sábado, 3 de novembro de 2007

Como os outros nos vêem


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.Sempre tivemos uma estranha fobia relativamente aquilo que de negativo se diz de nós “lá fora”. Reagimos sempre com o orgulho ferido e como se não tivessemos confiança nas nossas próprias capacidades, quando numa boa parte dos casos, as visões críticas sobre o nosso país no estrangeiro, assentam em preconceitos estúpidos e sem qualquer base real. A última crítica que me lembro de ter lido, foi num artigo do insuspeito Herald Tribune do New York Times, um dos grandes jornais do mundo [talvez o melhor jornal do mundo], intitulado “Portuguese resent EU as they take its helm”.
Coloca em causa a boa fé dos portugueses na adesão à União Europeia, quando Portugal não é mais nem menos europeísta que qualquer outra nação europeia. Mas, por exemplo, ainda anteontem o mesmo jornal publicava um grande elogio na sua secção de vinhos aos “Reds from the Douro”.
E também já perdi a conta aos elogios desse jornal ao Fado e em especial a Mariza. Por isso eu acho que não devemos levar estas coisas muito a sério, pois são pequenas pastilhas elásticas informativas que se esquecem com facilidade, e que quase sempre apenas reflectem uma opinião superficial, de quem as escreve, num dado momento.

Estas "análises" também dependem dos períodos da história. Em 1943 a Espanha era, após uma fraticida guerra civil, um indescritível país de miseráveis rurais, com cidades sujas, cheias de gente pobre. Os portugueses mais velhos ainda se lembram disso. Os outros Estados dessa Europa, estavam todos, menos a Suiça e a Suécia, em guerra feroz uns com os outros. Portugal e as suas colónias eram, exceptuando Timor, invadida pelo Japão - tem de se dizer apesar do detestável salazarismo, uns oásis de paz. Foi uma felicidade para Portugal não ter entrado nestes conflitos. Mérito de Oliveira Salazar também. Fui descobrir um texto publicado nesse ano de 1943 sobre “Como os outros nos vêem”, escrito com muito espírito por Agostinho de Campos, homem convidado por António Ferro e por Henrique Galvão a apresentar uma crónica semanal na então rádio estatal "Emissora Nacional". As crónicas foram depois revistas e editadas em livro pela Bertrand sob o título ”Falas sem fio”. Reproduzo parcialmente o texto [radiodifundido no original em Maio de 1938], que nos mostra também um pouco da época:

Boa ideia seria talvez instituirmos um prémio rechonchudo ao melhor livro de autor estrangeiro sobre Portugal, mas a um livro que fosse de nós retrato bastante parecido, sem que nele se falasse, nem no Fado, nem na Saudade, nem na grande falta de senhoras portuguesas nos “cafés”.
Com estes três elementos já batidos e safados – Saudade, Fado e “Cafés” sem senhoras – qualquer estrangeiro observador de costumes faz perfeitamente um livro de trezentas ou quatrocentas páginas sobre Portugal, sem se dar sequer ao trabalho de cá pôr os pés. Com isto e com uma estampa da Torre de Belém e outra dos pescadores da Nazaré com camisolas e calças bem quadriculadas, fica logo feito um livro completo sobre Portugal – e o resto são franjas.
Desta maneira já se sabe, antes de abrir qualquer livro estrangeiro acerca do nosso País, o que nós somos. Levantamo-nos da cama cheios de saudades e começamos logo a cantar o fado. Depois vestimo-nos e saímos, tendo o prévio cuidado de fechar as nossas mulheres em casa, a sete chaves, porque elas querem ir, mal acordam, todas para os “cafés”, e nós, os homens, não damos licença.
Não damos licença porque somos moiros. O fado é moiro, porque é fatalista, como o seu próprio nome indica, e os moiros são fatalistas. A saudade também deve ser moira, porque os moiros estão ali em baixo no Norte de África, cheios de saudades de Portugal, donde nós os corremos de todo, vai em sete séculos. E é moiro também este costume de esconder as mulheres, ou com véus na cara, ou fechadas em pátios sem janelas para os lados de fora. Nós usamos janelas viradas para a rua, mas como é sabido, remediamos isto sem dificuldade.
Não tendo nada que fazer senão cantar o fado com acompanhamento de saudades, ao sair de casa, ficamos em baixo, na rua, a olhar para as janelas. Se alguma das nossas mulheres deita o nariz de fora, bumba! Ferramos-lhe logo um tiro, para a ensinar.
O fatalismo moiro pegou-se-nos pelo sangue, e não nos deixa fazer nada, senão ter saudades, cantar o fado e fechar as mulheres em casa. Os estrangeiros que escrevem sobre Portugal sabem isto muito bem, porque (...) analisaram o nosso sangue ao microscópio e descobriram nele a seguinte composição, perfeitamente determinada:
Alá .............................. 10%
Saudade ..................... 25%
Fado ............................ 25%
Cafés sem mulheres .. 25%
Maomé ........................ 15%

2 comentários:

  1. A AIDGLOBAL apresenta o espectáculo de solidariedade O FADO ACONTECE que decorrerá no dia 10 de Novembro, pelas 22h00, no Forum Lisboa. Celeste Rodrigues, Raquel Tavares, Ana Sofia Varela, Sofia Amendoeira, Hélder Moutinho, Ricardo Ribeiro, Artur Batalha, Luís Pinheiro, Luís David. Mais informações em www.aidglobal.org

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  2. Obrigado Hugo! Isto é muito importante. Vou dar-lhe destaque.
    Ricardo Esteves

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