domingo, 22 de junho de 2008

A Morgadinha dos Canaviais III – O discurso político de Eusébio Seabra, o “Brasileiro”.

Imagem de um caleidoscópio
Congresso do PSD: Manuela Ferreira Leite incomoda muita gente, por isso gostei do ar enfatuado e condescendente de alguns comentários de opositores internos e de alguns “analistas” mais próximos do governo. O discurso dela chama-se “falar sério”: sem grande espectáculo, sem PSD azul e com o mínimo de maquilhagem. “Que grande chatice”, parecem dizer alguns congressistas deitados sobre as cadeiras, a bater pequenas palmas, displicentemente, ou nem isso. Manuela Ferreira Leite deu mostras de pretender fazer as coisas como deve ser, e assim sendo, o país e o próprio governo do país, beneficiarão finalmente de um discurso consistente e mais credível no PSD e na oposição.

Já no tempo de Júlio Dinis, não havia pachorra para ouvir discursos “caleidoscópicos”, como o de Eusébio Seabra, o “Brasileiro” de A Morgadinha dos Canaviais.

-- Isso não é assim -- atalhou o Brasileiro, tomando uns ares catedráticos, cheios de gravidade. -- Vossemecê é ignorante e por isso é que fala desse modo.
-- Eu digo... -- tartamudeou, intimidado, o lavrador.
-- Pois sim: mas não deve meter-se a falar em coisas que não entende. As estradas não servem para nada! As estradas são meios de comunicação e... facilitam o... o... o tráfego comercial e aumentam por conseguinte a riqueza das nações... Porque o trabalho representa um capital... sim, senhores, mas... mas um capital... sim... um capital morto... quero dizer... um capital que... não vive... Quero dizer... sim... suponhamos: o crédito por exemplo... O crédito... sim... aí está o crédito... Pois que é o crédito?... O crédito é... é o crédito... depende de muitas coisas... Por outra, suponhamos... se nós não tivéssemos estradas... Uma suposição... Partamos de um princípio. A produção excede o consumo... Quero mesmo que o consumo exceda a produção... Sim, quero mesmo isso... Muito bem... Daí que resulta? Está claro que um desequilíbrio. E depois?... Depois, boas noites... Não havendo estradas... Aí está que se diz por aí que a livre exportação, que tal, que sim senhores... mais isto, mais aquilo... Pois não é assim. É preciso que se atenda também às condições económicas dos povos. Sim... eu digo: O comércio deve ser livre... Muito bem... Em termos já se sabe... Mas... o comércio livre... a livre troca... entendamo-nos... É preciso clareza de ideias... Quando eu digo que... Ora suponhamos... suponhamos que não havia estradas... Os transportes eram mais difíceis e portanto mais caros... E, se, além disso, os géneros fossem escassos, e... Diz vossemecê: para que servem as estradas? Ora diga-me uma coisa, Sr. Manuel: suponhamos que... os impostos indirectos... não precisamos de ir mais longe... os impostos indirectos... Sempre queria que me dissesse o que havia de fazer?
-- Impostos, Deus me livre deles! -- murmurou o lavrador, cujos instintos trepidaram à palavra «impostos».
-- Isso também não é assim... Deus me livre! Não se diz «Deus me livre», porque a riqueza... a riqueza... sim, a riqueza não está na terra... isto é, a riqueza está na terra... mas é preciso o capital para a exploração... Percebe?... Ou... suponhamos... por exemplo... Não... vamos cá por outro lado... Há um défice num orçamento... desce o preço das inscrições... Ora bem... Mas... suponhamos que há boas estradas, etc... A riqueza tende a aumentar... e... e... Enfim, lá que as estradas são úteis, isso é que não tem questão.
Toda esta lengalenga económica foi escutada pelo auditório com profunda atenção.
O Brasileiro, assinante e leitor infalível de vários periódicos políticos, conseguira, à força de leitura, fixar na memória certas frases do artigo de fundo, e acabara por convencer-se de que possuía grandes noções de ciência política. Em ocasiões como esta dava uma sacudidela ao intelecto, e aquelas frases, como os variados objectos do interior de um caleidoscópio, tomavam uma disposição tal ou qual, mais ou menos regular, e assim lhe saía uma dissertação, como essa que viram. Em permanente indigestão económica vivia este portento. A doença não é das mais raras entre políticos.

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