segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Monárquicos vs Republicanos II: o duelo de Afonso Costa.

Não há uma questão monárquica em Portugal com peso algum junto da opinião pública, mas hoje reconhece-se finalmente, que o rei D.Carlos era uma pessoa decente – embora politicamente inapto - e que não teria merecido o regicídio.
Os republicanos sempre tentaram apresentar o liberalismo como um período de exagerada corrupção e de má governação e os salazaristas fizeram o mesmo com o período da 1ª República. Isso faz-me aproximar dos velhos monárquicos e dos velhos republicanos com alguma simpatia, pelo que recuperei esta história contada por Alberto Bramão em Faulhas dum Lume Vivo:

Foi antes da queda da Monarquia, em 1908. Afonso Costa [líder do PRP – Partido Republicano, partido importante mas muito minoritário] estava fazendo um discurso violento na Camara dos Deputados, contra tudo que era monárquico (...) e tanto calor pôs na veemência das suas ideias e das suas palavras, que entrou pela agressão ofensiva da dignidade dos homens que formavam os Partidos da Monarquia.
O conde de Penha Garcia estava no seu lugar de deputado; levantou-se serenamente aproximou-se do orador e disse-lhe baixinho, sem alarde, de forma que só foi ouvido pelos que estavam ao pé do orador:
- Quem assim desconsidera a honra alheia, não pode prezar a honra própria.
Afonso Costa suspendeu o discurso para responder isto simplesmente:
- Logo falaremos.
E continuou a interrompida diatribe até prefazer a hora regulamentar de oratória, incluindo os quinze minutos de tolerância.
Terminado o discurso, Afonso Costa constituiu os seus padrinhos para tratarem do duelo.
Mas, aqui começou a inquietação nos arraiais políticos, principalmente quando o chefe republicano declarou que escolhia para o combate a espada francesa.
A escolha foi considerada um acto de extraordinária coragem da parte dum homem que em esgrima era um mero aprendiz e que sabia ser o conde de Penha Garcia campeão nessa arma.
O sobressalto foi geral, nos dois campos monárquico e republicano.
Se Afonso Costa fosse mortalmente ferido, os aguerridos grupos populares, que o consideravam o mais vigoroso propagandista da ideia republicana e o chefe indispensável para derrubar a Monarquia, haviam de propalar que ele tinha sido assassinado e daí era natural desencadear-se a revolução que todos sabiam preparada para a primeira oportunidade.
Os republicanos temiam a perda do seu vigoroso líder e os monarquistas temiam as consequências tumultuosas que desse facto resultariam sem dúvida.
Houve então sobressaltadas intervenções para reduzir ao mínimo a gravidade do duelo.
O conde de Penha Garcia, não só porque no seu elevado espírito havia a consciência do que podia resultar, mas também porque não era homem para rancores, resolveu fazer todo o possível para se limitar a ferir levemente o seu adversário, de forma a cumprir apenas a formalidade que a honra impunha, sem resultado grave.
Foi-lhe, porém, difícil a realização deste propósito, porque Afonso Costa atacava com violência desvairada, atirando-se contra o antagonista, de forma que só pela serena perícia de Penha Garcia é que foi possível evitar uma desgraça, tendo terminado a contenda com um pequeno ferimento no braço do caudilho revolucionário.
Este desfecho acalmou a grande tempestade política que já se estava formando.
Reconheceu-se o procedimento generoso do mestre de armas que não quis valer-se da sua superioridade sobre o aprendiz impetuoso. Este também não sofreu humilhação, porque procedeu com nobilitante coragem e altivez.
Ficou, portanto, adiada a revolução que pouco depois proclamou na Rotunda o regime republicano.
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Fotografia do duelo entre Afonso Costa e Penha Garcia, do fotógrafo Benoliel. De costas, Afonso Costa.

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