sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Camões III – Indomável e Apaixonado












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Um incorrigível rebelde, seria o mínimo que se poderia dizer de Camões. Era o tipo de pessoa capaz de “partir a loiça toda”. Há pouca documentação sobre a sua vida e até o ano do seu nascimento é incerto (talvez 1524). Recentemente Hermano Saraiva surgiu com uma nova tese: Luís de Camões afinal não seria um fidalgo da corte mas apenas escudeiro do conde de Linhares, comendador da Ordem de Cristo, e viveu no paço da Comenda de S. Martinho, frente a Coimbra. Quando Linhares (seu amo), foi enviado para Paris como embaixador, Camões e a mulher do conde tiveram...um "caso" (Camões passou uma vida a arranjar sarilhos...). Diz Camões:
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"Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso dos meus anos;
Dei causa a que a fortuna castigasse
As minhas mais fundadas esperanças.
De amor não vi se não breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!"

Não se conseguiu aguentar em Lisboa a fazer uma vida normal. É apontado como sujeito corajoso mas zaragateiro: fica alcunhado como o Trinca-Fortes. Em consequência das suas aventuras é desterrado em 1548 para o Ribatejo, onde os amigos o conseguem sustentar por seis meses. Decide integrar-se na vida militar. Vai para Ceuta no Outono de 1549, onde perde o olho direito numa escaramuça contra os mouros. Em 1551, volta a Lisboa e logo no ano seguinte, no Largo do Rossio, dois mascarados lutam com Gaspar Borges, funcionário da Cavalariça Real. Camões aproxima-se, reconhece os mascarados: são amigos seus. Não hesita, mete a mão no bolso e com a sua faca dá um golpe no pescoço do adversário. É preso e levado para a cadeia...só graças aos insistentes pedidos e diligências da mãe é que consegue sair da prisão passados 9 meses, com duas condições: primeiro tem de pagar multa de 4 mil réis e depois, embarcar para a Índia e servir por três anos como militar no Oriente.
Ver http://www.vidaslusofonas.pt/luis_de_camoes.htm
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E é toda uma vida assim, entre as paixões, as rixas, as ajudas dos amigos e a poesia. A sua lírica contém da mais terna poesia de amor em língua portuguesa, como quando do naufrágio junto ao rio Mecom (vinha de Macau para Goa) no Camboja, onde conseguiu salvar o manuscrito dos Lusíadas (ver canto X, 128), mas perdeu a sua amada, a companheira chinesa Dinamene:
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Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
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Ou naqueles versos quase ridículos [mas quem sou eu para dizer isto do nosso poeta maior] sobre Leonor, em que o ritmo procura mimetizar o movimento gracioso e as cores são usadas para embelezar a figura:
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Descalça vai para a fonte
Leonor, pela verdura;
vai formosa e não segura.
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai formosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro o trançado,
fita de cor de encarnado…
tão linda que o mundo espanta!
chove nela graça tanta
que dá graça à formosura;
vai formosa, e não segura.
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Que cruelmente António Gedeão gozou com muita piada em:
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Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta,
etc.

Mas enquanto Rómulo de Carvalho - António Gedeão era um homem da ciência, um alquimista moderno, Camões foi um eterno apaixonado por todas as Leonores deste mundo.
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