quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Um Conto de Natal por Frederico de Moura - 3ª Parte

A terceira e última parte deste conto de Natal.
OS RÚSTICOS VIRAM A ESTRELA (Parte 3 de 3)
Por Frederico de Moura, incluído em “Natal”, ed Instituto Luso-Fármaco, 1967.
Mas nem tudo, naquele ano, se passou como estava escrito nas rúbricas do Auto...
Na verdade, na varanda do seu palácio de estafe, Laúdo, o façanhudo Herodes, de mãos atrás das costas, passeava, de um lado para o outro, exteriorizando uma sanha rábica, que transbordava para fora do texto e da ordenança da encenação. Os Magos não lhe traziam, como era da promessa, notícias daquele Menino que a sua tirania queria degolar para extinguir a chamazinha de justiça e liberdade que nascia para os escravos, para os pobres e para os tristes.



De vez em quando, numa agitação espasmódica, subia os três degraus do estrado para se sentar no seu trono de papelão, onde se chegavam reverentes dois servos, um com um cântaro de meio almude, outro com uma taça de lata numa bandeja, para refrescarem a secura do seu real amo. E tantas foram as vezes que a sede do Laúdo esgotou a taça, já tinta de roxo até ao pé, que os efeitos do vinho se começaram a produzir e a revelar. O semblante entrou de avinagrar-se-lhe e de endurecer, e a sua agitação a mostrar-se com evidência de mais para ser fingida. A miúde, parava no meio do tablado e desembainhava palmo e meio de catana da sua baínha de lata. 

Depois, tornava a embainhá-la e carregava, ainda mais, o sobrolho em viseira, pronunciando palavras inintelegíveis. E, a certa altura, ouviu-se mesmo, com nitidez e contra a letra da peça, sair-lhe da boca avinhada uma frase que fazia dissonância:
- Do filho do meu pai nunca ninguém fez pouco; ou aqueles filhos duma cadela me trazem notícias do garoto, ou vou eu mesmo procurá-lo!...
O contra-regra interveio do lado para chamar o Laúdo ao papel, mas a resposta foi pronta:
- Deixar borrar as barbas, à frente do povo todo, é que eu não deixo, nem a fingir!

Houve risadas e dichotes na assistência. A comissão fervilhou de zelo e o próprio padre da freguesia disse qualquer coisa de xaroposo para neutralizar a fúria acética do Herodes que, apesar de tudo, continuou a remorder:
- Se queriam alguém para botar figura de bacoco, não me batessem à porta a mim; se esses reizotes de trampa não me trazem as prometidas notícias do fedelho, irei eu catá-lo, nem que seja aos quintos...
E, se bem o disse, melhor o fez. Perante o pasmo da multidão, o Laúdo deu um salto bestial abaixo do varandim, ergueu no ar a catana rebrilhante e correu, furioso, direito ao Presépio para degolar o Menino de barro.

Não foi possível encontrar razões para o deter: nem a tradição, nem o Auto, nem a autoridade do ensaiador, nem os apelos da comissão, nem as palavras mansas do padre, nem mesmo o testemunho dos Evangelhos!...
Só a força bruta de três labregos, de braços mais grossos do que gibóias, conseguiu salvar da fúria daquele Herodes de entremez o Menino-Jesus venerado pelo povo há uma carrada de anos.

Mas, esta surpresa, que veio embater contra a expectativa pacóvia da assistência, não ficou por aqui. Os filhos do Laúdo, vendo o pai agarrado por aqueles três brutamontes, foram levar-lhe o socorro que entenderam dever-lhe como filhos. Foi o rastilho para se envolver meio mundo à porrada – o que, trocado em miúdos, se traduziu num hematoma do tamanho de um ovo de galinha no coronal do rei Baltazar, em duas arquinhas partidas no rei Herodes e num beiço rachado no Anjinho da Estrela...

Por este preço logrou a Sagrada Família fugir para o Egipto, naquele Natal de Sorães...

FIM

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