segunda-feira, 14 de abril de 2008

“Deixem funcionar o mercado!” III – Os Patinhos Feios

O que é de sublinhar no caso português é que empresas que há alguns anos faziam parte do chamado sector empresarial do Estado, que eram apontadas como algo negativo, patinhos feios a extirpar do nosso tecido económico, são hoje as grandes estrelas da economia portuguesa. Estou a referir empresas como a Galp, a EDP, a PT, a Caixa Geral de Depósitos, a TAP, etc. Tornaram-se competititivas, estão a investir aqui e lá fora e os seus gestores são respeitados e enaltecidos.

Pode-se dizer que estas empresas beneficiaram durante muito tempo de condições únicas, tais como mercados protegidos, subsídios e apoios de vária ordem, mas isso vem exactamente provar a minha opinião: a importância dos governos centrais e autarquias locais apoiarem certos projectos empresariais privados é vital. Um exemplo disso no sector privado: a AutoEuropa.

Se como vimos ontem, a nível mundial é possível juntar os “big players” financeiros a uma mesa e estabelecer um plano de acção para resolver problemas essenciais, nós aqui neste quadradinho pequenino não seremos capazes de fazer o mesmo? Agora que temos aquele horrível problema do déficit controlado, que tudo manietava, não será uma boa altura para pensar como nos vamos organizar para preparar o futuro?

Existem na minha opinião um conjunto de factores que poderiam ajudar a construir esse “ambiente” favorável ao empreendedorismo e ao desenvolvimento:

1. Um estado central forte: capaz de cumprir e fazer cumprir a lei e de gerir os seus serviços de forma eficaz e eficiente. Temos sabido dar grandes passos nesse sentido, mas há ainda muito por fazer em áreas como a Educação e a Justiça. Sente-se que os próprios serviços centrais do Estado estão em transformação, disponibilizando já alguns muitas informações e serviços via internet. É o caso da DGCI e da Segurança Social. A Universidade e a Investigação Científica estão a ter um importante impulso.
2. Um sector bancário com uma atitude diferente perante a actividade económica. Se os bancos só existem para emprestar dinheiro para comprar casa ou automóvel e não fazem empréstimos para projectos empresariais, poderemos estar a compromoter o futuro. O sector bancário precisa ser também mobilizado para o desenvolvimento. Os apoios ao investimento da União Europeia vão acabar.
3. Mais cidadania. Temos de ser mais responsáveis, mais positivos e mais interventivos. Precisamos de acreditar mais no esforço e no trabalho como forma de realização pessoal e de melhoria do nível de vida. Não há almoços grátis! Precisamos, enquanto consumidores, ser mais exigentes e dar prioridade aos produtos portugueses e enquanto trabalhadores percebermos que temos de estar permanentemente a aprender e a evoluir (o que era ontem verdade, já não é hoje). Precisamos de mostrar aos políticos que estamos atentos e não os deixar entregues a si próprios.
4. Criar regiões. Estamos aqui também no bom caminho: ao que parece tanto o PS como o PSD pretendem que durante a próxima legislatura o assunto “regionalização” tenha prioridade na agenda política, o que torna mais provável um desfecho positivo. É muito difícil gerir um país que não dispõe de estruturas regionais intermédias entre um Estado Central e 308 divisões concelhias com características muito desiguais. Há que adequar a actividade económica a cada região, criando clusters.

Economia já não é só “deixar funcionar o mercado” e acho mesmo que nunca o chegou a ser.

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