segunda-feira, 12 de maio de 2008

História no Paraíso III – por Aquilino Ribeiro

Sempre julguei que a história de Adão e Eva no Paraíso, servia principalmente para estigmatizar a mulher, por parte da hierarquia masculina da igreja e da sociedade, mostrando Adão não exactamente como um inocente, mas quase. Digamos que de alguma forma, ele fora arrastado para a desobediência a Deus, pela companheira. Este anátema sobre as mulheres, permitia mostrar a todos a verdadeira natureza maldosa do género. Claro que Aquilino Ribeiro não poderia nunca concordar. Que solução foi ele encontrar para a questão?

Triunfal
(Parte 3 de 3)

Uma tarde, à sombra fresca dos castanheiros, que davam ricas castanhas longais, sem que precisassem de as dar, cismavam na tentação em que viria colaborar a criação inteira e que tornaria as suas almas seara emaranhada do saber e campo aceso de peleja. Franjada, suando um subtil torpor sobre as rosas e as abelhas, singrava no céu uma nuvem. Uma nuvem, que para eles não tinha nada de comparável, visto que a sua candidez era completa e insciente. Os cronistas mosaicos do século II viriam a compará-la a um grande avejão apocalíptico, emplumado de branco e com rémiges de fogo. Os animais, ia ela pairando, enlanguesciam em sonâmbula lassitude; já duas gazelas, na orla do ribeiro, se perseguiam arrifando. Agastadas, as flores descaíam para terra, e no ar o polén e os aromas, encontrando impenetrável o plafond, rebatiam-se sobre o solo e empestavam o ambiente de enjoativa mofeta. Pelas fendas das rochas – que todas eram no Paraíso de ágata e alvo alabastro – os lagartos confundiam suas casacas verde-gaio.

Adão e Eva, num quebranto que lhes envincilhava os membros ágeis, contemplavam de pupila semimorta o trejeito imprevisto dos seres. A nuvem ancorara sobre eles, de todo impedindo de voar para o trono de Deus a sortida perfumaria do Éden. Como cobras sonolentas, os bálsamos rastejavam e envolviam os corpos nus e cândidos de nossos pais.
– Estamos enredados em hera – balbuciou a mulher.
– São cordas de sol que passam pelo arvoredo – respondeu Adão.
Eva lembrou-se que o Senhor dissera: sereis tentados a comer o pomo proibido pela conjura dos elementos. Teria batido a hora? Palpitou-lhe que sim, mas tolheu-se de advertir Adão. O que fosse, soaria.
Tudo à volta deles era suspeito: aquela languidez; os bichos a arfar; o colapso das rosas; o estado de sideração do Jardim todo. Na riba encantada da lagoa, a libré vistosa de dois crocodilos palpitava, e, a meio dos bosques, suspiros estranhos feriam o silêncio.
– Ai, anda-me lume no rosto! – gemeu Eva.
– Qual lume! Já te disse, são os incensos que encontram fechada a porta dos céus... – respondeu Adão.
– E porque está fechada, homem? – atreveu-se ela a dizer, quase a descair em revelar-lhe a sua apreensão.
– Eu sei lá! Pergunta-o ao nosso amo...
A nuvem baixou ainda, até poisar sobre a copa das árvores. Uma luz indecisa banhava o Paraíso.
– Que nuvem tão carregada! Abafa-me!... Ah! – lamuriou Eva.
– Cala-te, é a aeronave em que Deus vem visitar-nos.
As cobras agora enroscavam-se umas nas outras e os pardais espenujavam-se, bicando-se, por entre os ramos floridos. Rolando-se enervada e brincalhona, Eva descaiu sobre nosso pai. E no peito lãzudo dele as narinas de Eva ruflaram. Depois, com meiguice nova, as suas formas cheias roçaram a musculatura seca. Ao mordê-la nos bicos dos seios, proferiu ela em voz quebrada:
– Rico sabor há-de ter o fruto misterioso do bem e do mal?
– Porquê?
– Se não tivesse, não era assim proibido!
Adão suspendeu-se a reflectir. Depois proferiu:
– Mas não era melhor que nosso amo nos dissesse: o fruto, ei-lo! Agora, amigos, vejam lá no que se metem!
– Quem sabe lá se uma pessoa se não tentava mais depressa!
– Tu serias capaz, eu não.
– Sei lá!

