sexta-feira, 20 de junho de 2008

A Morgadinha dos Canaviais I – A primeira noite na aldeia.

Depois de recordar há dias Júlio Dinis [1], vieram-me à memória uma ou outra passagem de A Morgadinha dos Canaviais. Como esta por exemplo, quando, obrigado por conselho médico a passar uma temporada na aldeia, devido aos ares puros e à vida bucólica e tranquila do campo, e já depois de uma longa e cansativa viagem pelo Minho [2], Henrique de Souselas - um jovem adulto, citadino alfacinha, hipocondríaco, de carácter irritadiço e pessoa de noites mal dormidas - chega finalmente ao fim do dia à Quinta de Alvapenha, casa de sua velha tia Doroteia que vive só com uma antiga ama e criada, Maria de Jesus.
A cena passa-se no momento de se deitar, entre Henrique, sua tia e Maria e tem parecenças com a primeira refeição de Jacinto em A Cidade e as Serras do Eça [3]: o bem-estar proporcionado pelas coisas simples do campo, em justaposição à elaborada e complicada vida urbana.

-- Mas vai descansar, menino, vai e faz por dormir. Olha lá: tu costumas dormir com luz?
-- Não, tia, não costumo.
-- É porque nesse caso... Ó Maria, onde está aquela lamparina, que me serviu quando eu estive doente, há seis anos?
-- Está lá dentro, senhora; se a senhora quer, eu...
-- Vê lá, menino...
-- Não, tia, não quero.
-- Há pessoas que não podem dormir às escuras -- dizia a criada. -- Eu, graças a Deus, durmo bem de qualquer forma.
-- Pois sim, mas nem todos são como você. Olha, ó Henriquinho, hás de ver se queres o travesseiro mais alto, ou...
-- Muito agradecido, tia Doroteia, tudo deve estar bom -- disse Henrique, procurando fugir às muitas reflexões, perguntas e conselhos, com que as duas o iam perseguindo até ao quarto.
-- Olha, ó menino, tu bebes água de noite?
-- Às vezes.
-- Você pôs-lhe água no quarto, Maria?
-- Pus, sim, minha senhora; pois então? Já minha mãezinha dizia que antes sem luz do que sem água.
-- Bem, então está bem. Então muito boa noite, menino.
-- Boa noite, tia.
-- Ai, é verdade. Hás de ver se queres mais roupa na cama.
-- Não hei de querer, não, tia.
-- Olha que está muito frio. Você quantos cobertores lhe deitou, ó Maria?
-- Cinco, senhora.
-- Cinco! -- exclamou Henrique, quase horrorizado. -- Cinco cobertores!
-- É pouco?
-- Pouco?! -- É de morrer esmagado debaixo deles.
-- Ai, quer não! Olha que está muito frio.
-- Bem, bem, eu cá me arranjarei.
-- Então, muito boa noite.
-- Muito boa noite, tia.
E Henrique ia a fechar a porta.
-- Olha... -- disse ainda a tia.
Henrique parou.
-- Não sei o que é que me esquece...
-- Não há de ser nada, tia; boa noite.
-- Não esquecerá?... Eu se?... Enfim... Boa noite. Ai, é verdade... Sempre é bom ficar com lumes prontos.
-- Ai, sim; lá isso sempre é bom.
-- Vês? Não que bem me parecia.
-- Já lá estão, senhora -- disse a criada de longe.
-- Melhor; então muito boa noite nos dê Nosso Senhor, menino.
-- Muito boa noite, tia.
E Henrique conseguiu fechar a porta.
Estava finalmente só.
-- Que desastrada lembrança a minha! -- disse o pobre rapaz, ao fechar a porta sobre si. -- Como posso eu viver com esta santa e virtuosa gente, que chama manias aos meus padecimentos? Que futuro de impertinências me esperava! Ai, Lisboa, Lisboa! E pensar eu que só posso voltar para ti à custa de outra jornada!
O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade. Um alto leito de almofada na cabeceira e rodapé de chita, tão alto que se não dispensava o auxílio de cadeira para trepar acima dele, uma cómoda com um pequeno espelho, um baú, um lavatório e duas cadeiras mais, constituíam a mobília toda.
Henrique de Souselas sentia a falta de mil pequenos objectos de toucador a que estava habituado. Aquele estritamente necessário não lhe prometia grandes confortos.
Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvíssimo e respirava um asseio e frescura convidativos; os travesseiros, de largos folhos engomados, possuíam uma moleza agradável às faces; o colchão de penas abatia-se suavemente sob o peso do corpo fatigado.
Henrique conchegou a roupa a si; à falta de velador pousou o castiçal no travesseiro, e, abrindo um livro que trouxera de Lisboa, pôs-se a ler, para obedecer a um hábito adquirido.
Não teria ainda lido um quarto de página, quando ouviu a voz da tia Doroteia, que lhe dizia de fora da porta:
-- Ó menino, tu já te deitaste?
-- Já, sim, tia Doroteia.
-- Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um medo de fogos!
-- Esteja descansada, tia. Eu apago já.
-- Então será melhor. S. Marçal nos acuda.
E afastou-se, rezando ao santo.
Henrique continuou a ler.
Daí a pouco a mesma voz:
-- Tu já dormes, Henriquinho?
-- Não, tia, ainda não durmo.
-- Olha que não vás adormecer sem apagar a luz. Eu tenho um medo de fogos! Não descanso, enquanto não vejo tudo apagado em casa.
Henrique perdeu a paciência.
-- Pois pode sossegar. Olhe.
E apagou a vela meio zangado.
-- Fizeste bem, fizeste bem; isto já é tarde, e é melhor fazer por dormir. Então muito boas noites.
-- Muito boas noites -- respondeu Henrique quase amuado; e ajeitando-se na cama, dizia consigo: -- E esta! Já vejo que nem ler me é permitido aqui. Olhem que vida me espera. E isto é que me devia curar? Que fatalidade!
Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de papa, únicos que conservava dos cinco primitivos, começaram a fazer o seu efeito, insinuando nos membros cansados da jornada um agradável calor. Convidavam ao sono o som da água num tanque que ficava por debaixo das janelas do quarto e as gotas da chuva, que dos beirais do telhado caíam compassadas na tábua do peitoril.
A noite sossegara. De quando em quando apenas algumas lufadas de vento, já menos impetuosas, faziam bater as vidraças. Era como estes estados, que sucedem a um choro aberto. Correm ainda algumas lágrimas nas faces, mas já não brotam novas dos olhos: saem ainda do peito os soluços, porém mais espaçados; dentro em pouco será completa a serenidade.
Henrique começou a experimentar uma languidez, um delicioso bem-estar naquele confortável leito e no meio daquele sossego; fecharam-se-lhe enfraquecidos os olhos, e deslizou suave, insensivelmente, no mais profundo, tranquilo e restaurador sono, que, havia muito tempo, tinha dormido.

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