sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Um regicídio acidental?

Faz hoje 100 anos que foi assassinado o rei D. Carlos. Os meios de comunicação têm procurado divulgar a efeméride, descrevendo as circunstâncias que rodearam a sua morte e também alguns dados biográficos do chamado rei-artista. O assassinato foi praticado por um conjunto de pessoas, ligadas à ala mais radical dos republicanos. Eram extremistas e violentos. Hoje seriam chamados “terroristas”. O assassinato do rei foi (e será sempre) um acto condenável - já aqui o referi em
http://cronicas-portuguesas.blogspot.com/2007/12/monrquicos-vs-republicanos-ii-o-duelo.html , apesar de me considerar um republicano convicto. Acho que o nosso Parlamento deveria ter manifestado por votação essa condenação: revelaria elevação por parte dos republicanos dos nossos dias.

Uma das coisas com que não estive de acordo no textos dos jornais de hoje foi a certeza sobre os factos do drama, daquele dia 1 de Fevereiro de 1908. Um dos jornais diz que o atentado estava há muito a ser preparado, referindo uma carta de despedida do Buiça e outro jornal, diz que o rei se calhar já sabia de uma qualquer trama para o assassinar visto trazer uma arma consigo.
Mas note-se que as memórias de Raúl Brandão, que foi um homem com conhecimentos “de dentro”, desmentem esta versão do “regicídio planeado”:

“Um dos que escaparam no Terreiro do Paço onde acabou a monarquia, foi o José Ribeiro. Foi ele que me contou também o seguinte – continua o meu informador:
- Não fomos para a Rua Alexandre Herculano porque o Buiça, que era um desleixado, deixou passar a hora. Resolvemos então ir para o Terreiro do Paço: contávamos que João Franco, que esperava o rei, havia de aparecer ali.
Postaram-se todos cinco – o Ribeiro, o Buiça, o Costa e outros dois que ainda estão vivos – na esquina da praça. Acabada a recepção, começaram a passar os convidados e eles sempre à espera do João Franco para o matarem. Abalaram as primeiras carruagens e o Costa desesperou. Desceu pelo Terreiro do Paço abaixo, seguido pelo José Ribeiro e pôs-se a ver quem saía do cais. Um, outro e o presidente do ministério
franquista sem aparecer. Até que lhe disse:
- Vai lá acima e diz ao Buiça que aquele ladrão ainda nos escapa!
Nesse momento, ao fundo, aparecia a carruagem real.
- E se nós – continuou ele – deitássemos aqueles abaixo?
E o Buiça respondeu prontamente:
- Vamos a isso!
O resto sabe-se. O Buiça saltou à frente, o Costa pôs o pé no estribo da carruagem, tiros, confusão e a morte do rei e do príncipe.”
Em Raul Brandão, Memórias Tomo II, Obras Completas Vol I, ed. Relógio D’Água, 1999.

E João Franco vinha apenas 2 carruagens atrás da do rei, o qual pode assim ter morrido por precipitação dos regicidas e de improviso, de forma não planeada e acidental. Calhou...

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