segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Leonardo Ferraz de Carvalho

Faleceu há cerca de 9 anos, chamava-se Leonardo Ferraz de Carvalho. Não sei o que fazia ou do que vivia. Nas poucas fotografias em que o vi parecia um aristocrata. Os seus textos sobre Economia revelavam auto-confiança e uma autoridade tranquila. Sabia do que falava. Comecei a lê-lo no jornal O Independente de Paulo Portas com crescente admiração e depois um dia ouvi dizer que nos tinha deixado.

Tinha um estilo anglo-saxónico: era simples, directo e sempre com espírito. Por isso, a sua crítica era tão demolidora. Reconheço que várias vezes comprei O Independente só para ler as suas crónicas. Dizia Leonardo Ferraz de Carvalho:

“Uma outra utopiazita seria fazer uma Fundação de Estudos Comparados. Uma coisa muito simples. Aparece um problema, uma coisa a resolver. Vamos ver como é que isso se resolveu em Espanha, em França, na Inglaterra, na Bélgica, na Holanda. Por um lado, para não estarmos a gastar tempo e dinheiro para descobrir a pólvora e, por outro, para não correr um risco, ainda muito pior, que é o de nem a pólvora descobrir.”

Claro que uma pessoa que assim falava em 1997, mexia com interesses e ideologias estabelecidas: ouve sempre a ideia de que as coisas que funcionam “lá fora” não são aplicáveis “cá dentro”. Foi uma desculpa durante muitos anos por exemplo para a falta de democracia em Portugal, pois afirmava-se que o “povo português não está preparado”. Ainda há dias ouvi repetir a mesma tese a propósito da “flexisegurança”. Seria boa na Dinamarca mas não em Portugal.

Ao reler hoje Leonardo Ferraz de Carvalho, constato a intemporalidade de muitas das suas ideias e continuo a aprender. Não resisto em incluir mais este seu pequeno exemplo:

“Em Inglaterra, como sabem, são tão atrasados que ainda não inventaram o reconhecimento notarial. Presume-se que os documentos estão correctamente assinados e são verdadeiros. Se não foram, se a assinatura for falsificada, se corresponder a actos ilegais, vai-se preso. So simple. E funciona. Depressa e barato.”
.
É sempre um prazer recordar Leonardo Ferraz de Carvalho.

2 comentários:

  1. Só agora li a sua crónica, obrigada pelas suas palavras. Muitas vezesveu os filhos e amigos perguntamos a nós próprios o que diria ele de tudo o que se passa à nossa volta.
    Gostava de lhe dizer que a data da sua morte foi 23/10/1998 MLuz Ferraz de Carvalho

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    1. Muito obrigado pelo comentário, que muito agradeço. Não sei se com estas breves palavras dedicadas à memória de Leonardo Ferraz de Carvalho, consegui exprimir a falta que ele nos faz, a nós, seus leitores. Dezoito anos depois de nos ter deixado, continuo a relê-lo.

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