quarta-feira, 2 de abril de 2008

Agostinho de Campos II – As poucas graças

Agostinho de Campos era muitas vezes um homem de poucas graças. Ele próprio reconheceu que tinha fama de “rabugento”.

Em “Língua e má língua”, um dos capítulos é sobre a atribuição do prémio Ricardo Malheiros de 1938. Este era um prémio literário importante, instituído pela Academia das Ciências para obras de ficção. O prémio tinha ainda poucos anos, mas já o tinham ganho Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Antero de Figueiredo e Sousa Costa. Além disso o seu valor monetário, de dez contos, era significativo para a época.

Agostinho de Campos é nomeado para presidir ao júri que inclui Eugénio de Castro e Rebelo Gonçalves. Apenas um romance se apresenta a concurso. Chama-se Ana Paula e é escrito pelo jovem de 30 anos, Joaquim Paço d’Arcos.
Paço d’Arcos era um homem do regime pois ocupava na altura a chefia dos serviços de imprensa do Ministério de Negócios Estrangeiros, cargo que creio que exerceu durante mais de 25 anos, e seria escritor já conhecido, pois contava com alguns livros publicados, entre os quais o Ana Paula - que tinha sido alvo de uma polémica educada, entre Gaspar Simões e o autor, nas páginas do Suplemento Literário do Diário de Lisboa.

Sendo a única obra aceite a concurso, o júri tinha perante si a difícil tarefa de a considerar virtual vencedora, por falta de comparência de outros concorrentes ou pura e simplesmente não considerar o livro merecedor do prémio e por isso não entregar qualquer prémio nesse ano.

Agostinho de Campos traça uma bissectriz original: propõe a entrega do prémio ao Ana Paula com a publicação do parecer do júri e respectivo anexo. Este anexo é coisa que nunca se tinha visto antes: é uma extensa colecção de erros de gramática, de ortografia, de francesismos e outros erros ou defeitos “apanhados” por Agostinho de Campos, página a página e mais um capítulo do anexo sobre o uso impróprio da palavra “si”.

Foi um escândalo nos jornais: Joaquim Paço d’Arcos sente-se vexado e magoado e renuncia ao prémio, para salvar aquilo que considera ser a sua “dignidade literária”. É apoiado por muita gente ligada aos meios intelectuais e por amigos, entre os quais Marcelo Caetano. No seu diário (vol 3º, 1977), anos mais tarde, descreveria Agostinho dos Campos como “gramático teimoso” e “casmurro”.

Exposto desta forma, apetece dar razão ao “artista” e ao “criativo”[Joaquim Paço d'Arcos é geralmente considerado um importante escritor português do século vinte], contra o “polícia da língua” que seria Agostinho de Campos. Porém, basta a leitura do tão contestado anexo para que se perceba que a razão estava do lado do velho mestre “teimoso” e “casmurro”. A mim, resta-me apenas uma dúvida: se qualquer outro livro analisado desta forma por Agostinho de Campos, não seria susceptível de incluir um anexo com lista equivalente de erros.

1 comentário:

  1. Claro que seria susceptível.
    Todos. Só se exceptuam os de João de Araújo Correia.
    - Montexto

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