sexta-feira, 9 de maio de 2008

Al-Edrisi e o imaginário medieval português

Mapa mundo de Al-Edrisi






















Porque há poucos dias recordei Ibne Mucana de Alcabideche, resolvi hoje* assinalar outra figura árabe, Al-Edrisi (ou Al-Idrisi), um geógrafo medieval muito importante e conhecido.
É geralmente muito citada a carta do Prestes João de 1170, como fazendo parte do imaginário medieval e do quadro mental português, que influenciaria mais tarde a epopeia lusíada da procura do Prestes João, liderada pelo Infante D. Henrique. É contudo menos referida a possível influência de Al-Edrisi que em 1154 publica a sua Geografia.
No seu mapa, era considerado que as zonas mais ao Sul de África seriam inabitáveis devido ao calor excessivo [já os gregos assim pensavam]. A Peninsula Ibérica é desenhada com os principais rios que vêm desaguar ao território português e com a Serra da Estrela. Diz Al-Edrisi:

“O oceano rodeia os limites terrestres e tudo para além daí é desconhecido. Ninguém foi capaz de verificar o que quer que fosse, devido às dificuldades e perigos da navegação, a sua grande obscuridade, profundidade e tempestades frequentes; devido ao medo dos peixes monstruosos e terríveis ventos; no entanto existem muitas ilhas, umas com gente e outras desabitadas. Nenhum marinheiro se arrisca a entrar nessas águas profundas, e se alguns o fizeram, foi percorrendo ao longo das costas terrestres, receosos de se afastar demasiado. As ondas deste oceano, embora movendo-se com altura de montanhas, mantêem-se inteiras e sem se quebrar, porque se se quebrassem, seria impossível para um barco ultrapassá-las.“

Ao olhar o seu mapa, seria possível chegar pelo oceano, contornando África, à Índia...
Al-Edresi narra o episódio de um grupo de fugitivos, que no século oitavo fugiam da Península Ibérica, que estava a ser ocupada pelos mouros. Tratava-se de um arcebispo do Porto, seis bispos e outros cristãos que saíram numa embarcação de Lisboa:
“Depois de onze dias de navegação, chegaram a um mar, cujas espessas águas exalavam um cheiro fétido (...) em seguida navegaram para o Sul durante doze dias e chegaram à ilha dos carneiros, de carne amarga e impossível de comer. Continuando para sul durante mais doze dias, aportaram a um grande cidade onde viram homens nus, de alta estatura, com a pele vermelha, o corpo coberto de pêlos e com cabelos lisos e compridos. As mulheres eram extremamente belas.”
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Aqueles marinheiros que partiram de Lisboa já seriam, no século oitavo, mareantes experientes e demonstravam que era possível navegar durante muitos dias para Sul.

*Só hoje tive conhecimento que em 2,3 e 4 de Maio [no passado fim-de-semana], decorreu uma Conferência Internacional, subordinada ao tema O Gharb al-Andalus na obra do geógrafo al-Idrisi, em Vila Real de Santo António.

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