sábado, 15 de março de 2008

Amália Rodrigues: Maria Lisboa, 1961.




Maria Lisboa
David Mourão-Ferreira e Alain Oulman

É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata;
na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.

Em vez de corvos no xaile,
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.

É de conchas o vestido,
tem algas na cabeleira,
e nas veias o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria.
Seu apelido: Lisboa.

Talvez alguns não saibam:
Varina: vendedora de peixe; muitas eram originárias de Ovar, daí o nome.
Corvos: os pássaros "vicentinos", do símbolo da cidade de Lisboa.
Xaile: peça de vestuário; as fadistas cantam tradicionalmente com xaile [como é o caso de Amália neste fado, que brinca com ele, enrolando-o nos dedos antes de cantar].
Chinela: as varinas andavam descalças na Ribeira Nova onde iam busccar e descarregar o peixe, mas para a venda nas ruas, calçavam chinelas; um tipo de chinelas que usavam, era de couro com sola de pau, tipo "tamanco".
Canastra: cesto de cana onde levavam o peixe à cabeça.
Caravela: o barco português dos descobrimentos.
Fragata: barco à vela típico do Rio Tejo.
Traineira: barco a motor da pesca ao largo; pescavam principalmente a sardinha e o carapau.
Apregoar: gritar o anúncio, geralmente sempre a mesma frase ou pregão, da venda, neste caso, de peixe.

David Mourão Ferreira faz uma mistura de todos estes termos populares, dando-lhes novos sentidos: “na canastra, a caravela”, “nas veias o latido do motor duma traineira”, “apregoa tempestades” ou “vende sonho e maresia”. Toda a letra da canção a começar pelo nome, é um composto de trocadilhos, que resulta num conjunto harmonioso e feliz. Com a alegre música de Alain Oulman, o resultado é brilhante. A voz e o talento de Amália fazem da canção um clássico.

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