sábado, 17 de novembro de 2007

António Feijó III - Sonho e Amor



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A CIDADE DO SONHO

Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva á Cidade do Sonho...
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.

Vai por entre rosais, sinuoso e macio,
Como o caminho chão d'uma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de estio,
Sob o intenso clamor dos ralos* a cantar.

Se o teu ânimo sofre amarguras na vida,
Deves empreender essa jornada louca;
O Sonho é para nós a Terra Promettida:
Em beijos o maná chove na nossa boca...

Vistos dessa eminência, o mundo e as suas sombras,
Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol**;
O mais estéril chão tapeta-se de alfombras***,
Não há nuvens no céu, nunca se põe o sol.

Nela mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jamais nos é dado sentir...
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
A propria Dor começa a cantar e a sorrir!

Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recordação indelével persiste;
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe...

* Insecto tipo grilo
** Cor de fogo das nuvens no nascer e no pôr do sol
*** Relvado


EU E TU...

Dois! Eu e Tu, num ser indissolúvel! Como
Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo,– em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia...

Como a onda e o vento, a lua e a noite, o orvalho e a selva,
– O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva
– Cheio de ti, meu ser d'eflúvios impregnou-te!

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
– Nós dois, d'amor enchendo a noite do degredo,

Como parte dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama...
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Esclarecimento: não sou um erudito, um académico ou estudioso destas coisas da literatura, e por isso não me sinto com conhecimentos suficientes para avaliar a obra de nenhum escritor, seja em prosa ou em poesia. A poesia em particular, consumo-a como a um vinho: gosto ou não gosto, ponto final. A poesia de António Feijó espantou-me pela positiva, e no entanto, é tão pouco divulgada. Consultei várias colectâneas de poesia portuguesa e é pouco frequente aparecerem poesias de António Feijó com honrosas excepções como é o caso da Antologia de Vasco Graça Moura, "366 poemas que falam de amor", ed. Quetzal [uma antologia deveras afrodisíaca e uma grande prenda para a nossa cara metade]. Acho que o facto de não ser um especialista na matéria, não me retira o direito a uma opinião. Vale o que vale.

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