domingo, 15 de junho de 2008

Poesias de Júlio Dinis

Tal como no caso de Camilo Castelo Branco (ver este blogue da passada 2ª feira), estamos perante um genial prosador, romancista do século dezanove. O nome verdadeiro de Júlio Dinis era Joaquim Guilherme Gomes Coelho, ilustre médico, nascido na cidade do Porto em 1839 e tendo falecido apenas 32 anos depois… com a doença de Sousa Martins e de tantos outros: a tuberculose.
O seu livro “Poesias” só foi publicado três anos após o seu falecimento, em 1874. Seleccionei desse livro Uma consulta, escrita em Janeiro de 1860. Teria o autor apenas 20 anos e decerto seria ainda estudante. Diz ele como comentário a este poema:
- “A lembrança não é minha absolutamente. Foi-me sugerida de um caso semelhante, que me contaram”.
Visto tratar-se de um diálogo entre médico e doente, optei por diferenciar os personagens através do uso da cor. O doente a tinta vermelha e o médico a tinta preta. Deliciemo-nos pois com a sua poesia escrita há 148 anos.


Uma consulta

- Dá licença? – Entre quem é.
- Muito bons dias – Olé,
Por aqui, minha senhora?
Desculpe vossa excelência
Se a não conhecia agora.
- Sem mais… Á sua ciência
Recorrer venho.
– Deveras?
(Senhor me dê paciência!
Nunca tu cá me vieras)
Então que temos? – Padeço
- Sim? Porém de que doença?
Essa é boa! Acaso pensa
Que eu, porventura a conheço?
- Ah! Não conhece? – Quem dera!
- Então não o consultava.
- (E eu que muito estimava)
Mas diga, então? – Eu lhe conto…
Oiça bem. Não perca um ponto.
- Nem um ponto hei de perder
- Ai doutor, doutor, meu peito…
- É do peito que padece?
Quem havia de o dizer?
- E Jesus doutor parece
Que me quer interromper?!
Não era a isso sujeito
- Nem o tornarei a ser…
Vamos lá – Ora eu começo…
Atenção é o que lhe peço;
Diga-me: que lhe pareço?
Não me acha muito abatida?
- Assim, assim; mas às vezes
A vista pode enganar.
- Não, não. Pode acreditar
Que há já um bom par de meses
É um tormento esta vida.
- Então o que é que sente?
- O que sinto? Ora eu lhe digo:
O doutor é meu amigo?
- Ó! Senhora… - E é prudente?
Oiça pois: eu dantes era
Fera e rija, que era um gosto!
Ou em Dezembro ou Agosto
Correr o mundo pudera,
Sem no fim me achar cansada
- E hoje? – Não lhe digo nada
Nem comigo posso já.
- Mau é! – Quer saber doutor?
Só para vir até cá
Que tormentos não passei!
- Diga-me, se faz favor,
Que idade tem? – Eu nem sei…
Eu sou mais nova três anos
Que o reitor da freguesia
- (É grande consolação!)
- Tenho ainda outros dois manos
Que mais velhos do que eu são
Porém, como eu lhe dizia
Doutor…
- Que mais sente então?
- A vista sinto estragada,
Até já me custa a ler,
De mais a mais sou nervosa.
Isso não lhe digo nada!
Olhe estou sempre a tremer.
- Faço ideia - Andava ansiosa
Por consultar o doutor;
Eu tenho em si muita fé
- Lisonjeia-me – Outra queixa…
Que eu sofro também
– Qual é?
- É dum forte mal de dentes.
Todos me caiem
– Bem, bem
- E os que restam, mal assentes,
Qualquer dia vão também
- É provável – Ai doutor!
Que cruel enfermidade!
Não acha?
– Acho e o pior…
- Há de curar-me, não há de?
- E então não sente mais nada?
- Nada… ai, sim, tem-me parecido,
Porém, talvez me iludisse…
- Diga – A semana passada
Como ao espelho me visse…
Pareceu-me ter percebido…
- O quê? – Que a pele não era
Como dantes, tão macia
- E então? – Quem visse dissera
Que eram rugas
– (Eu dizia)
E é isso que padece?
- Ainda pouco lhe parece
Doutor?
– Por certo que não.
- Então que doença tenho?
- Em sabê-lo muito empenho
Sempre tem? – Eu? Pois então!
Para isso o procurei.
- Bem, então sempre lho digo
Mas julgo não ficarei
Por isto, seu inimigo.
– Ó meu doutor! – O seu mal
É, senhora, de algum perigo.
- Ai Jesus! – E muita gente
Dele morre – Ó Santo Deus!
Por quem é não diga tal!
E… morre-se, de repente?
- Conforme – Pecados meus!
E então é isso que pensa?
Porém ainda me não disse
O nome dessa doença.
E eu sempre o quero saber…
- O nome? – Sim – É… velhice!
………………………………...
- E o remédio? – Morrer?

1 comentário:

  1. ele sabia como falar!c lermos com atemção tiramos muitas coisas boas para nosas vidas!

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