sábado, 21 de junho de 2008

A Morgadinha dos Canaviais II – A chegada do correio.

TEMPOS DO CORREIO NO CONTINENTE, DESDE LISBOA - SEC XIX
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Uma das passagens mais divulgadas de A Morgadinha dos Canaviais é a da chegada do correio. Numa época em que as comunicações ainda eram muito lentas e difíceis, e nas aldeias não existia electricidade, nem telefone ou telégrafo, receber uma carta era um acontecimento. Por outro lado, uma atitude sacaninha de quem administra pequenos poderes, mania mesquinha muito tipicamente portuguesa, encontra-se aqui bem retratada por Júlio Dinis, na figura de Bento Pertunhas.

Chegou enfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper até ao mostrador, onde pousou a mala. O «director», depois de tossir, de assoar-se, de suspirar e de limpar os óculos com umas delongas, que formavam com a ansiedade do povo um contraste desesperador, abriu fleumaticamente o saco, extraiu um não muito volumoso maço de cartas, que despejou num cesto de vime, e tomou apontamentos.
Era digno do pincel de um artista aquele grupo de fisionomias, que seguiam ávidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bocas abertas, mãos juntas, pescoços estendidos, a cabeça inclinada para receber o menor som, tudo caracterizava profundamente a ansiedade que lhe dominava os ânimos.
Mestre Bento Pertunhas achou a ocasião apropriada para dizer a Henrique:
-- Pois, senhor, eu nasci para artista. Quase sem mestre aprendi a tocar trompa e, não é por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e expressão.
Henrique volveu o olhar para o auditório; apiedou-o a consternação daquelas fisionomias. Resolveu valer-lhe.
-- Tem a bondade de ver se há alguma carta para mim?
-- Ah! Pois já as espera hoje?
-- Não é provável; porém...
Mestre Bento Pertunhas, em vista disto, começou em voz lenta e fanhosa a leitura dos sobrescritos.
Seguiu-se novo e não menos interessante espectáculo.
A cada nome proferido, erguia-se quase sempre uma voz, às vezes um grito; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos acrescentar, ainda que se não visse, alvorotava-se um coração.
Outros, os não nomeados ainda, olhavam com ansiedade para o maço, que diminuía, e cada vez mais se lhes assombrava o semblante.
-- Luísa Escolástica, do lugar dos Cojos -- lia o mestre Pertunhas.
-- Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem! -- exclamou uma mulher jovem, apoderando-se avidamente da carta.
-- Joana Pedrosa, de Serzedo -- continuava ele.
-- Aqui estou; será do meu António, senhor? -- disse uma velha pobremente vestida.
-- Será do seu António, será -- respondeu o insensível funcionário --; o que lhe posso dizer é que traz obreia preta.
A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo aquelas sinistras palavras. Apanharam-lha, e ela, tomando-a, saiu da loja, a chorar lastimosamente.
-- Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que há de ser dela -- disse um dos circunstantes.
-- Coisas do mundo! -- respondeu outro.
Estes comentários foram interrompidos pela continuação da leitura.
-- João Carrasqueiro.
-- Pronto, senhor -- bradou um velho.
-- A mesada, hem? -- disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos óculos. -- O rapaz não se esquece.
-- Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem sido.
-- D. Madalena Adelaide de... -- É a Morgadinha, é a Morgadinha -- disseram a um tempo muitas vozes.
-- Agradecido pela novidade; era cá muito precisa a explicação -- disse o Pertunhas; e, passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de fazer a distribuição a quem a podia gratificar, acrescentou:
-- Leve-lha lá a casa.
E prosseguiu:
-- Augusto Gabriel...
-- É o mestre-escola...
-- Ora fazem o favor de estar calados! Esta... como ele vem por aqui... pode ficar... ainda que... será melhor levar-lha a casa, leve, leve também...
-- João Cancela.
-- É o João Herodes.
-- Esse foi a Lisboa.
-- Então, quando vier, que apareça.
-- O tio Zé Pereira ficou de receber as cartas. É compadre dele.
-- Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé Pereira que se ocupe com o seu zabumba e deixe lá os outros.
A leitura, mais ou menos acompanhada destes diálogos, prosseguiu, redobrando de momento para momento a ansiedade dos que iam ficando. Um fundo suspiro, uníssono, melancólico, expressivo de desalento, seguiu-se à leitura do último nome e às poucas palavras com que o funcionário fechou a tarefa.
-- E acabou-se.
Os que ainda estavam na loja saíram cabisbaixos, morosos e com má vontade, como se ainda tivessem esperança de comover a inexorável sorte.

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