sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O "cluster" do Mar


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Julgo que nos tornámos menos atentos às questões relacionadas com o Mar, sobretudo depois da adesão à União Europeia. Para a maior parte dos portugueses, o Mar ainda tem principalmente que ver com os descobrimentos dos séculos XV e XVI e com as pescas, mas na realidade o Mar tem um valor que em muito ultrapassa as pescas. Listemos apenas algumas actividades ligadas ao Mar:

Comércio e transporte marítimo
Fiscalização económica e de policiamento marítimo
Monitorização da poluição e da fauna e flora marítima
Prospecção e extracção de petróleo e de gás natural
Energia eólica, das ondas e das marés.
Geotermia
Biotecnologia
Aquacultura
Conservas
Construção e reparação naval
Fornecedores de diversos materiais, equipamentos (por exemplo, o preço de um barco é sobretudo o dos seus equipamentos) e serviços
Rede portuária e de terminais
O mundo do Turismo nas zonas costeiras, que inclui o aproveitamento das praias, desportos marítimos, pesca submarina e desportiva, marinas para barcos de recreio, alimentação ao nível da restauração, cruzeiros, cultura, etc)
Educação e formação e pesquisa e desenvolvimento, que inclui também o ensino universitário, a investigação científica e a formação profissional

Estas são algumas das actividades, para além das pescas, que nos podem dar uma imagem do que poderá ser o “valor económico" do Mar. É difícil estimar o potencial deste “sector”, mas ficamos com a noção de que é enorme.
Num país com uma agricultura pobre, mas com uma imagem histórica de país ligado ao Mar, com um povo e um território litoralizado, com as ilhas dos Açores e da Madeira e a maior zona marítima da Europa, deveríamos ter uma elevada competência e competitividade nesta área.

Ernâni Lopes tem sido uma das pessoas em Portugal a alertar para a necessidade de desenvolver um "cluster" (ele chama-lhe "hipercluster") do Mar. Ver o muito interessante sítio http://www.saer.pt/

Um "cluster" é "uma concentração geográfica de companhias e instituições interligadas num determinado ‘sector ou área’ de actividade" e "clusters fortes permitem o aceder dos negócios a recursos que as empresas não poderiam individualmente aceder, tais como: conhecimento científico e tecnológico, mercados de exportação, distribuição comum e marketing". Num "cluster" há o benefício da proximidade e das ligações de uns com os outros.
Ver relatório em
http://ec.europa.eu/maritimeaffairs/pdf/Maritime_clusters_SEC_2007_1406.pdf

Não será já altura de constituirmos um importante cluster do Mar, e nos associarmos à Rede Europeia de Clusters Marítimos (European Network of Maritime Clusters) que inclui a Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Itália, Holanda, Noruega, Polónia, Suécia e Reino Unido?

E este desígnio do Mar, até será uma "visão" fácil de entender pelos portugueses e de transformar em "missão" e em "motivação". Os textos dos nossos grandes poetas também nos apontam esse caminho, como é o caso de Sophia, nossa poetisa maior:

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta, por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos

Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

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3 comentários:

  1. Carlos Alves Moreira19 de junho de 2010 às 23:04

    Parabéns pelo recado - Ricardo Esteves.
    Parece que Portugal se tem andado esquecido desse "novo caminho para o mar" que Sofia sentiu.

    Cluster ou hipercluster ele é tão importante que dói. Este sentimento de abandono económico e histórico-cultural é um absurdo. É um crime hoje e para o nosso futuro.

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  2. Muito obrigado. Limitei-me a citar a SaeR de Ernâni Lopes, que tem estudado o assunto e a copiar um poema para ilustrar a minha opinião de concordância. Quando temos de escolher um caminho na vida, é bom escolher algo para o qual sentimos ter vocação, condições e competências. Para acreditarmos novamente no futuro, precisamos dar esse passo.
    Melhores cumprimentos

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  3. Não só como diz o poema, a história deve ser encarada como uma lição para o futuro...Portugal não tem outra alternativa, só temos um caminho o Mar. Sei do que falo, formação superior em Química (trabalho de investigação na área do mar), oficial de Marinha (entre 2001 e 2003) na área da Poluição Marítima, contactos com o mundo empresarial, temos um grande futuro se soubermos olhar para a nossa "eterna" solução: "MAR".
    Há mais de 10 anos que se fala nisto, mas as coisas continuam num "marasmo", não pela ausência das competências, mas pela péssima e histórica falta de interligação entre os vários parceiros (principalmente dos sucessivos governos, empresas e Universidades). Não podemos perder a esperança, ainda vamos a tempo de inverter o cenário e explorar todas as nossas potencialidades...vou tentar fazer a minha parte e motivar outros para tal.
    Nuno Carvalho

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