sábado, 16 de fevereiro de 2008

A Noite I – O breu ou como é a noite sem luzes artificiais

Grilos do campo
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Durante a minha juventude vivi na cidade, pelo que só muito tarde, quase nos meus vinte anos, é que descobri a maravilha de olhar para um céu estrelado numa noite escura sem luzes artificiais. Nem sempre foi assim, Fernão Lopes descreve na Crónica de D. Pedro I (ver em http://www.gutenberg.org/) como o rei, sem vontade de dormir, decidiu fazer uma festa nocturna em Lisboa:
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“Jazia el-rei [D. Pedro I] em Lisboa uma noite na cama, e não lhe vinha sono para dormir, e fez levantar os moços e quantos dormiam no paço, e mandou chamar João Mateus e Lourenço Palos, que trouxessem as trombas de prata, e fez acender tochas, e meteu-se pela vila em dança com os outros. As gentes que dormiam, saiam ás janelas, a ver que festa era aquela, ou por que se fazia, e quando viram daquela guisa el-rei, tomaram prazer de o ver assim ledo. E andou el-rei assim grande parte da noite, e tornou-se ao paço em dança, e pediu vinho e fruta, e lançou-se a dormir.”
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O rei podia dar-se a estes luxos. Mas exceptuando certos dias especiais, festas e comemorações religiosas, em que algumas zonas poderiam estar iluminadas com tochas, a noite comum da cidade medieval era tão escura como no campo ou no mar. A luz fraca das lareiras e das candeias no interior das casas, não chegava para iluminar as estreitas ruas com os carreiros dos esgotos a céu aberto cheios pelos despejos do fim do dia. Imaginem essas ruas mal cheirosas, onde não se deveria conseguir ver um palmo à frente do nariz, cheias de ratazanas e de cães. A iluminação pública era totalmente inexistente. Por isso, quando chegava a noite, era para deitar, mesmo nas noites de luar. Só se acordava com o cantar dos galos.

2 comentários:

  1. Também nasci na cidade e poucas vezes vivi a noite sem luzes artificiais. Numa dessas ocasiões, armada em valente e de lanterna em punho, lembro-me que via muitos olhinhos brilhantes.

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  2. Nos tempos antigos, a noite era mesmo escura e, não se podendo sair de casa à noite, tínhamos de dormir cedo. A iluminação pública veio alterar esses hábitos de muitas gerações. Para nós, citadinos de hoje, o breu é algo estranho à nossa experiência.

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