domingo, 11 de maio de 2008

História no Paraíso II – por Aquilino Ribeiro

Até agora Adão e Eva viviam felizes no Paraíso, beneficiando de todos os prazeres colocados à sua disposição por Deus. O único cuidado a terem, seria o de evitarem comer o fruto da árvore da ciência. Deus prevenira-os que desobedecerem a essa ordem implicava a sua expulsão do Paraíso, mas eles estavam curiosos.

Triunfal
(Parte 2 de 3)

Adão e Eva divagando nos Jardins das Delícias, em que as árvores eram andores garridos e pasmados, e as fontes trauteavam minuetes ao espraiarem-se sobre as areias de topázio e sardágata meditavam:
– Vá lá saber-se que raio de árvore é aquela! Pois não é verdade que se parecem todas umas com as outras e, em matéria de frutos, adeus, minhas encomendas, seria preciso ser pomicultor para acertar?! Nosso bom amo sempre arma cada esparrela à gente!
– Assim miraculoso e vedado, muito bom deve ser tal fruto! – murmurou Eva, relanceando olhos escrutadores aos pomos sazonados, sem grainha e sem bichos, que se lhes ofereciam dos ramos.
– Se deve! – assentiu o homem, abanando a fronte, sombreada de espessa guedelha preta.
Seu enigmático patrão, outro dia que os surpreendeu em consultas ralhadas um com o outro, foi um pouco mais longe:
– Nesse fruto, meus meninos, estão açaimados todos os flagelos... ódio, ciúme, angústia... guerra...
– Só flagelos, Senhor?
– Flagelos... e poucos e mentidos prazeres.
– Mas os nossos olhos são de cegos! – argumentou Adão. – Sem querer, podemos faltar às vossas ordens!
– Se o meu Senhor lhe pusesse um sinalzinho de alarme... – observou Eva que era sagaz.
– Uma campainha, não? O alarme ser-lhes-á dado por tudo à roda: aves, flores, céu. E não lhes digo mais nada.
E, desde então, no intuito de não delinquirem por ignorância, o entendimento deles palpitou por saber qual era o fruto temível e saborosíssimo que encerrava os príncipios que frutificavam em angústia e guerra e em raros e falaciosos deleites. Não compreendendo do que se tratava, nem que coisa era tal monstro, experimentavam um respeitável medo. Na variedade infinita do Éden, todos os pomos eram óptimos e cometedores. De cada um lhes diziam picanços e vespões, quando se banqueteavam:
– Oh que bem que sabe! Provem, provem!
Mas qual fosse o pomo singular, que compreendia tão tremendo laboratório, não atinavam os divinos moradores. E porque não atinassem, o receio de poderem, involuntariamente, trair o amo flutuava em seu cuidado e já enrugava a face lisa do seu mar de doçuras. E, se em corpo e alma permaneciam purinhos sem a menor mácula, começavam a sentir o gume dos dias lavrando sulcos mansos na sua felicidade.

Às temporadas, o Senhor descia a visitar os colonos; e havia grande arraial no Jardim das Delícias, em que os animais todos, desde o grilo ao diplodoco, tomavam parte. Adão e Eva entoavam o proverbial Te Deum festivo dos súbditos, sempre agradecidos, aos monarcas, sempre paternais. Faziam coro leões, tigres, elefantes e muitos outros paquidermes, todos mais pacíficos e bem ensinados que cónegos e acólitos de catedral em dia de jubileu.
Sempre Deus se retirava contente, cofiando o linho alvíssimo da barba e rebolando a menina do olho na fronte sumptuosa de ancião. Duma dessas visitas, quando percorriam os três uma das alamedas do parque, abóbadas de frutos, Eva rompeu a choramingar:
– Mas, Senhor, temos medo de cair em erro. Que fadário o nosso! Por quem sois, por vossas bonitas barbas de prata, dizei-nos qual é o pomo proibido...!
De má catadura, o Senhor atalhou que nem era bom falar nisso, pois seriam réprobos no dia em que o soubessem. Eva, entretanto, que estava podre de mimo, rompeu a colher frutos e a lançar-lhos aos pés. E, cortando, cortando, ora as açucaradas peras, ora as romãs rubras e as camoesas ingénuas, interrogava:
– É este, Paizinho do Céu?
E, invariavelmente, Deus respondia, severo mas não irado:
– Não, Eva, não!
– E este, meu rico Senhor?
– Nada, nada disso!
– Ah, que nos quereis perder!
– Que heresia, Eva, que heresia! Mais do que isso, que má-criação! Já disse e redisse que seriam tentados pela conjura dos elementos, por todos os seres... todinhos, até por aquele feio bicho... – e o Deus do Céu e da Terra apontava duas serpentes de rabo a bulir, tão cosidas uma à outra, como um calabre a destrançar, e as duas cabeças sobrepostas, que davam ideia do cabuchão dum anel.
– Ah! – e Eva, que era a finura das finuras, deu conta que, no olhito de Deus, boiava mais luminosa a sua cintila luminosa. Estariam então perto do fruto proibido? Deus, porém, não o confessava, e lá iam arrastando o temor de ser maus servos e a curiosidade de devassar um mistério de tão estupenda cubagem. Estes dois sentimentos mitigavam-lhes a beatitude exaustiva de colonos do Jardim das Delícias. E a asa do tempo já muito bem a sentiam ir revoando.


(Continua)

Sem comentários:

Enviar um comentário