domingo, 16 de dezembro de 2007

Um Conto de Natal por Frederico de Moura - 1ª Parte

Devido a uma profissão fortemente marcada por valores e sentimentos humanistas, os médicos portugueses sempre se distinguiram não apenas na assistência às enfermidades das populações de forma abnegada, mas em múltiplas e diferentes causas e iniciativas a nível social, político e cultural. Basta lembrar apenas Sousa Martins e mais recentemente a AMI [ambos os casos já citados neste blogue], ou que na literatura Júlio Diniz, Miguel Torga, Fernando Namora, Bernardo Santareno e António Lobo Antunes sejam médicos, só para citar alguns exemplos [existe até a Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos, ver em http://www.sopeam.pt/ .]. Por estas razões, optei deliberadamente por um conto de Natal escrito por um médico. Escolhi um de Frederico de Moura (1909-2002), um verdadeiro “João Semana” segundo Torga, que deixou o seu nome para sempre ligado ao coração do povo de Vagos e ao distrito de Aveiro. É um conto de Natal pitoresco, que dividi em 3 partes e que vale uma leitura atenta.

OS RÚSTICOS VIRAM A ESTRELA (Parte 1 de 3)
Narrativa inédita de Frederico de Moura
[António Frederico Vieira de Moura, Licenciado pela Faculdade de Medicina de Coimbra em 1933 e Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade de Letras de Coimbra em 1960]
Conto incluído em “Natal”, ed Instituto Luso-Fármaco, 1967.


O cortejo dos Reis Magos de Sorães tinha larga fama nas redondezas e aglutinava sempre uma espessa multidão que afluía de todos os pontos cardeais. Os caminhos da Gândara pejavam-se de forasteiros oriundos de todos os lugares: da Tocha, de Cadima, de Murtede, de Carromeu, vinha gente de todas as idades e condições, desde as velhas de mantilha embiocada, até às cachopas de lenços garridos de ramagens e de fedelhos de palmo e meio, ranhosos até à ponta do queixo e de calças fundilhadas no posterior. Também do lado do mar vinham os gafanhões e as gafanhoas, lépidos e bailarinos nos movimentos, a quem as lombas não metiam medo. Atascando-se nos caminhos barrentos, uns, atolando-se na duna, outros, toda a gente arranjava disponibilidades e fôlego para a caminhada. E, às vezes, não faltava, mesmo, a presença de um ou outro senhor folclorista com o seu binóculo científico assestado, quando não com sua câmara fotográfica a fixar imagens.

Já coisa de um mês antes, se sentia latejar em todo o povo uma azáfama ofegante na preparação das alfaias, das indumentárias, dos cenários, e na realização dos ensaios do Auto, velho e ingénuo, que haveria de ser mastigado como núcleo de entremez.
Um talhava com umas tesouras velhas ferrugentas, coroas de rei, especiosas e profusas de bicos e recortes, num retalho de folha-de-flandres arrancado à sucata do picheleiro, ou recortava, em papelão grosso, a estrela que, depois de dourada, havia de servir de guia na caminhada para a gruta de Belém; uma rapariga costurava em cetineta vermelha ou numa colcha ramalhuda, fora de uso, mantos reais que haviam de vir a ser debruados e listados com galão de cangalheiro; um labrego pintava a purpurina de oiro os velhos arreios com que se haviam de ajaezar as montadas dos magos do Oriente.

O fim do mundo na pacatez de Sorães!

(Continua)

2 comentários:

  1. Em primeiro lugar, apresento-lhe os meus cumprimentos e saúdo-o pela conteúdo apresentado no seu Blog.
    Aproveito para o informar de que foi recentemente editada pela Família de Frederico de Moura uma obra que reúne textos inéditos e outros que já haviam sido publicados. Nesse livro, intitulado PULSO LIVRE, encontra-se o conto "Os rústicos viram a estrela", presente também neste Blog. A edição foi oferecida ao CASCI (Centro de Acção Social do Conselho de ÍLhavo)pela família do autor.
    Com votos de continuação de bom trabalho
    João Moura Resende

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  2. Muito obrigado pelo comentário elogioso. As edições de Natal do ILF durante os anos sessenta e setenta foram muito populares entre os médicos. Hoje em dia, só num alfarrabista se conseguem obter estes contos. Foi onde os comprei e o que me permitiu conhecer este conto tão pitoresco.

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