Como estivessem muito próximas, involuntariamente as fontes frescas de suas bocas juntaram-se. E pareceu a qualquer deles que era doce como o mel, um mel inefável. Adão estirou a perna num esticão nervoso; gaiata e a rir como a água nos seixos, nossa mãe apertou-lha entre as suas, pronunciando:
– Olha para ali... olha como se enroscam as serpentes...!
E Eva, à semelhança, tentou enliçar-se nos braços rijos de Adão. A nuvem misteriosa, recurvando as pontas, lançara sobre o parque um velário, onde as laranjas quase luziam como pequeninos sóis a distância. Um suspiro de mil suspiros errava no ar.
– Faze-me como as serpentes e como a nuvem – disse para Adão a tentadora e subtil.
E o homem acedeu. Na encontrada dualidade, dor e volúpia, daquele braço, pressentiu Eva que haviam descoberto o perigoso fruto. Mas o sumo bem, que se lhes deparou, era mais forte que tudo – Deus, a angústia, a guerra crónica. O temor de arrostar a cólera divina e o orgulho de devassar os enigmas celestes, por outro lado, mais fogo traziam ao seu fogo. A nuvem oscilou sobre eles e cambiaram as tintas; de escarlate, o ar coloriu-se do oiro do conseguimento, depois do fosco da saciedade; e a nuvem, alcandorada num instante como enorme avejão, desprendeu-se e librou-se nas alturas. Arquejantes mas risonhos, nossos pais compreenderam que haviam tragado o pomo em que se encerrava a peçonha do bem e do mal e que tudo o que Deus lhes dissera fora em tom de alegoria. Uma paz inquietadora paralisava o Jardim das Delícias. E ficaram transidos de ânsia, à espera.
Por cima deles repercutiu, a breve espaço, um formidável trovão que os atirou um contra o outro a bater os dentes de medo. Robles, castanheiros e olmos lascavam em sinistro fragor, e as aves, alucinadas, corriam o espaço, como setas na batalha dos Anjos Revéis.
Um serafim, de cenho raivoso e couraçado, veio voando do alto direito a eles. E, à espadeirada, enxotou-os para fora do horto, em volta do qual surgiram, de golpe, muros altos, insuperáveis.
– Perdão, senhor Anjo! – suplicou Eva, ajoelhando. – Pecámos por ignorância...
– Por ignorância!? – ribombou a voz de Deus entre nuvens. – Ser preverso e astucioso, já o teu coração tinha adivinhado antes de a tua carne o sentir. A mim não enganas tu! Há muito que a tua alma sofria entre o mistério e o desejo. Encontraste; agora ide, ide para o mundo sem fim, sofrer, lutar, correr por entre mil tormentas para a ténue emboscada de um gozo.
Eva soluçava; Adão, sacudindo a cabeça em rasgo de decisão, travou dela nos braços:
– Que importa, se descobrimos o amor e decifrámos o enigma da vida! Que importa, se conhecemos os segredos de Deus!
A criação inteira rompeu empós. E até as aves em seu cantar pareciam dizer:
– Também vamos, ó homem, para o mundo sem fim. Amor, és tudo!
As cancelas do divino horto fecharam-se de repelão; a terra e o céu ardiam, as ondas no mar ardiam.
Nossos pais meteram, de cabeça dobrada, contra o frio e o vento. Dos animaizinhos, não obstante não terem sido escorraçados do Jardim das Delícias, cada par, mesmo os mochos, disparou para seu souto. Ao fim do amplexo que povoou o mundo, uma voz melopaica murmurejou, subiu em acento, esplendeu um hino, a vida toda. E era um triunfal:
– Amor, amor és tudo! A ti nos rendemos na dor e na alegria! Amor, és tudo!

Afinal, o verdadeiro motivo da expulsão do Paraíso teria sido um fruto muito especial: o amor prazenteiro entre Adão e Eva, leia-se – sexo. Quem o praticasse, nunca poderia almejar a permanência no Paraíso.

[Este.conto.pode.também.ser.lido.em

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