segunda-feira, 16 de junho de 2008

A ramalhal figura

Ou de como Augusto de Castro descreve Ramalho Ortigão, em Homens e Paisagens Que Eu Conheci, 1941.

(…) Ainda conheci o Ramalho do largo chapéu desabado, bigode frondoso, à Segundo Império, grande fato às riscas, olhar e passos de granadeiro – tal como o pintou Sargent [ver figura]. Foi seu genro Eduardo Burnay, quem me aproximou do escritor de A Holanda. Estou a vê-lo ainda subir a Rua do Alecrim, com a sua grossa bengala inglesa, o andar largo, o ar esfusiante, ou descer vagarosamente o Chiado, ao lado de Rafael Bordalo, que foi o Ramalho Ortigão da caricatura portuguesa.
Um dia – eu concluíra havia pouco a minha vida universitária e começava a minha vida literária – encontrámo-nos, numas termas do norte, Ramalho, Antero de Figueiredo e eu. Já contei publicamente este episódio, mas creio que vale a pena recordá-lo.
Depois do jantar, obrigado a canja e a compota, no simpático e barulhento hotel, costumávamos passear os três pela poeirenta e pitoresca estrada minhota que bordava a povoação. Ramalho, que era um conversador magnífico, pontificava. Naquela tarde, a conversa caíra sobre a raça, o vigor muscular, a saúde, Portugal, o português. Ramalho concluía:
- O português não sabe andar. Daí lhe provém quase todos os seus defeitos de consciência e de corpo. O andar não é apenas um exercício. É uma escola. A andar educa-se a espinha, enrijecem-se os rins, tempera-se a alma. O português corcova e arrasta-se.
E, diante de nós, o escritor juntava a prática à doutrina, aprumando-se, soberbo, no seu arcaboiço de hércules e, direito, gravemente, batendo no pó da estrada as botas de duas solas, marchava á frente, alargando as pernas.
- Assim. Assim é que se anda! Direito, firme, forte. Antero de Figueiredo, o encantador Antero, quis seguir o Mestre. Ao lado dele, eu procurava também aproveitar da lição. Mas aquilo que no escritor do Culto da Arte em Portugal era aprumo, tornava-se em nós empertigamento.
- Nada, nada disso – ditava Ramalho. Esse peito para a frente. Esses braços à vontade. Mais firmeza. Apoiem-se nos calcanhares! Esses ombros, olhe-me esses ombros, ordenava a Antero. Respire, respire melhor, gritava para mim.
Mas não. Positivamente não havia maneira. Eu e Antero dávamos dois passos e emperrávamos. E diante da simplicidade e da harmonia que aquele homem de setenta anos punha em cada um dos seus movimentos e dos seus gestos, desistimos.
Foi então que eu me atrevi a dizer:
- O que eu admiro é que, sendo o Sr. Ramalho tão amigo de Eça de Queirós, nunca o ensinasse a andar…
A “ramalhal figura”, como dizia Fradique Mendes, parou, concentrou-se um momento, gravemente e respondeu:
- Efectivamente, o Queiroz não andava. Trotava…
Creio que esta anedota dá a medida, o reflexo, o desenho – e ao mesmo tempo encerra a lição – da vida exemplar desse homem que consagrou uma existência inteira e uns trinta ou quarenta volumes a “ensinar a andar” Portugal, numa obra que é uma lição de saúde e de beleza (…).

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