sexta-feira, 14 de março de 2008

"Mário - Episódios das lutas civis portuguesas de 1820 a 1834"

Por António d'Oliveira Silva Gayo (1840-1870)
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(Pequeno excerto do início do livro)
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Conheceis a Beira Alta?
É uma fértil província, portuguesa de lei, que vê, a leste, a serra da Estrela com as suas neves; a oeste, o Caramulo com a sua tristeza; ao sul, o Buçaco de gloriosa memória e de mística tradição.
É acidentado o solo, sucedendo-se às pequenas ondulações do terreno as colinas, os cerros e os montes, separados uns dos outros por quebradas e valeiros, onde sussurram as águas, caídas das alturas.
As cumeadas ou são vestidas de urzes e de ásperos tojos, ou são toucadas com a rama verde-negra dos pinheiros. Mas tão rica de seiva é toda a terra que, nos lugares em que o machado desbastou o pinhal, vedes logo aparecer a leira verdejante, que irá escorregando pela encosta, até se casar com a farta cultura dos vales.
Aos soutos de castanheiros de carcomido tronco, e aos pinhais e carvalhedos, segue-se, aqui, o rico plaino animado pelo ribeiro e pelo moinho ruidoso; ali, a vinha a espreguiçar-se na encosta; mais acima, e longe e perto, a oliveira.
São tristes as aldeias, porque o granito beirão, mal desbastando e enegrecido, lhes dá a cor do luto; e como elas, e como a oliveira, é triste o aspecto do país. Não há as amplas planuras, em que a vista se deleita e se namora; nem os meandros da lisa corrente a luzir, em longa fita, por entre as folhas dos salgueirais; nem o alvejar de muita casa branca, no pendor das colinas; nem a laranjeira odorosa, enfileirada em pomares extensos, que, fora do Vale de Besteiros, somente a encontrareis como benéfico atavio da casa do lavrador!
Mas na altura, no lugar vistoso, aparecer-vos-á bem caiada a capela ou a igreja, meia escondida detrás das folhas de castanheiros, de carvalhos e de oliveiras. São a devota alegria das povoações vizinhas; são a respeitada causa de festas e romagens, onde o povo troca por sincera alegria o ar sério e grave, que lhe é habitual.
Na Beira vereis a infância dos processos agrícolas; o homem a suar trabalhos, a mulher a lidar no campo, e até as crianças empregadas no duro serviço, que só é devido aos braços. Mas ao cair do dia, vê-los-eis alegres e cantantes, apesar da fadiga de tantas horas. Descobrir-se-ão diante de vós, e ouvi-los-eis a dizerem «guarde-o Deus» ou «Deus o salve»!
Da torre da próxima igreja descerá o toque da ave-maria, como bênção da tarde, que vem de cima; e enquanto vão caminhando, silenciosos e recolhidos na breve oração, só ouvireis as campainhas dos gados, que se recolhem ao redil.
E em tudo vereis a crença e a força; o trabalho e a paz, e esta sã virilidade dos povos lavradores, que é o eterno louvor da natureza!
Caminhai para leste, vinde comigo. Na falda dessa Estrela, desse velho Hermínio, vereis unidas a agricultura e a indústria: que dos alcantis da montanha lhes corre a água em torrentes, para em baixo ser transformada em motor económico.
Dizeis-me que estamos em Dezembro de 1828; que tudo agora ali está velado por farto lençol de neve; que atravessa o corpo o frígido vento, que de lá sopra; que toda aquela parte da Beira é como um corpo morto e amortalhado.
Vinde, porém, assim mesmo. A hospitalidade é lá generosa e franca, e na lareira das asas crepitam os cavacos e ramos secos.
Daquela altura parecer-vos-á planície, este imenso espaço até ao Caramulo.
Levar-vos-ei ao presbitério de S. Romão: quereis vir?

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