quinta-feira, 15 de novembro de 2007

António Feijó II – Jocoso e atrevido














Agostinho de Campos em “Falas sem fio” seleccionou os seguintes versos das Poesias Completas (ed. Bertrand) de António Feijó.


CONIMBRICA

“O amor dum estudante
Não dura mais de uma hora...”
Que o diga a pobre Violante,
Que toda a gente namora!

De olho aberto, nada esquivo,
E coração sem maldade,
Em cada ano lectivo
Namora uma Faculdade.

Pondo-se enfeites baratos
E xailes que dão nas vistas,
Começa pelos novatos
E acaba nos quintanistas.

Mas nos últimos cinco anos
Como saída não via
No amor aos cursos profanos
Atirou-se à Teologia.

E vendo-se abandonada
Dos seus sagrados desdoiros,
Embora contrariada,
Voltou-se para os caloiros.

Assim, ó pobre Violante,
Nem no altar te purificas,
Sempre de amante em amante
Vais acabar nos futricas*.


* Futricas eram os habitantes masculinos de Coimbra, mais modestos pois não pertenciam à elite estudantil, mas que com eles rivalizavam pelas moças (ver fotos de trajes de futricas e tricanas em http://www1.ci.uc.pt/cpessoal/grupfolk.htm ).

URBANA

É filha de um alfaiate
A melindrosa flor a quem eu hoje adoro!
- Faces vermelhas, cor de tomate
Cabelos de ouro!
Esta minha paixão principiou a arder
Por causa de um colete de ramagens...
Quem sabe onde o diabo as vai tecer,
Se mesmo num colete, além dos bolsos, há voragens?
Satisfeito e feliz quando ela mo provava,
Ousei-lhe declarar o meu amor por ela;
Foi tal a comoção, que o colete oscilava
E num suspiro arrebentava-lhe a fivela!
...Para que possa ir vê-la sem recato
Encomendo ao pai roupa: o amor é sempre caro
E eu vou talvez arruinar-me em fato!
Mas que prazer, ó meu amor, com que me exalças
Quando te vejo a debruar o meu capote!
Um teu sorriso vale bem dois pares de calças
E um casacão de cheviote.
Por isso não me importa o dinheiro perdido
Em picotilhos e em alpacas:
Como és tu quem pesponta o custoso tecido.
Só num inverno fiz quatro sobrecasacas!
A minha distinção todo o Chiado atordoa;
Já toda a gente o rei da moda me proclama,
E por chic arregaço as calças em Lisboa
Quando em Londres há lama!
E assim, ó minha loira entre as mais loiras,
Neste sonho mais belo que a demência,
Unidos como as hastes das tesoiras...
Vamos cortando a roupa da existência...

Nos versos de António Feijó, encontro muitas parecenças com o estilo do Eça.

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