terça-feira, 18 de março de 2008

O sentimento da língua

A propósito do recente acordo ortográfico que felizmente e finalmente nos vai permitir escrever com as mesmas regras em qualquer parte do mundo onde se falar o português, relembro este pequeno texto, dum livro meio perdido, sobre a língua e o sentimento.

(...) A aprendizagem da língua inicia-se com a mais amorosa das mestras – a autora dos nossos dias – no livro mais lindo da humanidade, num livro de amor – o seu coração. A primeira palavra que aprendemos é também a mais doce do vocabulário. É o nome da nossa santa professora – Mãe.
A linguagem incarna-se no nosso corpo e faz-se alma da nossa pátria. Mal nascemos começa logo a embalar-nos em melodiosas canções, num coro de anjos:

Dorme, dorme, meu filhinho,
Um soninho descansado,
Que o Anjo da tua Guarda
Vela por ti a teu lado.

Quando entramos no quartel florido dos dezoito anos, isto é, quando o céu do nosso viver é só constelado de esperanças e de sonhos, a linguagem aninha-se no coração e irrompe em explosões de amor:

Costumei tanto os meus olhos
A namorarem os teus
Que, de tanto os confundir,
Nem já sei quais são os meus.

E já na velhice, a linguagem – nota solta e estridente duma alma que viveu e sofreu – adquire o acre sabor de uma despedida:

Quem diz que a despedida
Nada custa ao coração,
Quem tal diz que se despeça
E verá se custa ou não!

(...) Fala-se uma língua estranha pela inteligência, só a nossa pelo coração. Uma é instrumento de utilitarismo; outra é lira de afeições.
Formosa língua minha! Nasceste para todos nós numa alvorada de amor com a palavra Mãe e és tão boa e tão grata que gravaste para sempre, na nossa alma, um eco bem distinto dessa voz que primeiro soou aos nossos ouvidos um canto de louvor e de saudade, traduzido em duas simples palavras: meu filho!


Em “Como se aprende a redigir” de José Guerreiro Murta, 1925.

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