sábado, 9 de fevereiro de 2008

Uma carta particular de Antero de Quental (1842-1891)

[Figura de Antero em Coimbra, 1864, com 22 anos]

É um acto de despudorado voyeurismo, o de estarmos a ler as cartas das outras pessoas. Mesmo 150 anos depois. Mas enfim, que se danem as boas maneiras porque é uma leitura que é um prazer. E como ele já escrevia tão bem, tão novo (teria apenas 16 anos, acabados de completar em Abril). A carta está endereçada para a casa da sua família nos Açores e dirigida a sua mãe, Ana Guilhermina da Maia Quental.

Foi publicada, ainda bem, pela Universidade dos Açores, ed. Comunicação, Cartas I - organização de Ana Maria Almeida Martins, das Obras Completas de Antero de Quental, 1989.
.
Coimbra, 29 de Julho 1858.

Minha querida Mamã,

Depois de tantos trabalhos e sustos chegou finalmente o dia, em que dando um suspiro de alívio pude descansar sem cuidados; e por isso é que lhe escrevo debaixo da agradável impressão de ter feito os exames e de me achar habilitado com os exames de Instrução Primária, Francês, Latim, Lógica, Retórica, História e Geografia, Geometria, e Introdução aos três Reinos da Natureza, e apto para me matricular em qualquer Faculdade, a qual será a que o Papá e a Mamã escolherem.
Estou pois muito contente, não só pelo facto em si, como também pela alegria que com isso terão todos os que por mim se interessam; e muito aliviado pois o fim do ano é o maior Cabrion(1) que um pobre Estudante pode ter.
Agora pois estou em Férias, e espero passá-las descansado, e lendo algum livro que possa instruir-me, sem contudo ter o peso da Ciência: agora que lancei a Ciência nas certidões, posso-me entregar um pouco aos meus passatempos favoritos de Literatura e Poesia: são estes os meus divertimentos nesta terra, e confesso que tem para mim milhares de atractivos, e que os prefiro a todos os outros.
Agora estou eu fazendo uma pequena tradução em verso, e estando pronta lha mandarei, visto que a Mamã tem a suma bondade de ler as minhas modestas rabiscas.
Não sei se passarei aqui as férias: eu desejava ir uns 15 dias à Figueira, tomar banhos e passear, pois esta vida de Estudante não é só monótona e incómoda, mas também pode fazer mal sendo contínua: por isso mesmo é que se fizeram as férias, tempo de descanso: além disso o meu estado de saúde pede esta pequena viagem: não que eu tenha doença alguma grave, mas ando sempre com pequenos achaques tais como dor de cabeça, febre, constipação, etc. Já vê a Mamã que preciso espairecer, e mesmo os ares do mar fazem-me iludir um pouco, e transportam-me pelo pensamento aos belos e saudosos tempos que aí passei. Quem me dera já o ano que vem, para lá ir, como o Papá me prometeu: enfim, será quando Deus quiser!
Também lhe quero pedir um favor – Daqui até Novembro, tempo em que começam as aulas, precisava ler alguns livros de Literatura filosófica, para não ir para a Universidade com os olhos fechados sobre este ramo das Letras, que é necessário pela relação íntima que tem com todos os outros: precisava pois comprar esses Livros, e é o favor que lhe peço, o pedir ao Papá que me mande dinheiro para eles, que, para os que por ora preciso, não será necessário mais que 5 ou 6 mil réis. Isto devia eu ter pedido directamente ao Papá, mas não sei que acanhamento me deu, que tenho vergonha de lho pedir, enquanto que à Mamã lho peço com mais confiança.
Peço-lhe me recomende muito a todos; Manas(2), André(3), Prima Anica(4) e Beza(5): a esta última peço lhe dê um abraço da minha parte.

Adeus minha querida Mamã
deite a sua bênção ao seu

Filho muito obediente e amigo

Antero


(1) É um francesismo que caiu em desuso, e que significa uma pessoa que incomoda ou molesta constantemente; vem do personagem Cabrion, do livro Mistérios de Paris de Eugénio Sue, que era um artista que pregava partidas a Pipelet, seu porteiro.

(2) Maria Ermelinda, 18 anos (1840-1908); Matilde, 15 anos (1843-1925) e Ana Guilhermina, 13 anos (1845-1920).

(3) André de Quental, 22 anos, o irmão mais velho (1836-1888).

(4) Ana Guilhermina da Mota Porto Carrero, sobrinha da mãe de Antero e casada com André.

(5) Talvez uma criada antiga.

Sem comentários:

Enviar um comentário