quarta-feira, 18 de junho de 2008

A Fundação Eça de Queiroz e Tormes

Quase tenho vergonha de dizer que nunca visitei Tormes e a Fundação Eça de Queiroz (FEQ). Deveria ser um local sagrado de peregrinação para todos… julgo que as agências de viagens portuguesas, deveriam pensar oferecer produtos de turismo cultural com maior frequência e maior visibilidade, nomeadamente que envolvessem este tipo de destinos, como faz por exemplo a Martin Randall Travel para os britânicos
(ver
http://cronicas-portuguesas.blogspot.com/2008/02/o-turismo-cultural-da-martin-randall.html).

Um dos percursos sugeridos pela FEQ é o de Jacinto (de A Cidade e as Serras) entre a estação de comboios e a quinta (ver figura ao lado e consultar http://www.feq.pt/), que logo nos faz vir á lembrança o que conta o "nosso" Zé Fernandes, naquela primeira refeição de Jacinto em Tormes:

Daquela janela, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que não anda sómente cheia do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem enfim descansa.
Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do «jantarinho de suas Incelências». Era noutra sala, mais nua, mais abandonada:--e aí logo á porta o meu supercivilizado Príncipe estacou, estarrecido pelo desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa, duas velas de sebo em castiçais de lata alumiavam grossos pratos de louça amarela, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro. Os copos, dum vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que neles passara em fartos anos de fartas vindimas. A malga de barro, atestada de azeitonas pretas, contentaria Diógenes. Espetado na côdea dum imenso pão reluzia um imenso facalhão. E na cadeira senhorial reservada ao meu Príncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a clina fugia em melenas pelos rasgões do assento puído.
Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto ocupou a sede ancestral--e, durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou--e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto:--«Está bom!»
Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
--Também lá volto! exclamava Jacinto com uma convicção imensa. É que estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas!... Tentou todavia uma garfada tímida--e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
--Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia!
E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio...
--Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!
O homem óptimo sorria, inteiramente desanuviado:
--Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até suas Incelências se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, também vai engordar e enrijar!
O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... E o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar:--«É divino!» Mas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, á vela de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou Virgílio:
--Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável destas serras?
Eu, que não gosto que me avantagem em saber clássico, espanejei logo também o meu Virgílio, louvando as doçuras da vida rural:
--Hanc olim veteres vitam coluere Sabini... Assim viveram os velhos Sabinos. Assim Rómulo e Remo... Assim cresceu a valente Etrúria. Assim Roma se tornou a maravilha do mundo!
E imóvel, com a mão agarrada á infusa, o Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia.
Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspícios do Melchior--que ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós se alongava uma noite de monte, voltamos para as janelas desvidraçadas, na sala imensa, a contemplar o sumptuoso céu de Verão.

Tal como Jacinto, sou cem por cento citadino e abomino favas. Tenho de lá ir!
A Fundação disponibiliza refeições queirosianas , alojamento, visitas guiadas, seminários, etc. (em http://www.feq.pt/ )

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