sábado, 10 de maio de 2008

História no Paraíso I – por Aquilino Ribeiro

Aquilino tinha aquela grande qualidade da palavra, que era não só uma erudição académica, fruto da sua formação de seminário e de muitas leituras, mas também uma “erudição popular”, se é lícita a expressão, consequência da sua vivência e observação. Tinha ainda uma incomensurável imaginação, como se pode comprovar através deste conto “fantástico” de 1913, intitulado no original “Triunfal”.

Triunfal
(Parte 1 de 3)

Tinha Deus aposentado Adão e Eva no Jardim das Delícias, onde viviam como os mais desabusados regalões. O homem era esbelto e sólido, embora nunca houvesse exercitado os tendões na marcha, nem apurado os bíceps a colher o antílope no laço; ela, um lambisco de primeira, esgalgada e especiosa, a quem os cabelos vestiam de oiro à maravilha, sem pensar na folha de parra para a nudez, nem cinábrio para a boca, que de seu natural era rubicunda.
Não sabiam de onde eram, nem como estavam ali, nem tão pouco se importavam de saber; acharam-se dentro do horto uma boa manhã, e todas as demais manhãs, na plenitude dum gozo inapreciável, porque nunca espinho, sol mais destemperado ou hora amarga lhes ensinara que aquilo era o sumo bem. Se alguma coisa soubessem desejar, o seu Senhor provê-los-ia instantânea e abundantemente como o mais solícito mordomo; mas nem desejos, nem cobiças, nem necessidades, picavam os seus corações inocentes; não admiravam porque tudo era admirável; júbilos, ternuras, esperanças não sentiam, que Deus gerara a vida, mas ainda não concebera a morte. No céu, sempre azul, o sol trazia o dia, levava o dia, sem que sombras ou raios mais vivos ferissem as suas pupilas bem-aventuradas. Eram uns felizes felizardos cem por cento, usufrutuários dum regalo tão sem balizas que não o sabiam avaliar, mas em que criam de boa fé porque assim lhes fora dito. De beatitude tão absorta, apenas um aviso de Deus os distraía, se a isso se chama distrair, numa punção doce, mais leve que a sombra dum reflexo de cuidado.
– Gozem, gozem, mas muita cautela, não me toquem na árvore da ciência!...Vejam lá! No dia em que o fizessem tinha-lhes soado a hora da desgraça...Tu, homem, ias regar a terra com o suor do corpo; e tu, mulher, serias votada à condição da criatura mais frágil e cativa entre as criaturas.
– Mas, Senhor – retorquiu nosso pai, que era um moloço fiel – nós seremos tão tolos que desrespeitemos as vossas ordens?! Não, meu senhor, enquanto eu aqui estiver, ninguém toca na tal árvore da ciência.
– Bonita charada! Pois está bem de ver que ninguém toca – acudiu Eva, com certo despeito por ser excluída pelo homem do resguardo prometido. – A questão toda é saber-se qual ela é...
– É verdade, Senhor, ninguém ergue um dedo para semelhante planta – tornou nosso pai que era cabeçudo. – Mas não seria mau ensinar-nos qual é...
– Se o dissesse, perdia todo o mérito a vossa observância. Além de que ficavam a saber tanto como eu! A árvore defesa é aquela cujo pomo mais violenta e repentinamente lhes apetecer – respondeu o Pai Celeste. – Serão tentados a comê-lo por serpentes, abelhas, aves... a conjura toda dos elementos.
– Tão gostoso é esse pomo proibido?! – inquiriu Eva curiosa.
– Lá gostoso, não digo que não seja. Mas no sumo concentram-se todas as peçonhas. Vocês a darem a primeira dentada e o seio a tornar-se-lhes o ninho infernal dum mundo misterioso e tumultuário. Nem podem imaginar! E eu ver-me-ia obrigado a pô-los no olho da rua Gozem à farta, mas lá com as minhas recomendações, muito sentido!
Retirou-se o Padre Eterno para a excelsa morada, no meio da corte de arcanjos e de serafins, à testa da qual fungava uma filarmónica de trombetas e saxofones de oiro, tão afinada e imponente que seria capaz de competir com a charanga do Braço de Pau, que se havia de formar dali a milhões de anos na aldeia turdetana de Vila Cova à Coelheira.

(Continua)

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