sábado, 5 de abril de 2008

D. Jaime de Tomás Ribeiro

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O grande poeta Tomás Ribeiro (1831-1901) explica porque escreveu o longo poema em 9 cantos, “D. Jaime”, um marco da poesia portuguesa do século dezanove:
“Nos dois últimos anos da Universidade, que deixei em 1855, começava a falar-se em União Ibérica; os meus brios de português aconselharam-me a escrever contra a tal ou qual propaganda que se queria insinuar entre nós.”

Algumas passagens que escolhi de D. Jaime:

Meu Portugal, meu berço de inocente,
lisa estrada que andei débil infante,
variado jardim do adolescente,
meu laranjal em flor sempre odorante,
minha tarde de amor, meu dia ardente,
minha noite de estrelas rutilante,
meu vergado pomar dum rico outono,
sê meu berço final no último sono!

Costumei-me a saber os teus segredos
desde que soube amar; e amei-os tanto!...
Sonhava as noites de teus dias ledos
afogado de enlevo, em riso e em pranto.
Quis dar-te hinos de amor, débeis os dedos
não sabiam soltar da lira o canto,
mas amar-te o esplendor de imenso brilho...
eu tinha um coração, e era teu filho!

Jardim da Europa à beira-mar plantado (*)
de loiros e de acácias olorosas;
de fontes e de arroios serpeado,
rasgado por torrentes alterosas,
onde num cerro erguido e requeimado
se casam em festões jasmins e rosas,
balsa virente de eternal magia
onde as aves gorgeiam noite e dia.

(...)

As flores d’aldeia são puras e belas,
Suaves aromas, vivissimas cores,
Os cravos altivos, as rosas singelas,
suspiros sentidos, leais os amores.
Quereis um raminho colhido por mim?...
Pois vinde comigo buscá-lo ao jardim.

(...)

Que idade florida e bela
a dos vinte anos! - Não é?!
ornada, embora singela,
de crenças, de esperança e fé;
em que dorme a austera e fria
luz da prosaica razão;
em que ostenta soberania
infinita o coração!
em que o mancebo tem sonhos
de fabulosa extensão
altivos, nobres, risonhos...
Que bem-fadada ilusão!...

Dos vinte anos a magia
quem pôde roubar-ma assim?
Que é dos olhos com que eu via
em cada cerro um jardim?
em cada gruta encantada
linda moura namorada
com tesoiros para mim?
em cada fonte uma fada?
em cada casa um festim?
em cada peito um abrigo?
um céu em todo o viver?
um irmão em cada amigo?
um anjo em cada mulher?
alta sina em cada estrela?
e em tudo nobreza e fé?!...

Que idade florida e bela
a dos vinte anos! - Não é?!

(...)

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;
mãe de sábios, de heróis, crime e virtude;
golfão de riso e dor, que ora serena,
ora referve e escuma em sanha rude.

Rainha do ocidente envolta em sedas,
vaidosa do seu trono de verdura,
de bosques, de jardins e de alamedas,
rica de jóias, oiro, e formusura.

Hospitaleira mãe do navegante,
atenuado, errante em mar profundo;
dominadora altiva desse Atlante
que vai do mundo velho ao novo mundo.
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(*) A expressão "Jardim da Europa à beira-mar plantado" ficou até aos nossos dias.

13 comentários:

  1. Ricardo:
    Vagueando pela Net, vim ter aqui.
    Porquê? Porque me tentei lembrar de algumas boas razões, para ainda gostar de ser portuguesa. Num momento veio-me à memória a primeira parte de D.Jaime:
    Meu Portugal, meu berço de inocente...
    Depois veio todo o poema, que durante anos, foi meu livro de cabeceira.
    Vim ver se mais alguém saberia quem foi Tomás Ribeiro ou conheceria "D.Jaime".
    Fiquei contente vendo que sim.
    Tenho o livro, já muito velhinho. De vez em quando, pego nele e releio algumas passagens.
    É como se voltasse atrás no tempo.
    É com a mesma emoção que leio as estrofes da parte em que D. Martinho discute com o espanhol, o testamento do pai da Aninhas, o encontro de D. Jaime com a filha.
    Desculpe estas lembranças de uma cota de 64 anos romântica e saudosista.
    Vou voltar, prometo.
    Maria

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    1. Estou verdadeiramente encantada!Permitam-me esta partilha.
      Descobrir quem foi Tomás Ribeiro pode parecer ingénuo ou inocente da minha parte, mas é uma delicia devo dizer... tudo começou à 3 anos atras quando fui a Lisboa e fiquei hospedada num hotel da rua Tomás Ribeiro, sentia-me grávida o que posteriormente se confirmou. Para mim o meu filho seria Tomás e sem perceber inicialmente o que compreendi depois, nasceu o meu Tomás Ribeiro, um querido filho!Sempre quis saber quem teria sido aquele Tomás Ribeiro com quem a nossa vida se encontrou assim... tinha que "nobre" e de uma beleza ímpar imaginava eu, e encontrei!Desculpem o entusiásmo!
      Filipa

