terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Um Conto de Natal por Frederico de Moura - 2ª Parte

A segunda parte deste conto de Natal passado em Sorães, o antigo nome de Santa Catarina, freguesia do Município de Vagos.

OS RÚSTICOS VIRAM A ESTRELA (Parte 2 de 3)
Por Frederico de Moura, incluído em “Natal”, ed Instituto Luso-Fármaco, 1967.

Poliam-se as trompas, baças do pó de doze meses e enodoadas de azebre, punha-se pele nova no bombo, rebentado no ano passado pela maceta impulsionada por músculos robustecidos pelo estímulo do briol, apetrechavam-se os clarinetes com palhetas novas para lhes valorizar o timbre, encordoavam-se as violas e os bandolins onde as aranhas tinham instalado tear para fazer as suas teias – e os ensaios botavam pela noite fora.

O encenador corrigia aqui os defeitos da pronúncia de uma personagem, além procurava sincronizar uma fala com a mímica que havia de a sublinhar, ou tentava pôr de acordo uma emoção com um gesto.
Exigente no encornanço dos papéis, ai daquele que se engasgasse no meio de uma frase, ou esfumasse uma deixa por indecisão ou má pronúncia. Caía o Carmo e a Trindade quando o actor se mostrava rude ou desatento! E, de jumento para baixo, todos os insultos do dicionário lhe serviam, afoitando-se, mesmo, a incursões na gíria local, quando precisava de termos mais expressivos para os fazer desabar sobre as cabeças, vergadas de respeito, dos actores improvisados e transplantados da rabiça do arado para um trono real de papelão, ou arrancados do chão humoso e estercado para subtis incumbências angélicas sobre nuvens de algodão em rama.
Mesmo às figuras do Presépio, cuja missão era, apenas, estar ali sem botar fala, as recomendações de compostura e de acordo com a função eram rigorosas e categóricas.
Este ano, então, a coisa havia de ser figurada a preceito – ou que raios partissem os brios da comissão – e o cortejo teria que resultar de arromba. Ponto era que o dia estivesse bonito e que um sol doirado viesse dar a sua colaboração a tanto suor gasto para lubrificar os rodízios do êxito.
O cortejo dos Reis era o cartaz de Sorães!

O Evangelista, o Avelino e o Domingos é que, desta feita, iriam figurar de magos do Oriente. Eram três labrostes alentados como bois, sobretudo o Avelino, que ia fazer de Rei Preto. De Herodes fazia o Laúdo, que tinha uma espantosa cara de facínora, onde uns olhos ameaçadores e ensombrados por um torus mais grosso e pesado que o do sinantropus, fuzilavam como coriscos corroborados por umas córneas injectadas.
Grande trabalho deu esta última personagem ao ensaiador para conseguir desbastá-la da sua natural cortiça de estupidez, como convinha ao poder histriónico de quem, apesar de tudo, figurava um rei.
Como um rinoceronte, o Laúdo investia, cego, derramando, vociferante, o seu papel, indemne às directivas que procuravam frenar-lhe, um pouco, o impulso cafreal.
O Evangelista lá deu um mago acetinado, mas de sabor incaracterístico como o capilé, e o Domingos, tem-te-não-caias, pelo menos obedecia às vozes de quem mandava e à batuta do maestro, enquanto o Avelino deu, por vocação, um Rei Preto “que só lhe faltava falar”, como dizia a Brízida.

No dia aprazado lá estava tudo a postos! Debaixo do rei Baltazar, de cara enfarruscada como um tição, o cavalo, com mais lã do que um carneiro, parecia ter a coluna vertebral selada, vergado, como estava, sob o peso da outra alimária; e os dois restantes, muito comedidos, muito senhores do seu papel, enquanto seguravam as rédeas com a mão esquerda, iam cofiando com a dextra umas incríveis barbas, baças e penteadas, feitas de rabo de burro. Atrás seguiam três sendeiros a botar figura de camelos e ajoujados sob o peso das oferendas, as mais fantásticas, as mais inverosímeis, e destinadas a fazer as vezes da ânfora do incenso, do cofre do oiro e da urna da mirra. Finalmente, estendia-se ao longo da estrada esburacada e lamacenta da aldeia um cortejo interminável de pastorinhas e pastorinhos com seus tabuleiros e canastras, com suas gaiolas e condessas, ou tangendo carneiros brancos, afogados em lã, e tímidas cabrinhas de pêlo escorrido, não contando com uns caçadores, tão hirtos que pareciam engomados, levando pendentes das trelas patos e galináceos vivos que se espanejavam esbaforidos.

Fuzilavam no centro dos tabuleiros de madeira, forrados com papéis coloridos, garrafas cintilantes de vinho branco e de jeropiga, de cujos gargalos partiam para os cantos festões de bilharacos e figos passados enfiados em arames; rescendiam as galinhas assadas, tostadas e loiras, com suas epidermes de poros arrepiados, como que esfregadas com urtigas, e berravam em bandejas de latão bolos recobertos de açucar com decorações quase mouriscas de confeitos multicolores; sussurrava o milho amarelo nos alqueires e alvejavam toalhas, engomadas e emolduradas de renda, debaixo de leitões assados no espeto e com as maxilas cerradas num trismo sardónico sobre laranjas gritantes de cor e de acidez.

E, à cabeça das garotas, como que a corroborar o especioso dos penteados, abóboras-meninas, bilobadas como cabaças e quase rubras no seu intenso alaranjado, ou taleigos imaculados de brancura a impar de farinha pelo laço do nagalho. Tudo aquilo que de mais bizarro se possa imaginar em matéria de oferendas era conduzido para o presépio do Menino por aquele cortejo guiado pela estrela, de papelão doirado, erguida, ao alto, na ponta de uma cana, por um anjinho adornado com umas descomunais asas, profusas de remiges, muito mais zoológicas do que as de qualquer ganso petulante e fanfarrão.

O cortejo encaminhou-se para o Presépio, armado num desvão do adro, aconchegado sob a copa espessa e acolhedora de um cedro centenário...

E, então, as régias personagens desmontaram, muito solenes, os servos descarregaram os burros, sucedâneos dos camelos, e os três Magos, dobrando os joelhos, e baixando até ao chão as coroas de lata, depuseram junto do estábulo, em vez da ânfora do incenso, o pipo grávido de vinho, em vez do cofre do oiro, o alqueire coagulado de milho doirado, e, em vez da urna da mirra, a carne de porco nacarada e enterrada em sal mais branco do que a neve pura.

O Menino Jesus, de barro, do tamanho de um menino verdadeiro, com seus olhos muito azuis e seu cabelo como estrigas, ficou estático e sereno nas palhinhas humildes, sob o bafo quente de um jumento e de uma vaca ao natural, enquanto, sobre o seu corpinho róseo, uma Virgem e um S. José de Sorães deixavam cair dos olhos, embevecidos, lágrimas de maná.

Quem olhasse de longe julgaria ter na frente o presépio de um barrista do século XVIII, com suas figurinhas de argila, onde nem sequer faltava o desbotado e a patina da policromia que se soletrava, facilmente, nas indumentárias usadas, pela quinquagésima vez, nestes cortejos de Sorães.

(Continua)

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