segunda-feira, 7 de abril de 2008

Eça de Queiroz, Consul em Havana.

Eça de Queiroz, vestido de chinês



Diz Lopes de Oliveira em “Eça de Queiroz, a sua vida e a sua obra”:

Chega a Havana a 20 de Dezembro de 1872. (...) Em Cuba existiam mais de cem mil colonos asiáticos, que, tendo emigrado pelo porto de Macau, se encontravam, como portugueses, sob a protecção do nosso consulado.
E todos viviam, à chegada de Eça de Queiroz, como verdadeiros escravos.
Existia em Havana uma Comissão Central de Colonização, que não só se dispensava de reconhecer a validade das cédulas que passávamos aos chinos, mas procurava mesmo impedir que as passássemos – para não suscitar veleidades de libertação. Há muitos anos que esta escravidão de facto existia.
O novo Consul travou “luta, que importava não só ao prestígio de Portugal mas à defesa da própria causa da humanidade”.
Encontrou a oposição tenaz, não só dos fazendeiros interessados na condição servil misérrima a que tinham sido reduzidos traiçoeiramente tantos homens livres, mas do próprio Governo de Cuba.
Tudo tentaram, desde a corrupção à ameaça. Em vão.
Archer de Lima [“Eça de Queiroz Diplomata”] observa: - “Compreendeu-se logo em Havana que este português de lei nunca traficaria num caso de honra. Eça aparece aqui, num dos seus aspectos desconhecidos, como um ser de excepção.”
E ainda: “Eça de Queiroz foi nas Antilhas Espanholas um grande funcionário. Guarda o Ministério dos Negócios Estrangeiros, tanto na correspondência consular como na correspondência política, vastíssimas provas duma actividade inteligente e admiravelmente bem dirigida.”
A campanha foi árdua mas gloriosa. Ela encerra uma das páginas mais belas da moderna diplomacia portuguesa.

No entanto as cartas que Eça, em 1873, dirige de Havana a Ramalho Ortigão mostram o seu estado de espírito, o seu enervamento:
“Saí da minha atmosfera, e vivo inquieto, num ar que não é o meu. Além disso, estou longe da Europa, e Você sabe quão profundamente somos europeus, Você e eu. Isto aqui – ou pelo seu mau lado espanhol, ou pelo seu curioso feitio americano (dos Estados Unidos) – é muito diferente daquilo que eu preciso. Eu preciso política, crítica, corrupção literária, humorismo, estilo, colorido, palheta; aqui, estou metido num hotel e quando discuto é sobre cambios – e, quando penso, é sobre coolies.
Portanto, oh querido amigo, Você alegre-se em poder continuar nesse obscuro e velho armário que se chama Portugal, relampejando a sua prosa e ferindo lume com a sua originalidade. Que há de melhor do que sentar-se a uma mesa – de ébano ou de pinho – e, aparando a pena, compor às linhas e à petites plumées, alguma fina subtileza de arte ou de crítica? Não há nada melhor. Eu que o diga – eu, que à hora em que Você arregaça os punhos para amassar a Verdade e deitá-la ao forno de “As Farpas” – me preparo para ir convencer o Capitão General de que os chinas não são inteiramente inferiores aos cães – ou visto a casaca-arreio, para ir para a sala do hotel, conversar sobre cousas graves com os americanos de New York, que estão “a ares!”.

E noutra carta:
"Estar longe é um grande telescópio para as virtudes da terra onde se vestiu a primeira camisa. Assim eu, de Portugal, esqueci o mau, e constantemente penso nas belas estradas do Minho, nas aldeolas brancas e frias – e frias! – no bom vinho verde que eleva a alma, nos castanheiros cheios de pássaros, que se curvam e roçam por cima do alpendre do ferrador...
Estou ridículo? Melhor! Ser ridículo é não se parecer com os insípidos. Mas o que não estou é condescendente com esta terra estúpida, para onde vim (...)."


Mais alguns meses deste inferno, e é depois a grande viagem de Eça á América do Norte.

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