sexta-feira, 4 de abril de 2008

Agostinho de Campos III – Micróbios do estilo



Ainda dois extractos do livro “Língua e má língua”:

1. Quase todo o português que precisa de escrever um texto, por mais simples que seja, tem medo de tropeçar nos “ques” e o cuidado de evitar a repetição do “que”, “que”, “que”. Mas ninguém repara na teimosia do artigo ou numeral “um”, “uma”.
O filólogo e purista brasileiro Melo Carvalho chamava ao abuso de “um, uma” a “suinização da linguagem”, alegando que o “um” se assemelha ao grunhido daqueles animais cuja carne é saborosa, mas cuja eloquência não deve imitar-se (...)
Títulos de notícias de jornais: Um incêndio em Caxarias. Um drama de família. Uma filarmónica desafinada. Um naufrágio no mar das Berlengas. Ora todos estes zum-zuns são, além de fanhosos e feios, perfeitamente desnecessários porque o próprio substantivo no singular mostra que não houve trinta incêndios em Caxarias, nem setenta dramas de família, nem setecentos naufrágios no mar das Berlengas. Se eu escrever no meu titulozinho “Queda grave”, quem é que pensa que houve três mil e quinhentas quedas graves?
Em ' Micróbios do estilo '

2. Outro micróbio do nosso estilo literário consiste na repetição do verbo “ser”, a propósito de tudo e de nada. Veja-se esta amostra, proveniente de relatório oficial, escrito por pessoa culta e considerada: “Os documentos adiante publicados FORAM extraídos da Torre do Tombo. Não só FORAM excluídos desta publicação os que sabíamos terem SIDO apresentados em público anteriormente, como FORAM também dispensados os que um funcionário copiou do processo, que aliás nunca FOI fornecido a qualquer pessoa estranha a estes serviços. Os documentos SÂO reproduzidos o mais exactamente possível. Resta ainda dizer que muito de propósito, todos estes textos SÃO apresentados sem comentários”.
A fala e a escrita verdadeiramente portugueses possuem recursos para evitar o intrometimento de “foram, é, tem sido, são, serão, era, hão-de ser” e por aí fora.
Consiste um desses recursos na adopção de formas verbais equivalentes à voz passiva, que devemos usar e conservar, porque representam riqueza e variedade expressivas que faltam de todo, por exemplo, na língua francesa.
“São apresentados” equivale a “apresentaram-se”; “foram excluídos” pode substituir-se por “excluiram-se”; “foi extraído” é o nosso “extraíu-se”; etc, etc. Mas vão lá tirar da memória a certos escritores o “sont presentés”, e o “ont été exclus”, e o “a été extrait”, e outros que tais. Nem a ferros.
SEJA como FOR, É preciso não SERMOS distraídos a respeito do verbo SER, que É muito metidiço. Assim É que É. É que o estilo tem de SER variado e, não SENDO assim, É fácil SER-SE acusado de monotonia estilística, o que não É agradável. Isto É a pura verdade, não É?
Em ' A Língua de “é que” e a de “foi que” '


Lá diz o ditado, que aprendemos até morrer.

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