quinta-feira, 6 de março de 2008

Guerra e Educação

Agostinho de Campos
(1870-1944)
Por Agostinho de Campos, Setembro de 1916.

Na Inglaterra e em França, a propósito da Guerra e dos múltiplos problemas que ela suscita, discutem-se, como era natural, os sistemas, processos e tendências da educação e do ensino nacionais. É o que sempre acontece nos períodos de crises graves: depois do burro morto, chega-se-lhe por onde calha a ração de cevada...
Há, porém, que distinguir. Um país leva sempre muito mais tempo a morrer do que um burro, e as próprias nações moribundas têm diante si um futuro bastante largo, para aproveitarem alguma coisa com as reformas que chegam tarde. O que é preciso é que as reformas cheguem, e que os países reformandos lhe não saiam ao caminho para as impedirem de chegar.
Uma das maneiras mais vulgares, e decerto a mais eficaz de inutilizar as reformas da educação, consiste na mania que têm os homens de quererem melhorar a nação pela via das crianças, ficando eles, por comodismo, com todos os seus queridos vícios e preciosos defeitos. Fazem assim, com muito dinheiro, escolas onde os filhos aprendem maravilhas e se educam magnificamente , para virem depois para casa, ao contacto dos pais, deseducar-se e desaprender.
Depois da Guerra, a julgar pelo que lemos nos seus melhores jornais, vão os ingleses salvar a Pátria, ensinando nas escolas menos grego, menos latim, e muita física e química. Com isto esperam eles desbancar o tino industrial da Alemanha, sem se lembrarem de que não há física nem química suficientes para substituir a resignação ao trabalho contínuo, o avaro aproveitamento de tempo, o sacrifício de algum conforto e de muitos prazeres, virtudes que os rapazitos não podem aprender com pais e mestres que as não praticam.
Os franceses, pelo seu lado, como têm feito nesta guerra – honra lhes seja! – uma grande figura militar e moral, mostram-se contentes consigo próprios e acham que, tirada uma tão bela prova à educação que tiveram, não há motivo para mudarem. Há justiça neste sentimento, mas eu vejo nele também alguma leviandade, e uma certa ingratidão pelos acasos e circunstâncias exteriores que salvaram a França em dois ou três minutos decisivos. E a leviandade, sobretudo, é grave, porque ameaça levar os franceses à crença tentadora de que poderão continuar impunemente, depois da Guerra, a envenenarem-se com alcool, a organizar a intolerância religiosa e política, a esbanjar a fortuna pública para satisfação do egoísmo pecuniário das classes, a sacrificar o crescimento da população à covardia moral das famílias.
Remexer no ensino das crianças ou deixá-lo como está, são coisas igualmente fáceis. Difícil, quando não impossível, é refazer a educação dos homens e mudar o rumo às tendências colectivas.
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Em O Homem Lobo do Homem, ed. Aillaud e Bertrand, 1921.

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