terça-feira, 15 de abril de 2008

Um alegre conto de Campos Monteiro – Parte 1 de 2

“Perfeição ...e rapidez (Apontamentos de viagem)" por Campos Monteiro, em Moeda Corrente (ed. 1926)

Campolide, 8h 30m da manhã: - Subitamente, resolvi esta madrugada regressar ao Porto. Cheguei á gare do Rossio cinco minutos antes da partida. Com um pé no estribo da carruagem, tive de esperar uma infinidade de tempo que um cavalheiro espanhol, portador de uma anafada esposa, duas filhas rechonchudinhas, três filhos esgrouviados e doze malas, desatravancasse a plataforma de todos estes volumes.
Já o comboio vai dentro do túnel quando consigo pôr o outro pé dentro do vagão. Os espanhóis praguejando, somem-se com as malas lá para o fundo. Avanço pelo corredor à procura do meu lugar, mas tenho de deter-me ainda um momento porque dois rapazes – um deles alto, loiro, de monóculo – conversam tomando a passagem.
- Tu por aqui, Artur?
- É verdade. Fujo a este calor horrível de Lisboa – responde o do monóculo.
- Para a Figueira?
- Um pouco mais longe: para Biarritz.
- Bravo! Só eu não consigo pechinchar um bocadinho de estrangeiro! Imagina tu: tenho de passar o mês de Agosto em Espinho.
Ó desgraçado! – disse Artur, com um trejeito de comiseração, quase desprezo. – Espinho! Pior que a Nazaré!
Despedem-se, com um aperto de mão. Artur entra no compartimento nº 2 e toma o seu lugar, junto da janela. Eu faço o mesmo. Fico, por acaso, sentado em frente do felizardo.

Braço de Prata, 8h 40m: – Á luz radiante do sol posso enfim examinar os meus companheiros de viagem. São um velhote de cabelos brancos, óculos de aros de oiro e barretinho de seda na cabeça, uma dama de meia idade, três senhoras tão idosas e tão feias que as Górgonas (1), á vista delas, deviam parecer as três Graças e uma menina dos seus 19 anos, gentil, olhos vivos, focinhito arrebitado, e toda ela transpirando mocidade e desenvoltura. Calhou ir sentada ao lado do rapaz, e examina-o disfarçadamente, olhando de quando em vez para o Tejo, como quem goza a beleza da paisagem.

Sacavém, 8h 55m: – O comboio, por qualquer motivo de serviço, teve uma paragem forçada. O velhote vê as horas no relógio e murmura para a dama de meia idade:
- Oxalá que cheguemos á Pampilhosa a tempo de apanharmos o comboio da Beira Alta.
- Oxalá! – respondem ela e a pequena.
- É que o da Beira Alta – explica o velho dos óculos – se este for atrasado, não espera.
- Valha-nos Deus! Diz uma das senhoras feias. – E nós que vamos para Abrantes!
- Então podem ficar descansadas. O da Beira Baixa, no Entroncamento, espera sempre.
Fico sabendo que as Górgonas formam uma família aparte. Neste momento a locomotiva silva e arranca de novo. Recosto-me. Pesam-me as pálpebras. Dormito.

Setil, 9h 15m: – Acordei. Preguiçoso, entreabro ligeiramente os olhos. Vejo apenas os pés dos passageiros que vão á minha frente. O rapaz do monóculo calça sapatos amarelos, á papo seco. A rapariga, sapatos de lona branca. Acabava eu de fazer esta observação quando o sapato de Artur, hão-de ser sempre terríveis, os Artures! – deslizou dois palmos pelo tapete e se encostou ao sapato branco mais próximo. Passaram dois minutos. O sapato branco ergueu-se um pouco e pousou sobre o amarelo, numa pressão que devia ser deliciosa.
- Demónio! – disse eu para comigo, esfregando os olhos. – Estou num comboio ou num cinema?
Este meu gesto, intempestivo, fez com que as duas peças de calçado se separassem rapidamente, regressando ás posições primitivas. Endireitei o busto, como se acabasse de acordar, e olhei a um lado e outro. Artur lia o Diário de Notícias; a pequena, um livro de versos. Papá, mamã, e as três feras, dormiam como santos.

Santarém, 9h 40m: – Não há dúvida. Apesar de desconhecidos quando entraram no comboio, Artur e a pequena entendem-se ás mil maravilhas. Simulei tornar a adormecer. E eis o que vi, pelas fendas das pálpebras semi-cerradas:
Artur olhou meigamente a rapariga, que lhe correspondeu com um olhar muito mais meigo ainda. Depois sorriu. Ela sorriu também. E todo o seu rosto, desde a cóvinha do queixo á raiz do cabelo, sorria. Enfim, tendo préviamente relanceado a vista pelos circunstantes, o rapaz levou a mão ao coração. Ela virou algumas páginas do livro e indicou-lhe o título dum soneto, em caracteres maiúsculos: “Amor eterno”.
Muito significativo!
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(1) Três irmãs monstruosas da mitologia grega
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[Amanhã a 2ª e última parte deste conto]

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