sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

O Almocreve I: sua importância nos transportes internos.

Profissão referenciável em Portugal desde o conde D. Henrique, citada em vários forais e que juntamente com o barqueiro, o caminheiro e o carreteiro, cada um na sua função, constituiam os elementos sociais especializados no transporte de mercadorias no interior do País, para a costa ou vice-versa. Essa especialização no transporte é que permite distinguir os almocreves dos mercadores, embora acumulassem muitas vezes o transporte com a venda de mercadorias que lhes pertenciam ou que para isso lhes tinham sido entregues.

Sem diminuir a importância dos outros, assentava nos almocreves pela sua importância e número, a coluna vertebral dos transportes internos. Cada cidade ou vila mais importante tinha o seu corpo de almocreves que dependia do almotacé [oficial do concelho que tinha a seu cargo fiscalizar o comércio local], que deveria providenciar no sentido de que a povoação não ficasse desprovida deles.

Viajavam quase sempre em grupo, com o que pretendiam diminuir os assaltos organizados. Eram numerosos. Lisboa tinha 150 almocreves no século dezasseis. Trás-os-Montes no final do século dezoito tinha 420 almocreves. Na estatística para a contribuição industrial de 1867, contaram-se 5.438.

Tinham vários privilégios, entre os quais o de puderem vender mercadorias por preços superiores aos taxados “por causa dos custos do seu trabalho”. Contudo, para evitar especulação e abusos os preços dos seus serviços e o volume das suas cargas eram estabelecidos por lei. Para efeito de pagamento de serviços dos almocreves, o ano era dividido em duas épocas: a primeira de Abril a Setembro e a segunda de Outubro a Março, tendo os fretes desta última um aumento de 25% sobre a anterior. Esta divisão do ano relaciona-se não só com o clima como com a data de realização da maioria das feiras, cujo sucesso só poderia ficar garantido com a existência de um número suficiente de almocreves.

O transporte de peixe e de sal da costa para o interior pertenceu-lhes quase na totalidade do século treze ao século dezanove, assim como o comércio por terra com Castela. Os centros principais de movimento desta rede nacional de transportes terrestres eram Melgaço, Chaves, Amarante, Ponte de Lima, Vila Real, Guarda, Pinhel, Trancoso, Viseu, Montemor-o-Velho, Castelo Branco, Santarém, Tomar, Setúbal, Estremoz, Moura, Évora e Loulé.


Extraído do Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão

1 comentário:

  1. QUEM NÃO SABE DA NOSSA HISTÓRIA, ACABA SEM PERCEBER O NOSSO PRESENTE E FUTURO.OBRIGADA PELA PUBLICAÇÃO E AO DEU AUTOR.
    MARIA A.OLIVEIRA S.

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