terça-feira, 24 de junho de 2008

A Morgadinha dos Canaviais IV – O presépio de Dona Vitória.

Presépio tradicional português

Diz-se que o primeiro presépio terá sido o de São Francisco de Assis. Não sei se é verdadeiro ou se é lenda, mas faz todo sentido ter sido ele o primeiro a representar a cena natalícia.
O presépio português, com o monte, o musgo e os caminhos, exerce sempre grande fascinação entre os miúdos. Quando era pequeno recordo-me que gostava de lhe acrescentar, para dar um ar mais pessoal e realista, os meus bonecos de plástico de brincar: índios e caubóis. Era apenas, claro, um comum presépio caseiro, sem as dimensões e complexidade do presépio de Dona Vitória em A Morgadinha dos Canaviais.
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Henrique voltou com o conselheiro a admirar o primor que a paciência de um artista imaginoso realizara na confecção do presépio, onde estavam representados todos os episódios da natividade de Jesus, e muitos outros.

Era efectivamente uma complicada máquina aquele presépio, e seria prova de profunda indiferença artística passar por ele sem um exame, embora fugaz.
Este traste, antiquíssimo na família, gozava de nomeada num círculo de léguas em redor. Havia empenhos para o ver no tempo do Natal, e, se algum viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava sempre quem lhe recomendasse o visitar o presépio, como coisa digna de ver-se.

Consistia ele numa espécie de Santuário de pau-preto, no meio do qual havia uma pequena gruta toda cravejada de caramujos, e rosas de papel com estames de fio de prata. Dentro desta gruta estava deitado o menino Deus, não sobre umas palhas, como a tradição refere, mas graças aos impulsos do compadecido coração de Dona Vitória, que, ainda que tarde, parecia tentear um lenitivo aos antigos rigores da humanidade, em uma bonita cama de lençóis de renda com cercadura doirada; colcha de cetim bordado, e colchão e travesseiros da mais macia penugem de aves americanas. Ao lado, Nossa Senhora e S. José, de proporções quase iguais às do menino; mais longe a vaca e a mula tradicionais. Os episódios, porém, eram inquestionavelmente o mais interessante da obra. Vários grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos os tamanhos, feitios e vestuários, ornavam a cena. Ali um cego tocador de sanfona; um grupo de galegos dançando, ao som da gaita-de-foles; uma pastora com ovos mais adiante; ao lado, um grupo celebrando um “pic-nic”, perfeita actualidade, tudo em mangas de camisa, com gravata e botas de cano; -- outros fumando e bebendo cerveja. Uma amazona inglesa com o seu jockey galopava pelas cercanias de Belém; um vareiro e uma vareira caminhavam a par com ofertas para o menino. Ao longe, nos visos da serra, apareciam os três Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar a baixo.

Não esqueceu o inspirado autor daquele monumento escultural os muros de Jerusalém. Eles lá estavam coroados de ameias e de milicianos fardados à inglesa e armados de lanças e arcabuz. Eram gigantes aqueles guerreiros, pois, não obstante estar a muralha no plano do fundo do quadro, qualquer deles era duas vezes maior do que as figuras do plano da frente. Do alto da muralha arvorava-se a bandeira portuguesa. Havia vários santos espalhados pelas agruras daquelas montanhas, e, entre os aditamentos feitos pela devoção de D. Vitória ao presépio, contava-se o de um Santo António de Lisboa, que, apesar de taumaturgo, parecia muito admirado de se ver naquele tempo e lugar. Um galo colossal soltava do telhado do presépio o grito anunciador; anjos e querubins espreitavam do Céu por entre nuvens de algodão e estrelas de ouropel. Era um prodígio!

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