sexta-feira, 7 de março de 2008

Eça de Queiroz sobre a importância da Arte

A Arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo da Vida – que é não ser apagada de todo pela Morte. (...) A única esperança que nos resta de não morrermos absolutamente como as couves é a Fama, essa imortalidade relativa que só dá a Arte. (...) E esta promessa, amigo, não é falaz.
A Arte é tudo porque só ela tem a duração – e tudo o resto é nada! As Sociedades, os impérios são varridos da terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas; e se não passam da memória fugidia dos homens, se ainda para eles se voltam piedosamente as curiosidades, é porque deles ficou algum vestígio de Arte, a coluna tombada de um palácio, ou quatro versos num pergaminho. As Religiões só sobrevivem pela Arte, porque só ela torna os Deuses verdadeiramente imortais – dando-lhes forma. A Divindade só fica absolutamente divina – quando um cinzel de génio a fixa em mármore (...).
A Arte é tudo – tudo o resto é nada. Só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo. Leónidas ou Péricles não bastariam para que a velha Grécia ainda vivesse, nova e radiosa, nos nossos espíritos: foi-lhe preciso ter Aristófanes e Ésquilo. Tudo é efémero e oco nas Sociedades – sobretudo o que mais nos deslumbra. Podes-me tu dizer quem foram no tempo de Shakespeare os grandes banqueiros e as formosas mulheres? Onde estão os sacos de ouro deles, e o rolar do seu luxo? Onde estão os claros olhos delas? Onde estão as rosas de York que floriram então? Mas Shakespeare está realmente tão vivo como quando, no estreito tablado do Globe, ele dependurava a lanterna que devia ser a lua, triste e amorosamente invocada, alumiando o Jardim dos Capuletos. Está vivo de uma vida melhor, porque o seu Espirito fulge com um sereno e contínuo esplendor, sem que o perturbem mais as humilhantes misérias da Carne!
Nada há mais ruidoso, e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas – do que a Política. Por toda essa Europa Real, se vêem multidões de politiquetes e de politicões, enroflados, emplumados, atordoadores, caquerejando infernalmente, de crista alta. Mas concebes tu a possibilidade que daqui a cinquenta anos, quando se estiverem erguendo estátuas a Zola, alguém se lembre dos Ferry, dos Clemenceau, dos Canovas, dos Bright? Podes-me tu dizer quem eram os ministros do império em 1856, há apenas 30 anos, quando Gustave Flaubert escrevia Madame Bovary? Para o saber precisas desenterrar e esgaravatar com repugnância velhos jornais bolorentos: e achados os nomes nunca verdadeiramente poderás diferenciar com nitidez o sujeito Baroche do sujeito Troplong: mas de Madame Bovary sabes a vida toda, e as paixões e os tédios, e a cadelinha que a seguia, e o vestido que punha quando partia á quinta-feira na Hirondelle para ir encontrar Leon a Rouen!

Excerto do prefácio escrito por Eça de Queiroz no livro de contos “Azulejos” do Conde de Arnoso, em 1886. Título e figuras da minha responsabilidade.

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