quarta-feira, 14 de novembro de 2007

António Feijó I - Sol de Inverno

Quanto mais leio sobre António Feijó, mais admiro o homem e o poeta. Ainda pouco divulgado junto da opinião pública, António Feijó é natural de Ponte de Lima, desde há muito terra de poetas. Nasce em 1859 e morre em Estocolmo em 1917. Diz-se que morre de desgosto depois da morte de sua mulher de nacionalidade sueca. António Feijó estudou Direito e cedo decide ingressar na carreira diplomática, à semelhança de outras personalidades das nossas letras, como Wenceslau de Moraes e Eça de Queiroz [É preciso ganhar a vida!]. Exerceu cargos diplomáticos no Brasil e na Suécia, onde viria então a falecer relativamente novo.

Do seu livro mais famoso, Sol de Inverno, estes dois poemas:


MOIRO E CRISTÃ

O pobre moiro enamorou-se
D'Eli, moça cristã, sendo filho do Emir...
Tamanha dor sentiu, que o mísero exilou-se,
Como se alguém pudesse à propria dor fugir!

Longe, na terra alheia, abrasa-lhe a memória
A imagem da mulher que a vida lhe prendeu,
Vendo-a morta, a sorrir sob um nimbo de glória,
Mas no esplendor de um céu que nem mesmo era o seu...

Por sua vez, Eli nunca pôde esquecê-lo,
E nesse imenso amor, com presságios de agoiro,
Sentia-se morrer, como um lírio no gelo,
Sem o doce luar dos seus olhos de moiro...

Mas no instante supremo, ambos crentes, temendo
Que a Morte os separasse, em tão opostos céus,
Ele invocou Jesus, cheio de fé, morrendo;
E a cristã murmurou: «Alá! só tu és Deus!»


O AMOR E O TEMPO

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

– «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
– «Por que voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» – Nesse momento.

Volta-se o Amor e diz com azedume:
– «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!»

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