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    2. Desculpe o comentário, mas um dia, a Filipa terá uma bonita história para contar ao Tomás, e um livro para lhe oferecer.
      Ainda sobre Tomás Ribeiro, veja neste blogue o poema que Camilo Castelo Branco lhe dedica:
      http://cronicas-portuguesas.blogspot.com/2008/06/poemas-de-camilo-castelo-branco.html
      Ricardo

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  2. Maria,
    Obrigado pelas suas palavras simpáticas. Não é nada cota, isso é um estado de espírito. Descobri D. Jaime sózinho e por curiosidade: a "Questão Coimbrã" de Antero contra Castilho é sobre D.Jaime; Camilo elogia o político Tomás Ribeiro num poema do seu último livro e por último, eu queria conhecer o poema da frase "jardim à beira-mar plantado". Foram estas as razões. Depois descobri que Tomás Ribeiro tinha escrito muito novo o D.Jaime e que tinha sido ministro da monarquia constitucional e um homem honrado (ou honesto, como se diz hoje).
    Parece que não está muito na moda gostar de ser português. Nesse sentido também sou romântico.
    Ricardo

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  3. Ricardo:
    Apesar dos pesares, tenho orgulho de ser portuguesa. Gosto da nossa História, dos nossos escritores (incluindo alguns actuais). Tenho pena de ver perdidos "valores" que nós bebiamos no leite materno. Tenho pena de ver, parafraseando Salgueiro Maia, "O estado a que isto chegou. Dói-me ver a Imprensa e a televisão deturparem factos, fazendo as coisas piorarem ainda mais.
    Numa atitude egoísta, fecho-me em casa, com as minhas lembranças, os meus livros. Já tentei lutar doutra forma, mas desanimei. Acho que isso aconteceu com muita gente dos gloriosos anos 60. Sonhámos demais, tentamos abrir caminhos, mas deixámos tudo pela metade.
    Desânimo? Cansaço? A velha frase de "Que quem vier atrás que feche a porta"?
    Entristece-me ver o meu País que já deu "Mundos ao Mundo", está reduzido à qualidade de terra de ninguém, vivendo de balões de oxigénio.
    Vê como sou cota?
    Abraço, amigo

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  4. Maria:
    Há quem trabalhe todos os dias na espectativa de fazer um país melhor para os seus filhos. Essa é uma tarefa que nunca está concluída. Com mais ou menos tropeções, as sociedades acabam sempre por melhorar com a passagem do tempo. Hoje, vou publicar no blogue, um breve sumário dos últimos 200 anos.
    Cumprimentos
    Ricardo

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  5. Tinha 10 anos quando li o D. Jaime pela primeira vez.
    Desde criança meu pai me dava livros, alguns talvez não muito próprios para minha idade.
    Que saudades desse tempo de criança em que comecei a forjar o gosto pela leitura e a moldar meu espírito romântico.
    Nunca mais vi "meu D. Jaime". Tenho procurado em vão. Aquelas obras belas deviam ser reeditadas para as novas gerações.
    Eu sei que os tempos são outros, que se não compadecem com romantismos, mas o conhecimento dos nossos grandes clássicos não podem ser esquecidos.
    Haverá alguém que me possa dizer onde encontrar D. Jaime?

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  6. Eu comprei o meu numa livraria do Campo Grande mesmo no início da rua do Colégio Moderno. Por baixo da casa do Mário Soares... É uma edição relativamente recente, de 1989, da Europress. A edição foi na altura apoiada pelo Instituto Português do Livro e da Leitura.
    Não sei se ainda o conseguirá obter. Não muito longe, na Biblioteca Nacional, conseguirá certamente lê-lo e fotocopiá-lo.
    Cumprimentos
    Ricardo Esteves

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  7. Sou dirigente da Associação "Os Amigos de Parada de Gonta" em Parada de Gonta terra do poeta a que fazem referência, congratulo-me com o facto de haver alguém sem raízes na nossa terra que ainda conhece a obra do poeta, recentemente publicamos uma reedição de D. Jaime de Thomaz Ribeiro. Quem quiser poderá solicitar o envio por correio! osamigospg@gmail.com

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  8. Essa iniciativa merece ser divulgada. Há pessoas que procuram o "D. Jaime" e não o conseguem encontrar.

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  9. Aos anos que tentava encontrar este poema mas nao sabia quem era o autor, mas recordo num livro das escolas tecnicas o trecho em que diz el-rei de Castela é nobre e não mandava o próprio pai entregar um filho á justiça. Possivelmente nao será assim o poema mas vão longos os anos em que estudei.
    A outra frase que nunca esqueci Portugal é lauta boda!
    Vou tentar obter o livro cumprimentos Mauricio

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    1. Comprei o D. Jaime na livraria da FNAC no Colombo. Não o tinham mas pude encomendar. Já o tenho em meu poder o que me deu enorme alegria.

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    2. Obrigado pela informação. É muito bom termos o livro disponível através da FNAC.

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