmar que as populações da Espanha formam um corpo etnológico, dotado de caracteres gerais, põe o seguinte problema: “Há uma originalidade colectiva no povo português, em frente dos demais povos da Península?” Logo responde: “Cremos qua a há, circunscrita porém a traços secundários”. E adiante objectiva:
“Há no génio português, o que quer que é de vago e fugitivo, que contrasta com a terminante afirmativa do castelhano: há no heroísmo lusitano uma nobreza que difere da fúria dos nossos vizinhos; há nas nossas letras e no nosso pensamento uma nota profunda ou sentimental; irónica ou meiga, que em vão se buscaria na história da civilização castelhana, violenta, sem profundidade, apaixonada mas sem entranhas, capaz de invectivas mas alheia a toda a ironia, amante sem meiguice, magnânima sem caridade, mais que humana muitas vezes, outras abaixo da craveira do homem, a entestar com as feras. Trágica e ardente sempre a história espanhola difere da portuguesa que é mais propriamente épica: e as diferenças na história traduzem as dessimilhanças do carácter”.
Entre esta definição dos traços do “génio português” e a sua classificação de secundários, em relação ao tipo hispano, a contradição é patente. (...)
(Em O Humanismo Universalista dos Portugueses)

A Civilização Ibérica de Almada Negreiros

(...) Civilização Ibérica, sim. Sempre.
União ibérica, não. Nunca.
Aljubarrota mais Toro igual a zero.
Península Ibérica igual a Espanha mais Portugal.
A Península Ibérica já foi cabeça do mundo com a forte Espanha e o heróico Portugal. A Península Ibérica fez a América Latina.
A Península Ibérica espalhou por toda a terra o sangue de Espanha e os padrões de Portugal.
Ficaram eternos no mundo Portugal e Espanha. Pela primeira vez na História, dois povos independentes realizam uma mesma e única civilização: Portugal e Espanha criaram a Civilização Ibérica. (...)
(Em Unidades de Portugal, Ensaios I, ed. Estampa)

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