sábado, 1 de março de 2008

Poetas brasileiros em Portugal I – Ronald de Carvalho (1893-1935)




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Nasceu no Rio, licenciou-se em Direito e seguiu a carreira diplomática. Figura do modernismo português e brasileiro. Com Luis de Montalvor, Fernando Pessoa e outros, participa na revista Orpheu. Morreu muito novo, num trágico acidente de automóvel.
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ADVERTÊNCIA

Europeu!
Nos tabuleiros de xadrez da tua aldeia,
na tua casa de madeira, pequenina, coberta de hera,
na tua casa de pinhões e beirais, vigiada por filas de cercas paralelas, com trepadeiras moles balançando e florindo;
Na tua sala de jantar, junto do fogão de azulejos, cheirando a resina de pinheiro e faia;
Na tua sala de jantar, em que os teus avós leram a Bíblia e discutiram casamentos, colheitas e enterros;
Entre as tuas arcas bojudas e pretas, com lãs felpudas e linhos encardidos, colares, gravuras, papéis graves e moedas roubadas ao inútil maravilhoso;
Diante do teu riacho, mais antigo que as Cruzadas, desse teu riacho serviçal, que engorda trutas e carpas;

Europeu!
Em frente da tua paisagem, dessa tua paisagem com estradas, quintalejos, campanários e burgos, que cabe toda na bola de vidro do teu jardim;
Diante dessas tuas árvores que conheces pelo nome- o carvalho do açude, o choupo do ferreiro, a tília da ponte — que conheces pelo nome como os teus cães, os teus jumentos e as tuas vacas;

Europeu! filho da obediência, da economia e do bom senso,
Tu não sabes o que é ser Americano!
Ah! os tumultos do nosso sangue temperado em saltos e disparadas sobre pampas, savanas, planaltos, caatingas onde estouram boiadas tontas, onde estouram batuques de cascos, tropel de patas, torvelinho de chifres!
Alegria virgem das voltas que o laço dá na coxilha verde,
Alegria virgem de rios-mares, enxurradas, planícies cósmicas, picos e grimpas, terras livres, ares livres, florestas sem lei!
Alegria de inventar, de descobrir, de correr!
Alegria de criar o caminho com a planta do pé!

Europeu!
Nessa maré de massas informes, onde as raças e as línguas se dissolvem,
O nosso espírito áspero e ingénuo flutua sobre as coisas, sobre todas as coisas divinamente rudes, onde bóia a luz selvagem do dia americano!
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Em “Toda a América”, 1926.


SABEDORIA

Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!

Faz da tua realidade
uma obra de beleza

Só uma vez amadurece,
efémero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...


Em “Epigramas Irónicos e Sentimentais”, 1922.

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