terça-feira, 16 de outubro de 2007

Camões I - Pela Mudança



O episódio do Velho do Restelo dos Lusíadas, retrata a opinião dos pessimistas, dos que se opõem a que se corram riscos e se tenham custos com iniciativas incertas, e apelam aos nossos medos inatos do desconhecido. Há quem diga que este episódio seria o anti-Lusíadas-dentro-dos-Lusíadas, a verdadeira opinião de Camões, mas de facto, ele aparece no poema épico para reforçar o apoio à decisão de empreender a viagem de Vasco da Gama, apesar de todas dificuldades.
Luis Vaz de Camões era um renascentista, um fervoroso adepto das coisas novas e não um imobilista como o Velho do Restelo (tão claramente expresso por exemplo no seu soneto, popularizado por José Mário Branco, “Muda-se o Tempo, Mudam-se as Vontades” ).
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Diz Camões em ““Muda-se o Tempo, Mudam-se as Vontades”:

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas da lembrança,
e do bem (se algum houve) as saudades.

Camões observa que as novidades são coisas diferentes daquilo que estamos à espera e põe mesmo em dúvida, se houve alguma coisa boa no passado. Esta é a sua verdadeira opinião, enquanto que nos Lusíadas, coloca o velho a protestar, na praia do Restelo, durante a partida das caravelas de Vasco da Gama:

-"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
Cua aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldade neles experimentas!

(...)

"A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo d’algum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

(...)

"Oh! Maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas vela pôs em seco lenho!
Digno de eterna pena do Profundo,
Se é justa a justa lei que sigo e tenho!
Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora ou vivo engenho
Te dê por isso fama nem memória,

Mas contigo se acabe o nome e glória!

O Velho do Restelo prefere a segurança ao perigo, a proximidade do que conhece à distância do desconhecido e amaldiçoa quem inventou os barcos à vela. Para ele, a riqueza e a fama não compensam os riscos. O oposto ao pensamento do nosso poeta maior, um espírito aventureiro e destemido, que anseia pelas novidades do tempo futuro.
Pode fazer download da obra de Camões com facilidade. Ver por exemplo http://www.secrel.com.br/jpoesia/camoes.html . Está muito bem organizado.

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