quarta-feira, 16 de abril de 2008

Um alegre conto de Campos Monteiro – Parte 2 de 2

“Perfeição ...e rapidez (Apontamentos de uma viagem) por Campos Monteiro, em Moeda Corrente (ed. 1926)

[2ª e última parte do conto]

Torres Novas, 9h 56m: – Torna a haver chassez-croisé de sapatos, os amarelos acariciando os brancos, e os brancos deixando-se acariciar. Mas uma das Fúrias acorda e pergunta se já estamos no Entroncamento. Despertam os restantes. O calçado descansa. E os dois recém-namorados ficam hirtos, um a par do outro.
Mas nem por isso a correspondência cessa. O que um amante não descobre não o descobrirá um polícia da Segurança. Artur, que pousou o jornal nos joelhos, aponta, disfarçadamente, o título do artigo de fundo: – “Para onde vamos?” – Ela percebe, tem um sorriso malicioso. E volta-se para o velho:
– Papá! Chegaremos muito tarde a Salamanca?
– Lá para as dez da noite, minha filha.
– E no Hotel do Comércio esperam-nos, não é verdade?
– Pois claro. Já para lá escrevi há quatro dias.
Indiferente, como quem não ligara importância á conversa, Artur volta a página do jornal. Lê um instante a secção dos teatros. Parece, mesmo, interessá-lo muito a seguinte notícia: “Como estava anunciado, realiza-se hoje a réprise da deliciosa peça “A Chama”. Torna a estender o Diário sobre as pernas. E, com a unha do indicador, vai sublinhando as seguintes palavras: Como...se...Chama?
Novo sorriso da moça, que se demora um instante a pensar, e se inclina enfim para a mãe:
– A mamã não leu a carta que a Laura me mandou?
– Nem tive tempo – tornou a velha. – Com estas barafundas da partida...
– Tenho-a aqui. – diz a pequena.
Abre a saquinha de mão, tira um envelope azul, e de dentro dele uma larga folha de papel cheia de cursivo inglês, que estende á mãe. Mas o envelope fica na mão, o mais naturalmente possível, fazendo de quando em quando de ventarola, mas patenteando o endereço : “M.lle Maria Sara F...da C... – Rua... – Lisboa”.
E Artur ficou senhor de todas as indicações necessárias...

Entroncamento, 10h 15m: – As três Parcas desembarcaram. Ficamos cinco passageiros apenas no compartimento. Os velhos dormitam outra vez. Eu vejo no espelho do lado que Artur tomou uma das mãos de Maria Sara, e não há meio de largá-la.

Albergaria, 10h 58m: – Chamaram para almoçar. Fico numa mesinha a par de outra maior, que tocou a Artur e á família que vai para Salamanca. Não há convivência como a da mesa. Os quatro conversam animadamente. Artur serve Água do Luso á mãe, vinho do Dão á filha, charutos ao pai. No afã de se mostrar delicado e serviçal, as suas mãos andam numa azáfama por cima da mesa. E, por baixo, o seu joelho roça suavemente o de Maria Sara.

Alfarelos, 11h 40m: – Terminou o almoço. Ao atravessar o corredor, a velha entrou no lavabo. O velho ficou esperando-a. Eu debrucei-me na portinhola, para respirar um pouco de ar fresco. Os dois namorados seguem. Olham para trás, vêem o corredor deserto, e enlaçam-se pela cintura.

Coimbra, 12h 11m: – Não voltei ao compartimento, onde faz muito calor. Vejo no espelho porém, tudo que lá se passa. Artur e Maria Sara conversam. Os velhos lêem. Mas uma voz grita na gare:
– Arrufadas frescas!
Os dois velhos debruçam-se na portinhola, muito interessados na compra do doce. E num impulso irresístivel, os rostos de Artur e Maria Sara aproximam-se, os seus lábios unem-se num arroubo inefável.
Não se pode exigir mais de dois jovens que, quatro horas antes, se não conheciam ainda.

Mealhada, 12h 30m: – Lá ficaram na Pampilhosa os velhos, a rapariga e o rapaz. Devem ir a estas horas pelas alturas de Mortágua. Tenho pena de não ter podido acompanhá-los, na certeza de que estes apontamentos terminariam da seguinte forma:

Santa Comba, 13h 51m: – Pelo sr. Artur Qualquer Coisa foi pedida em casamento, a seus pais, que viajam no mesmo comboio, a mão da menina Maria Sara F...da C...

Mangualde, 12h 40m: – Realizou-se o consórcio do sr. Artur Qualquer Coisa com a ex.ma sr.a D. Maria Sara, etc.

Vilar Formoso, 17h 49m: – Deu á luz um robusto menino a esposa do nosso prezado amigo sr. Artur Qualquer Coisa, distinto sportsman lisboeta.

FIM

Sem comentários:

Enviar um comentário