sábado, 26 de abril de 2008

Contra-Corrente de Vergílio Ferreira II - os dias que se seguiram ao 25 de Abril

Cartaz de Vieira da Silva

Depois do dia 26 de Abril, só a 10 de Maio, quinze dias depois, se regista no diário uma nova entrada. Desta vez a situação já é analisada menos com o coração e mais com a razão. E como o tempo viria a demonstrar, com muita razão.

10-Maio (sexta). Seria útil dar o balanço de quinze dias de revolução. Mas tudo se mantém ainda confuso. No entanto, alguma coisa se vai esclarecendo: de um lado, a ideia de que a revolução é para o interesse de cada um de nós, singularizado no esquecimento dos outros; do outro lado, a visível manifestação a todos os níveis, de núcleos comunistas. Seria uma revolução PC? Greves. Já começaram. Que se não propaguem em epidemia e gerem o caos. Para onde vamos? Por sobre tudo uma certeza: os militares continuam de armas aperradas.

Hoje no liceu correu um manifesto dos meninos. Curioso: o professor foi (um)a grande vítima do fascismo. Mas é sobre ele que incide a exacerbação dos moços. No fundo, o seu programa inconfessável é simples: não estudar, passar o ano e ter o professor às ordens como têm em casa as sopeiras. Exigir dos professores boas notas, muito saber, como à criada exigem lhes traga o café ou o penico. Com o fascismo ou sem ele, o professor continua a ser o escravo que sempre foi.


O PREC – Processo Revolucionário em Curso em 1974 e 1975, foi sobretudo uma luta política, com a tentativa do PC e dos seus aliados civis e militares, em tomar o poder por formas não democráticas [aproveitando os justos sentimentos da população em pretender melhores condições de vida], e a resistência do país contra essa tentativa de estabelecer uma nova ditadura - desta vez de sinal comunista. Em Junho de 1974, Vergílio Ferreira percebia claramente a situação.

18-Junho (terça). (...) Uma boa e exacta propaganda contra o PC seria simplesmente dizer: “Quereis de novo a PIDE? Uma censura? Um campo do Tarrafal com pitadas de Sibéria? Votai no Partido Comunista.” (...) Os comunistas instalaram-se nela [na TV] e são comícios comunistas, entrevistas comunistas, inquéritos aos trabalhadores para se tirarem conclusões comunistas. Até o padre que lá funciona agora fez há dias uma prédica segundo a qual, se bem percebi, o Cristo já se tinha filiado no Partido.

21-Junho (sexta). O Partido continua a instalar-se. Agora, para desembaraço de manobras, lançam a palavra de ordem: “Quem é anticomunista é fascista.” (Ver O Século de ontem ou anteontem.) Mas é um plágio descarado do falecidíssimo Salazar: “Quem é contra a situação é comunista.” E eis, pois, que entre os dois campos fica uma pequena terra-de-ninguém: e quem aí se instalar condena-se a morrer sob fogo cruzado. Mas ao que parece, aí é que se é homem, que fazer? Como de costume, é-se homem onde se leva mais porrada.
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Em Contra-Corrente 1 (1969-1976) de Vergílio Ferreira, ed. Bertrand.

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